Jornal do Brasil

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

Economia

"O capital no século XXI": por que o livro de Piketty causa tanta repercussão?

Especialistas brasileiros comentam obra que sacudiu universo da economia

Jornal do BrasilAna Luiza Albuquerque*

O francês Thomas Piketty sacudiu o universo da economia mundial com a recente publicação do livro O capital no século XXI. Na obra, o pesquisador avalia que a desigualdade de renda vem aumentando, a ponto de retornar aos mesmos números do século XIX. Além disso, a sociedade estaria voltando ao "capitalismo patrimonial", no qual as grandes economias não são de indivíduos talentosos que construíram seu império por meio do mérito, mas sim de dinastias familiares. O economista afirma que, por a riqueza hereditária ser tão vasta, é quase invisível - as pessoas não têm consciência de sua existência.

De acordo com o autor, o capitalismo não pode se apresentar como solução para a desigualdade, porque a distribuição de renda não acompanha o ritmo de acúmulo das riquezas. Assim, mesmo que fosse alcançado o capitalismo "perfeito", ainda haveria ricos e pobres. O livro se tornou um best-seller e foi defendido por nomes como o de Paul Krugman, economista ganhador do prêmio Nobel de 2008.

Livro de Piketty teve forte repercussão 
Livro de Piketty teve forte repercussão 

"É um bom livro porque levanta a questão da desigualdade da riqueza, que é um aspecto importante, principalmente após a crise de 2008. Thomas Piketty fez um excelente levantamento estatístico e tem o grande mérito de ter colocado em pauta este tema da desigualdade", aponta Antonio Carlos dos Santos, economista da PUC-SP. "Após a Primeira Guerra Mundial, foram realizadas políticas econômicas favoráveis à redução da desigualdade. Piketty argumenta que esse período de redução não alterou o longo processo de aumento da desigualdade. No capitalismo isso seria uma tendência, ou seja, se o mercado agisse livremente, haveria o crescimento da desigualdade. Ele afirma que o único meio de reverter esse cenário é por meio de ações no campo da política", explica.

Na última sexta-feira (23), o jornal Financial Times publicou uma análise apontando uma série de supostos erros no estudo de Piketty e colocando em dúvida a relevância da obra. O autor do texto criticou Piketty, dizendo que os ajustes realizados nas projeções para épocas que não havia dados não foram justificados e que o mesmo método não foi utilizado para todos os países. Piketty respondeu esclarecendo que a disponibilidade de dados sobre a riqueza não é a mesma que sobre a renda e que, para homogeneizar as diversas fontes de informação, os ajustes foram necessários.

O economista da PUC-SP reitera a dificuldade de encontrar dados sobre as riquezas e acredita na veracidade do trabalho de Piketty. "Dados sobre renda são de fácil acesso, enquanto os de riqueza são escassos e devem passar por tratamento estatístico. É bom lembrar que o livro é um entre vários estudos do Piketty, que faz parte de um grupo de economistas que realizam importantes trabalhos. É muito pouco provável que os resultados obtidos por Piketty venham a ser revertidos por novas estatísticas", defende.

Claudio Dedecca, economista da Unicamp, assegura que é um exagero dizer que a obra traz novidades, mas reconhece a importância da mesma. "O tema da desigualdade já foi explorado, há uma literatura ampla sobre essa tendência, então é um certo exagero dizer que a obra traz conclusões inéditas. As conclusões de Piketty são amplamente amparadas, já exploradas na literatura internacional e brasileira", aponta. "Por outro lado, o livro tem o mérito de constituir um fórum público importante e amplo em torno do tema. O autor fez um trabalho muito esforçado e meritório, dando visibilidade a um problema real da sociedade capitalista", pondera.

"Foi bom para mostrar que o capitalismo não funciona bem como promete, já que agrava as desigualdades. Na primeira metade do século XX, a Inglaterra já havia taxado as heranças para impedir esta tendência, assim como outros países europeus. Depois dos anos 80, houve um enfraquecimento da regulamentação do estado sobre a economia e foram abertas brechas para que houvesse um aumento na desigualdade, para que a taxação sobre as heranças fossem reduzidas. No Brasil há um projeto de lei formulado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, 'dormindo' há décadas no Congresso, que objetiva taxar as heranças para diminuir os efeitos da desigualdade", continua o economista.

Dedecca garante que o problema existe no Brasil, mas que não é restrito ao país. "No Brasil é um problema, assim como é no mundo inteiro. A tendência de financeirização da riqueza permitiu a transformação do modo como a mesma se organiza. Até a década de 80, boa parte da riqueza era de responsabilidade das famílias. Hoje, muitas vezes, uma pessoa jurídica detém o dinheiro, tornando mais difícil para o estado taxar, já que existe o argumento de que isso poderia coibir investimentos. Não é fácil enfrentar esta questão", finaliza. 

* Programa de Estágio Jornal do Brasil

Tags: capital, discussão, economia, livro, piketty

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