Jornal do Brasil

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Economia

Argentina: um país com cinco tipos de dólar

Jornal do Brasil

A política de intervenção por parte do governo argentino gerou distorções no mercado cambial e diferentes cotações para o dólar americano. Regras complexas de aquisição da moeda americana, acesso limitado e escassez marcam um econômico cenário complicado. A avaliação foi feita pelo jornal Clarin, numa reportagem de Gabriela Grosskopf Antunes, publicada nesta sexta-feira (31/1).

A reportagem esclarece que, na prática, o país opera atualmente com cinco preços diferentes de dólar: o oficial (que está um pouco acima de 8 pesos, mas que com impostos não sai por menos de 10), o “blue” ( dólar paralelo), o dólar para poupança (que o governo liberou parcialmente mas que apresenta benefícios para quem os mantiver nos bancos por prazos superiores a um ano), o dólar cartão ( com uma taxa de 35% nas compras internacionais) e o que os argentinos chamam de “liqui contado” um dólar para transações no mercado financeiro da Bolsa de Buenos Aires.

Soma-se a isso um dólar especial para o trigo e outros dólares destinados ao agronegócio que variam de acordo com um complexo sistema de impostos e exigências fiscais.

Um emaranhado de cotações, taxas e impostos que deixam argentinos e estrangeiros confusos na hora de comprar moeda estrangeira. “Ainda assim, o dólar blue é o único que se pode comprar livremente”, explica Fausto Spotorno diretor de pesquisa da consultoria Orlando J. Ferreres Associados e professor de economia política e Economia Argentina na Universidade Católica Argentina (UCA).

Encruzilhada

Segundo Spotorno, a alta do dólar paralelo deixou a gestão de Cristina Kirchner em uma encruzilhada. “O governo contava com os dólares de janeiro, mas o turismo não veio porque a Argentina ficou cara e as exportações de trigo que geralmente são liquidadas em dezembro, que geram uma maior oferta de divisas nesta época, não chegaram porque está praticamente proibido exportar trigo”.

“Sem oferta de dólares e com muita demanda de gente que sairia de férias tivemos uma disparada do blue por um lado e por outro uma perda de reservas do Banco Central muito importe”, diz o economista. A confusão sobre o dólar na Argentina foi intensificada nos últimos dias

Foi depois que na semana passada, o dólar paralelo rompeu a barreira de 13 pesos e governo não teve outra opção senão afrouxar as restrições cambiais. Em um anúncio surpresa prometeu aliviar os impostos e liberar a compra. Mas, na segunda-feira seguinte, 27 de janeiro, as regras de adequação para comprar de dólares não pareciam muito diferentes as que já estavam em vigor a o dólar paralelo reagiu com uma leve queda.

Com o anúncio o governo conseguiu tirar um pouco da pressão sobre o dólar paralelo que caiu alguns centavos estacionando em pouco mais de 12 pesos, mas criou discrepâncias cambiais e sistema complexo de compra.

Dois pesos, duas medidas

O governo decidiu não abrir mão dos 35% cobrados em cima do dólar destinado ao turismo, impôs um teto de compra de 20% da receita das pessoas físicas e manteve as taxas nos cartões de crédito.  Além disso, estimulou poupanças, reiterando a política de restrições de fuga de capitais - o que gerou as diferentes cotações para o dólar.

O esperado alívio não chegou. Em três semanas as já escassas reservas do Banco Central argentino caíram em mais de US$2 bilhões.  Desde que a nova equipe econômica assumiu no final do ano passado já são mais de US$3.7 bilhões, só nesta quinta-feira, 30 de janeiro, foram US$250 milhões, a maior queda desde novembro do ano passado.

“Creio que o governo tem uma ideia de onde quer chegar, mas me parece mais teórica que prática. Pretendia ir desvalorizando aos poucos o cambio oficial, ao mesmo tempo ir fechando alguns empréstimos internacionais, tratando de acomodar um pouco as coisas com o Banco Mundial, Clube de Paris, Repsol para gerar um pouco mais de confiança internacional e pôr um teto no dólar paralelo e pensavam que desta maneira em algum momento as brechas cambiais iam se fechar”, explica Fausto Spotorno.

Sem crédito internacional desde o calote que deu ao Fundo Monetário Internacional em 2002, o país agora tenta desesperadamente recuperar a credibilidade internacional, tarefa difícil que tem como soldado um ministro da economia cujas credenciais assustam investidores estrangeiros. Axel Kiciloff, o menino de ouro de Cristina Kirchner, e mente por detrás da polêmica expropriação da petroleira YPF tem agora que recompor as frágeis relações internacionais da Argentina enquanto luta com uma inflação galopante e um déficit fiscal que chega a 3% do PIB do país.

Kiciloff, o homem por detrás do câmbio

“A influência por trás das mudanças econômicas da Argentina”, como o descreveu o jornal The New York Times nesta última semana de janeiro.

“Kicillof é o ministro de Economia mais forte que a Argentina teve em mais de uma década”, escreveu Ezequiel Burgos, chefe da seção de economia do Clarín e autor de uma biografia sobre o economista intitulada “El Creyente” ( O crente em português), publicada no final do ano passado.

Agora, Kicillof, cujo papel no governo vem aumentando graças à ausência de Cristina Kirchner que, depois de uma cirurgia para uma retirada de um coagulo no cérebro em outubro de 2013 diminuiu suas atividades no governo, estaria buscando ampliar ainda mais sua participação nos órgãos estatais como pôde apurar o Clarín em Português.

Quando finalmente o governo teve que admitir que teria que relaxar suas políticas cambiais, Kicillof se agitou, acusou a Shell de especular e demonstrou desconforto com as novas medidas. Nos bastidores, entrou em uma queda de braço com o presidente da AFIP (a Receita Federal argentina), Ricardo Echegaray, pelo controle do órgão.

Fontes na AFIP contaram ao Clarín em Português que Kicillof quer ampliar sua zona de influência escolhendo na sua base aliada um novo presidente deste órgão arrecadador e renovando o quadro de assessores no local. Echegaray resiste e, para evitar ser desmoralizado, colocou seus funcionários na berlinda proibindo-os de comprar dólares, ainda de acordo com as mesmas fontes.

The Economist

Em um editorial na terça-feira, o jornal New York Times disse que a Argentina estaria à “beira do abismo” e que é preciso mais para conter a inflação.  Na edição impressa da revista inglesa The Economist que chega as bancas nesta sábado, 01 de fevereiro, intitulado “A Festa Acabou”, o semanário diz se o governo não fizer algo em relação à inflação e subsídios a economia argentina seguirá em perigo e cairá do mesmo barranco que a Venezuela.

“’E preciso subir tarifas, baixar os subsídios e reduzir o déficit fiscal a zero, reduzir a emissão monetária e anunciar isso em um pacote completo”, afirma Spotorno, destacando que o plano é a única saída para o problema que o governo de Cristina Kirchner tem pela frente.

Tags: argentino, Clarín, Governo, intervenção, política

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