Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

Economia

México tem nota elevada, mas economia não corresponde

Agências de risco tratam os países com critérios obscuros

Jornal do Brasil

O México teve sua nota elevada de "Baa1" para "A3" pela Moody's, enquanto Brasil tem uma nota dois graus abaixo, a Baa2, e ainda enfrenta ameaças de queda na nota em diferentes agências, mesmo que seus fundamentos econômicos não justifiquem uma queda. As motivações das agências de risco para aumentarem ou rebaixarem a nota de um país ou empresa sempre foram motivo de desconfiança e dúvida. Para economistas, a contraposição entre Brasil e México pode ser explicada pelas diferentes visões que investidores internacionais têm dos presidentes destes países, por exemplo.

A economia mexicana teve um desempenho pior que o brasileiro no ano passado, mas mesmo assim continua a atrair os investidores. A agência Standard and Poor´s, por sua vez, colocou a nota do pais "BBB" em perspectiva negativa em junho do ano passado e elevou o rating do México para BBB+. "Em nada eu invejo a situação econômica do México", comenta o economista Bruno Martarello de Conti, professor da Unicamp. 

Conti explica que a situação social do país vizinho dos Estados Unidos é um descalabro. O México se torna um país mais atrativo para o capital estrangeiro, contudo tem uma dívida pública controlada às custas de outros pontos essenciais. Dois terços da população mexicana, por exemplo, não têm seguridade social. 

Para a Moody's, o México mereceu a elevação na nota devido a quatro questões: aprovação de agenda de reformas abrangente, melhoria das perspectivas econômicas de médio prazo com maior crescimento potencial, corte de gastos do governo que reforça a perspectiva fiscal, e perfil de crédito global semelhante a países com rating "A". 

Conti acredita que a situação brasileira ainda é relativamente tranquila. Apesar da "pretensa crise dos emergentes" e da situação dos Estados Unidos, a vulnerabilidade externa ainda não é elevada. Em relação à dívida pública, ressalta, esta ainda é bastante baixa para os padrões internacionais. Ele recorda que no ano passado houve muita tempestade com os resultados fiscais, provocados por questões extraordinárias. A política fiscal brasileira, no entanto, é colocada pelos investidores e representantes de agências como principal entrave para o país, e também apontam um não esforço em promover reformas estruturais. 

"Esse jogo com as notas dessas agências tem como fundo a própria discussão sobre qual deve ser o papel do Estado na economia. Uma série de artigos busca apontar se existe relação ou não entre as notas e os fundamentos macroeconômicos", disse Conti.

Fernando de Mattos, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), também reforça a credibilidade e motivação das agências de risco. Frisa que elas são levadas muito em consideração, mas que já erraram muitas vezes. A Islândia, exemplifica, tinha uma nota excelente e quebrou em 2008, devido a sua política voltada para o sistema financeiro - vulnerável à instabilidade do sistema financeiro americano. 

Essas notas, diz, costumam ser injustas com países periféricos e, quando a classificação é positiva, geralmente surge às custas de algumas desvantagens, como o corte de gastos de programas sociais e entrega de riquezas ao capital internacional, como o petróleo e outras commodities. "O receituário dessas agências foi o que nos levou à crise internacional que estamos vivendo", Mattos. 

O analista-sênior da Moody's, Mauro Leos, disse em entrevista à agência Bloomberg que, se em três anos a agência perceber que ações do México, vistas pela agência como uma promessa de resolução de problemas estruturais, o país pode ganhar um rating ainda maior. Mattos pondera que as reformas que o México realiza não significam garantia de bons resultados na economia. A questão seria que as agências têm uma preocupação especial com o país, por ele estar ao lado dos Estados Unidos e ter uma relação com os americanos bastante delicada.

Conti ressalta ainda que, enquanto Pena Nieto, presidente do México, tem uma imagem positiva com o mercado e se destacou durante a conferência em Davos, o mercado não tem uma imagem tão positiva da presidente Dilma, que se mostraria menos liberal que o mexicano, que desejaria um estado coordenador da economia, enquanto o presidente do México tem atendido ao lobby por um Estado mínimo. Pena Nieto, em seu primeiro ano de governo, adotou medidas consideradas importantes como a quebra do monopólio estatal na exploração de petróleo e maior competição no setor de telecomunicações. 

"Essa contraposição [entre Brasil e México], nos últimos meses, se tornou comum. A postura dos presidentes foram diferentes aos olhos do mercado. Isso ficou explícito em Davos. Toda a repercussão veio enaltecendo a postura mexicana, de Pena Neto, e criticando a Dilma. Essas agências todas, em grande medida, ouvem essa voz do mercado. É um círculo vicioso entre mercado e agências, o mercado se pauta pelas agências, mas as agências não são completamente neutras, e ficam atentas à percepção do próprio mercado", alerta Conti.

Tags: agência, brasil, México, nota, Risco

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