Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Dezembro de 2014

Economia

Economistas analisam peso da China, EUA e Europa à economia brasileira

FMI reduziu projeções de crescimento do país com base também no mercado externo

Jornal do Brasil

O desempenho de economias internacionais tem gerado impacto na percepção de nossa economia no mercado mundial, caso da influência da China no Brasil. Como adiantou o JB nesta semana, o crescimento moderado do país asiático afeta os países emergentes. O FMI, inclusive, que reduziu novamente a projeção para o crescimento da economia brasileira nesta terça-feira (8), se pautou nesta questão. Economistas brasileiros reforçam que a economia chinesa, assim como dos Estados Unidos e Europa, realmente causa impacto, mas que as projeções se pautam em cenários que ainda não estão muito claros. 

A repercussão da estagnação da China para a economia brasileira já havia sido abordada por editorial do Jornal do Brasil: "Com o não crescimento da China, a estagnação da Europa e um crescimento pífio - de 2% ou 3% - dos EUA, quais são os prognósticos para o Brasil?", questionou texto.

>> 'El País': FMI reduz crescimento em quase meio ponto para a América Latina

Reportagem do jornal El País publicada nesta quarta (9) diz que o crescimento dos mercados emergentes depende muito da China, o que teria permeado a revisão do Fundo Monetário Internacional. O FMI reduziu a projeção para o crescimento da economia brasileira em 0,5 ponto percentual, reposicionando para 1,8% a previsão divulgada em janeiro (2,3%). Para 2015, a projeção do FMI para a economia brasileira é 2,7%, com redução de 0,2 ponto percentual. 

De acordo com a publicação, a economia brasileira deverá manter-se em marcha lenta. O documento destaca restrições internas de oferta, especialmente problemas com infraestrutura e continuidade do baixo crescimento privado, refletindo em perda de competitividade e na baixa confiança dos empresários. Em relação à inflação, diz que o aumento de preços deve se manter na parte superior da meta oficial. A projeção é que a inflação fique em 5,9%, este ano, e em 5,5%, em 2015.

Heron do Carmo, professor no Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP) acredita que a redução do crescimento do país asiático afeta algumas commodities que estão associadas ao investimento na construção civil, como é o caso dos minérios. "A tendência é a China deslocar o foco um pouco mais para produção de bens de consumo, para atender às demandas internas do país", reforça. A nova demanda por alimentos na China, no entanto, pode beneficiar o Brasil, que é um grande produtor. 

A mudança da economia chinesa gera impactos, alerta Heron, mas é uma questão relativa. A demanda por alimentos na China tender a crescer e anhar uma natural substituição da fonte de proteína vegetal pela fonte de proteína animal, à medida que aumenta a renda dos chineses. "Esse fato da China mudar a dieta acaba contribuindo para manter elevada a demanda de alimentos do mundo, o que é particularmente favorável para o Brasil."

Outra questão, prossegue, é a perspectiva de retomada do crescimento da economia na Europa e nos Estados Unidos, que poderia deslocar capitais que viriam para o Brasil. A ação do Banco Central brasileiro de elevar a taxa de juros, no entanto, faz com que o país fique mais atraente aos investidores. 

Heron não deixa, contudo, de reforçar o impacto da própria política econômica brasileira, que historicamente toma decisões bastante pautadas na política, principalmente em período de eleições, por uma série de restrições. Recentemente, indica, a política brasileira focou no consumo em detrimento do investimento - caso da energia elétrica e do preço do combustível - o que acaba contribuindo para a piora dos fundamentos fiscais. Situação parecida, exemplifica, aconteceu durante a ditadura, em 1982, quando foi firmado acordo com o FMI poucos dias depois do resultado das eleições, e um pouco antes das eleições de 1998, quando o governo segurou o câmbio pensando na reeleição do então presidente Fernando Henrique.

Para o economista, a economia americana, a europeia e a chinesa acabam prejudicando a economia brasileira, mas muito do que ocorre é mais em decorrência de fatores internos. Para ele, existe a necessidade de menor inflação e maior crescimento, a partir de um planejamento focado em um horizonte mais longo e em maior racionalidade. Além disso, continua, a China cresce menos depois de ter crescido muito, e o importante não é só a taxa de crescimento, é ela comparada com a economia do país. 

O Banco Mundial, por sua vez, ressalta que o Brasil enfrenta dificuldades a curto prazo, mas que a longo prazo a situação é favorável. Heron concorda, já que a política econômica atual não deve ser mantida após as eleições. "Eu diria que, de fato, o futuro é mais promissor que essa situação que viveremos daqui até novembro. Se pensarmos além da eleição, a tendência é a coisa se acertar."

Pedro Rossi, professor do Instituto de Economia da Unicamp, acredita que as projeções ainda estão muito sujeitas a erro, pois o cenário não está muito claro, "nem o cenário de crescimento da China, tampouco a transmissão disso para a economia brasileira". Ele explica que a economia brasileira ainda pode ter um crescimento maior que o projetado e que o impacto da redução do crescimento da China pode não ser tão forte. "É difícil calcular as previsões de crescimento."

"A China tem um peso forte no setor externo brasileiro, porque o setor de exportação do país é muito voltado para a China, principalmente no que se refere aos produtos primários. Mas a economia brasileira não é só isso", destaca.

O economista também reforça que o investimento no setor industrial brasileiro ainda é uma incógnita, podendo acelerar no final do ano e permitindo um espaço de crescimento maior para o Brasil. "Tanto o FMI quanto as previsões do mercado ainda embutem um pessimismo grande com a economia brasileira, que talvez não se verifique. Acredito em um crescimento do PIB de 3% neste ano, sem problemas."

Tags: banco mundial, brasil, economia, FMI, PIB

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