Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

Economia

Síntese da conjuntura: combate à inflação

Jornal do Brasil

A Confederação Nacional do Comércio (CNC), em seu boletim “Síntese da Conjuntura”, elaborado pelo economista e ex-ministro do Planejamento, Ernane Galvêas, faz as seguintes análises nesta terça-feira:

A teoria macroeconômica coloca a taxa de juros no centro do sistema,como a variável mais importante, que comanda o mercado financeiro e, por extensão, a poupança, a propensão a consumir e a investir. A taxa de juros éo preço que comanda a oferta e a procura do credito e, portanto, o instrumento básico de controle de inflação.

A teoria dos juros confere ao Banco Central a enorme responsabilidade de administrar a estabilidade financeira responsável peloclima de segurança, indispensável ao bom funcionamento do mercado.

Mas não para aí a ação do Banco Central. Como acentua Joseph Stiglitz (O Preço da Desigualdade – Pág. 368), "cabe ao Banco Central atuar na direção

“Do emprego e do crescimento Econômico”. O combate à inflação não é um o fim em si mesmo.

A incidência de seca em algumas regiões e das chuvas, em outras, está forçando a alta dos preços, como se viu pela apuração da prévia do IGP-M/FGV, com alta de 1,67% em março. Em consequência, o mercado se alvoroça e cria uma expectativa de continuidade da elevação da taxa SELIC pelo Banco Central.

Pode o BC impedir a subida dos juros do tomate, das frutas, legumes e verduras? É obvio que não. Mas o Banco Central pode compensar essa alta

com a restrição da demanda agregada (consumo e investimentos) de outros

bens e serviços. É a ação abrangente da taxa de juros. Mas é lógica que, comparativamente, terá um efeito mais rápido e eficiente a ação fiscal e/ou a venda dos produtos agrícolas estocados pelo programa administrado pelo Conselho Interministerial de Estoques Públicos de Alimentos (CIEPA).

O Banco Central, pela via da taxa de juros, pode muito, mas não pode tudo.

A CONJUNTURA POLÍTICOECONÔMICA

O Governo da Presidente Dilma corre o risco de quatro sérias adversidades que poderão agravar a atual situação econômica e ameaçar sua reeleição. São as seguintes:

1) Rebaixamento da credibilidade nacional;

2) agravamento da inflação;

3) possibilidade de racionamento de energia; e

4) baderna nas ruas, contra o

Governo, a FIFA e a Copa do Mundo.

O primeiro desastre já começou a acontecer. A Standard & Poor´s reduziu o rating do Brasil de BBB para BBB-. Também foram rebaixadas a Petrobras e a Eletrobras. Doravante, vai ficar mais difícil e mais caro obter financiamento no exterior.

A segunda adversidade também já começou a acontecer, com a elevação episódica da inflação, devido à influência do mau clima sobre a produção agrícola. A crise energética despontou com o esvaziamento das represas do

Centro-Sul e Sudeste e se não chover pesadamente no mês de abril, provavelmente vamos ter racionamento de energia, como em 2001.

A baderna nas ruas está anunciada para ser intensificada no mês de junho. O Governo vai reforçar o policiamento, inclusive com a participação do Exército.

Tudo isso vai transformar o mês de junho em um divisor de águas, com possível repercussão sobre o resultado das eleições em outubro. Mas pode não acontecer nada disso.

ATIVIDADES ECONÔMICAS

O ritmo das atividades econômicas continua baixo, sem chances de melhoria significativa a curto prazo. Na sequência do crescimento do PIB de 2,3% em 2013, o mercado estima uma expansão de 1,7% em 2014 e o Banco Central de 2,0%. O nível de investimentos permanecerá abaixo de 18,5%.

As pressões inflacionárias aumentaram com as secas e as chuvas, conforme se vê da elevação de 1,67% do IGP-M/FGV em março, devido à alta de 6,16% dos produtos agropecuários.

Dois fatos inquietantes prevalecem sobre a conjuntura econômica: no mercado interno, a perspectiva de racionamento de energia; e na esfera internacional, um possível agravamento do conflito Rússia/ Ucrânia.

O índice de confiança do consumidor recuou 3,2% no trimestre encerrado em fevereiro (FGV). O índice de inadimplência permanece alto e atinge 2,5% dos consumidores (SPC). O percentual de famílias endividadas caiu de 62,7% em fevereiro para 61,0% em março (PEIC-CNC). Apesar dessa queda, subiu de 19,7% em fevereiro para 20,8% em março o número de famílias endividadas, e de 5,9% para 7,1% das que não têm condições para pagar suas dívidas. A intenção de consumo das famílias (ICF) caiu 3,3% em março, segundo a CNC.

Indústria

Segundo o IBGE, a produção industrial recuou 1,6% no trimestre terminado em janeiro, ante o trimestre anterior. A indústria de transformação caiu -1,5%, com destaque para as quedas de equipamentos médicohospitalares (-18,4%), veículos (-13,1%) e fumo (-10,5%). A indústria extrativa recuou -2,2%. Também houve redução nas produções de bens de capital (-7,0%), bens de consumo duráveis (-1,9%), semiduráveis (-0,8%); e matérias-primas (-0,7%).

O índice de utilização da capacidade industrial (UCI) ficou em 84,5% na média do trimestre encerrado em fevereiro (CNI).

A quantidade de água nos reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste, que abastecem 70% do País, baixou de 43% em dezembro/13 para 34% em fevereiro. No final de março, a represa da Usina de Furnas baixou a 27,95%; a de Marimbondo, 26,14%; e Água Vermelha, 29,48%. Na Cantareira, que abastece de água a Grande São Paulo, o nível da represa chega a 14,1%.

As previsões da ONS para abril são otimistas, tendo em vista as fortes chuvas no Sul e no Norte. Em contrapartida, o consumo de energia aumentou 8,6% em fevereiro sobre fevereiro/13, com destaque de alta para comércio e residências.

O índice de confiança do empresário industrial (ICEI) permaneceu estável, em relação a janeiro (CNI).

As expectativas de produção e vendas na indústria automobilística são de baixa, até o final de 2014. A Mercedes Benz reduziu para quatro dias a semana de trabalho em São Bernardo do Campo, e deu férias de vinte dias aos funcionários da unidade de Juiz de Fora, paralisando a produção de caminhões. A produção de aço bruto subiu 1,2% ante fevereiro/13, mas caiu 4,7% em relação a janeiro. Na primeira metade de março, as vendas de veículos novos acumulam queda de 2,7%.

Geograficamente, entre dezembro e janeiro, a produção industrial cresceu mais em Minas Gerais (+7,0%), Ceará (+ 5,4%) e São Paulo(+3,5%).

Comércio

Após o aumento de 4,3% no volume de vendas em 2013, as vendas no comércio varejista continuaram crescendo 0,8% no trimestre encerrado em janeiro, com destaque para o ramo automotivo (+ 5,5%). As vendas dos supermercados subiram 2,82% em fevereiro sobre fevereiro/13, com aumento de 3,6% no bimestre, mas recuaram 4,82% em relação a janeiro.

As vendas de materiais de construção subiram 5,7% em fevereiro, e as de produtos químicos 3,7% no bimestre (ABIQUIM). O faturamento de máquinas caiu 7% no primeiro bimestre, em continuação à queda de 5,7% em 2013 (ABIMAQ).

Em São Paulo, nos últimos cinco anos, 121 empresas têxteis e de confecções encerraram suas atividades. O Grupo Klabin lançou a pedra fundamental de nova fábrica de celulose no Paraná, com investimento de R$ 5,8 bilhões e capacidade de produção de 1,5 milhão de toneladas.

Agricultura

A agricultura brasileira está sendo castigada pela forte seca no Centro-Sul e pesadas chuvas em diferentes regiões do Norte e Sudeste. Estima-se uma queda de -3,6% nos cortes de cana, de -5,3% de açúcar e -7,4% de etanol. Também deverá ocorrer queda de -4,5% nas exportações de açúcar e de -35,8% de etanol.

O Rio Madeira atingiu a cota de 20 metros e o Rio Acre subiu 14,0 metros, inundando extensas regiões do Acre e Rondônia, onde chega a mais de 100 mil o número de pessoas isoladas pelas enchentes. Segundo o CEAGESP, a média de saída de caminhões de tomates caiu de 15 para 2. A FGV/IBRE estima a expansão agropecuária em 5% em 2014, ante 7% em 2013.

Por causa do revés da seca, os contratos de café chegaram a registrar alta de 80% nos preços. Entre janeiro e março os preços subiram de US$ 118 por libra para US$ 176,00. Atualmente, os preços estão em queda.

A nova Farm Bill americana, aprovada em janeiro, poderá infligir pesada redução nas exportações brasileiras de algodão, milho e soja.

Mercado de Trabalho

Segundo o IBGE, a taxa de desemprego nas seis principais regiões metropolitanas subiu de 4,8% em janeiro para 5,1% em fevereiro, refletindo a dispensa de temporários no comércio.

De janeiro a fevereiro, foram registrados cerca de 3,5 milhões de desligamentos, com saldo de mais 302,2 mil no bimestre. No trimestre encerrado em janeiro, houve aumento de 3,6% nos rendimentos reais de salários.

Houve redução de 137 mil trabalhadores na população ocupada,

sendo 111 mil no comércio. Segundo a CNC, boa parte que desistiu de procurar emprego estaria estudando, para buscar melhor qualificação no mercado de trabalho. Nos últimos 12 meses, a população ocupada cresceu apenas 0,3% (FGV). O baixo desemprego não reflete criação de emprego, mas, sim, baixo crescimento do PEA – população economicamente ativa.

Nos últimos 12 meses, a indústria reduziu em 1,2% o quadro de empregados, mas a folha de pagamento aumentou 1,6%. Na indústria paulista, em fevereiro, o nível do emprego caiu 0,17%, ante janeiro e -2,0% ante fevereiro/13.

Setor Financeiro

O volume total de crédito no sistema financeiro aumentou 0,6% emfevereiro, 0,7% no bimestre e 14,7% em 12 meses, sendo 7,4% nos bancos privados e 24,9% nos bancos públicos. 

A expansão do crédito continua sendo o principal ingrediente da inflação. Daí que a Caixa Econômica Federal e o BNDS estão sendo forçados a reduzir o ritmo de alta de seus empréstimos.

Por atividades econômicas, o crédito ao setor público aumentou 32,1%, à indústria 11,1%, ao comércio 6,0%, ao setor rural 31,6%, ao setor imobiliário 32,7% (!) e às pessoas físicas 7,9%. Em fevereiro, o papelmoeda em poder do público caiu -2,4% e os meios de pagamento (M¹) -3,5%.

Inflação

A inflação ganhou força em março como consequência da alta dos produtos agrícolas, resultante do mau tempo. O IGP-M/FGV subiu 1,67%, ante 0,38% em fevereiro, acumulando alta de 2,5% em 3 meses e 7,3% em 12 meses.

A aceleração dos preços advém principalmente da soja em grãos (+3,85%). No conjunto, os preços agropecuários subiram 6,16%.

A expectativa do mercado financeiro para 2014 é de alta de 6,28% e a do Banco Central de 6,1%. Neste ano, o preço da gasolina já subiu 0,6% e do gás de cozinha 0,3%. Novos aumentos deverão ocorrer em abril e maio, sob rigoroso controle.

O Governo vai começar a vendar estoque de milho e feijão, conforme decisão do CIEP – Conselho Interministerial de Estoques Públicos de Alimentos.

Setor Público

O superávit primário alcançou R$ 22,1 bilhões, no 1º bimestre, uma diminuição de 9% face aos R$ 27,2 bilhões alcançados no mesmo período de 2013, e as despesas de juros alcançaram 42,0 bilhões, deixando um déficit nominal de R$ 20 bilhões.

A situação fiscal continua agravando-se. No 1º bimestre, a Receita tributária cresceu 9,6%, enquanto a despesa aumentou 15,5%. A dívida bruta do setor público chegou a R$ 2.816,7 bilhões em fevereiro, um aumento de R$ 68,7 bilhões sobre dezembro/13.

O CFM – Conselho Federal de Medicina informa que o Governo até agora só liberou 10,6% do PAC de saúde e que os investimentos estão congelados há 12 anos.

Quatro gigantes do agronegócio – Bunge, Cargill, Maggi e Dreyfus estão se associando para investir de R$10 bilhões a R$ 15 bilhões na construção de ferrovia de Mato Grosso a Roraima, destinada ao escoamento de produtos agrícolas pelo Rio Madeira.

Após o rebaixamento pela S&P, o Tesouro Nacional captou €1 bilhão, no exterior e o Banco do Brasil mais €300 milhões. À primeira vista, não há uma justificativa lógica para esse aumento da dívida externa, no momento em que as reservas cambiais subiram a quase US$ 380 bilhões.

Setor Externo

A balança comercial brasileira fechou o bimestre com saldo negativo de US$ 6,2 bilhões. Embora crescendo 6,2% em volume, houve a queda de 4,3% nos preços. O Banco Central estima um déficit de US$ 80 bilhões em Transações Correntes em 2014, contra US$ 81 bilhões no ano passado.

A dívida externa bruta, inclusive intercompanhias, atingiu US$ 493,7bilhões, US$ 11 bilhões acima de dezembro/13.

A empresa de rating S&P rebaixou a classificação do Brasil, em contradição ao exagerado otimismo das autoridades brasileiras. Não há dúvidas, porém, de que a inflação (reprimida) está fora de controle, a situação fiscal agravando-se, assim como o Balanço de pagamentos, fatores que, de um modo geral, condicionam o longo período de baixo crescimento econômico. Longe, porém, o risco de calote por um Brasil que detém US$380 bilhões de reservas cambiais.

O cenário internacional está turvado pelo irresponsável conflito Rússia/Ucrânia, que vai se estendendo à OTAN, ou seja, à Europa e Estados Unidos. O Governo Obama anunciou sanções contra depósitos bancários de proeminentes russos ligados ao Presidente Putin, enquanto Moscou reage com sanções contra políticos norte-americanos. O Governo russo foi suspenso das reuniões do G-8. O Fundo Monetário anunciou um empréstimo deUS$ 14 bilhões à Ucrânia que, aliado à ajuda de outras origens, pode chegar a US$ 27 bilhões.

A Espanha anunciou o recorde de sua dívida pública – 93,9% do PIB em 2013, contra 86% em 2012. A inflação na Zona do Euro caiu para 0,5% em março, sinalizando uma continuada recessão.

São boas as notícias vindas dos Estados Unidos, onde o desemprego continua baixo (6,7%) no mercado de trabalho e sobem os preços das moradias. Entre outubro e dezembro, o PIB americano subiu 2,6%, um pouco abaixo do trimestre anterior. A China mantém a perspectiva de crescimento de 7,5% do PIB em 2014, a despeito da queda da produção industrial e das exportações.

Tags: análise, Artigo, economia, JB, texto

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