Jornal do Brasil

Sábado, 1 de Novembro de 2014

Economia

Setor privado da Venezuela teme que câmbio flutuante pressione inflação

Agência Brasil

O setor privado na Venezuela começa a avaliar os primeiros dias de funcionamento do Sistema Cambiário Alternativo de Divisas (Sicad 2), em funcionamento desde segunda-feira(24). Com câmbio flutuante, o sistema permite a compra e venda de dólares entre pessoas físicas e jurídicas, observando a demanda do mercado.

Em avaliações divulgadas hoje (26), os setores empresarial e comercial sinalizaram que a medida é positiva para liberar o mercado, mas que a demanda reprimida por dólares poderá forçar a inflação a uma alta ainda maior que a registrada nos últimos meses.

Com a implantação do sistema, o governo de Nicolás Maduro tenta frear a especulação do dólar e diminuir a escassez da moeda no país. No mercado ilegal, o dólar chega a ser comercializado por 80 bolívares. Ontem (25) a cotação da moeda americana no Sicad 2 foi 51,58 bolívares, oito vezes acima do câmbio oficial preferencial (6,3 bolívares).

Com a possibilidade da negociação flutuante, entidades financeiras do país esperam diminuir a especulação. Esperam também que as empresas consigam “ter acesso” a recursos necessários a aquisição de produtos e insumos para produção e venda.

A Federação de Câmaras e Associação de Comércio e Produção da Venezuela, (Fedécamaras) destaca hoje em sua página institucional, a opinião de dirigentes de associações comerciais e industriais de diferentes partes do país. Gustavo Sosa, presidente da Câmara de Comércio de Valencia, capital do estado de Carabobo (importante reduto opositor), afirmou que o novo mecanismo é um “alívio para alguns setores”.

Entretanto, Sosa alertou que a desvalorização da moeda no país persiste. “Com mais um câmbio utilizado, o Bolívar torna-se ainda mais fraco”, acrescentou. Com o Sicad 2, a Venezuela tem agora três tipos de câmbios – além do câmbio ilegal, do mercado paralelo, que ainda não deixou de existir.

Para o governo venezuelano o novo sistema é uma ferramenta para vencer o mercado especulativo. “O mecanismo foi criado para vencer a especulação fantasma que pretendia dominar a economia venezuelana”, disse ontem o presidente Nicolás Maduro.

Ele explicou que o Sicad 2 ainda não alcança todo o mercado. “O sistema equivalerá entre 5 e 7% da venda de dólares na Venezuela”. Para ele, o suficiente para “cobrir as necessidades de divisas não essenciais para o funcionamento da economia”.

Para a Fedecámaras, o sistema flutuante servirá para “destravar o mercado cambiário”, mas existe o temor de que a inflação no país cresça de maneira ainda mais acelerada.

“Esperamos que o mecanismo ajude a agilizar processos produtivos no país, ainda que a medida possa ter chegado um pouco tarde”, disse o primeiro vice-presidente da Fedecámaras, Francisco Martínez, em uma entrevista veiculada hoje na Unión Rádio, difundida no site da Federação.

Para Martínez, o Sicad 2 tem um aspecto positivo de “propiciar maior liberdade de mercado”, mas a demanda reprimida dos últimos meses pode sufocar o sistema.

O presidente da Confederação Venezuelana de Industriais (Conindústria), Eduardo Garmedia, concedeu entrevista à Unión Rádio e disse que, do ponto de vista das indústrias, o Sicad 2 é uma “via interessante para destravar o sistema cambiário no país”, mas que o problema do desabastecimento deve continuar, “dada a necessidade reprimida de produção do setor industrial”.

“Temos que estar preparados para uma inflação bem maior, do que a que temos enfrentado nos últimos anos e isso terá um impacto importante no salário e poder de compra do venezuelano”, concluiu.

O Fedecámaras e a Conindústria têm participado das reuniões e conferências realizadas pelo presidente Nicolás Maduro para solucionar os problemas que geram as principais queixas da população e opositores. Economistas ouvidos pela Agência Brasil, no entanto, aconselharammais investimento por parte do governo no setor comercial e industrial no país.

Tags: Câmbio, crise, economia, maduro, venezuelanos

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