Jornal do Brasil

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

Economia

Perdas na produção rural por causa do calor e da seca já afetam preços

Agência Brasil

A estiagem fora de época e o calor excessivo, com recordes diários de temperatura máxima, em São Paulo, já provocou danos à atividade agrícola, e alguns produtos começam a chegar mais caros à mesa das famílias paulistanas. Além de impactos futuros na pauta de exportação, os  próximos indicadores de inflação deverão refletir, de forma significativa, o aumento de preços dos alimentos, entre os quais os hortifrutigranjeiros.

O diagnóstico é do agrônomo Renato Alves Pereira, da Coordenadoria de Assistência Técnica Integrada (Cati) de Mogi das Cruzes. Região que atinge 13 municípios e é um dos principais polos de abastecimento de hortifrutigranjeiros da Companhia de Entreposto e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), onde os preços subiram em média 30% nesta semana, segundo ele. Ontem (12), por exemplo, os consumidores pagavam, no varejão da Ceagesp, mais caro na compra de alface lisa, chuchu e couve-flor.

De acordo com Renato Alves, “o sol forte não deixa sequer preparar as  mudas, e a baixa vazão hídrica do alto Tietê impede o bombeamento em lavouras com irrigação”. Ele disse que algumas pancadas de chuva foram registradas naquela região, mas só pioraram o quadro, porque vieram acompanhadas de granizo. Nas plantações de caqui, disse ele, metade das frutas se perdeu.

No segmento de citros, o clima adverso está prejudicando as lavouras de laranja, item importante na pauta de exportações do país, que é líder no mercado mundial da fruta processada em forma de  sucos. “A falta de água afeta o crescimento da fruta, e o sol forte provoca rachaduras, com influência direta na produtividade”, relata Flávio Viegas, presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus).

Segundo ele, não há ainda um levantamento preciso sobre o impacto na colheita, mas acredita que possa haver quebra na safra 2014/2015 em torno de 30% . Viegas observou que, nos últimos três anos, muitos produtores erradicaram plantações por desestímulos de preços, e haverá diminuição da oferta, motivada pelo recuo da produção no estado da Flórida, nos Estados Unidos. Fatores que também contribuem para a elevação de preços.

De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), os preços pagos aos produtores,  que normalmente sobem, em fevereiro, tiveram elevação mais cedo, com alta de 34,2% na primeira quinzena de janeiro, sobre dezembro último, e subiram 104,1% na comparação com igual mês de 2013. No acumulado de fevereiro, até ontem (12), a cotação indicou valorização de 3,05%, atingindo R$ 21,28 por caixa de 40,8 quilos, ainda a ser colhida, sem custos de  colheita e de frete.

Sem levar em conta os efeitos do clima, a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (Citrus BR) estimou a produção da safra 2014/2015 em 317 milhões de caixas de laranja nas lavouras de São Paulo e do sul de Minas Gerais, em torno de 18% acima da safra finalizada em janeiro, com 268,3 milhões de caixas.

“A falta de água pode ser positiva em relação à elevação do brix na fruta (concentração de açúcares) e, ao mesmo tempo, negativa em relação à redução do tamanho das frutas”, destaca a Citrus Br.

Outra cultura com risco de frustrar a produção é a do café, que nesse momento deveria estar em pleno enchimento dos frutos. “Ainda não temos a magnitude, mas vamos ter perdas mais em uma região do que outra”, informou o engenheiro agrônomo Ceso Luiz Vegro, pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA).

Segundo ele, nas lavouras cujas raízes das plantas estão mais próximas da superfície  do solo, as perdas de nutrientes podem provocar quebra de até 100%. Vegro explicou que a falta de umidade leva à má formação do fruto, entre outros malefícios que resultam em baixa produtividade.

No caso das lavouras de cana-de-açúcar, embora o período seja de entressafra - a safra vai de abril a novembro- a produção pode ter um recuo de até 10%, estima o presidente da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Estado de São Paulo (Coplacana). “Poderemos ter uma redução em torno de 60 milhões de toneladas, o equivalente a toda a produção da Tailândia em um ano”, comparou ele.

Mesmo que volte a chover de forma mais regular, na segunda quinzena de fevereiro, o crescimento das plantas ficará comprometido, disse o executivo. Apesar disso, o impacto deverá ficar mais restrito ao açúcar que tem contratos de exportação.

De acordo com análise técnica do Cepea, os principais produtos sujeitos às oscilações de preços são: café, boi, milho e ovos.

Já os itens básicos da mesa dos brasileiros, arroz e feijão, têm apresentado comportamentos de preços distintos no atacado. Segundo o presidente da Bolsa de Cereais do Estado de São Paulo, Reinaldo Rosanova, apenas o feijão oscila para cima. No caso do arroz, ele diz que não há forte oscilação, porque “o produto já foi colhido”. Em uma semana, informou ele, o preço da saca de feijão de 60 quilos teve aumento de R$ 40,00. Hoje (13), a cotação do feijão carioca extra oscilava entre R$ 135,00 e R$ 140,00.

 

Tags: AGRICULTURA, economia, preços, produtos, seca

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