Jornal do Brasil

Quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Economia

'Washington Post': Dura realidade do petróleo no Brasil

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A economia do Brasil avaliada pelas perspectivas da indústria de petróleo é preocupante, após seis anos da descoberta dos campos previstos para produzir milhões de barris de petróleo na costa brasileira e que provocaram um frenesi no governo, que por sua vez pretendia transformar o país em uma potência no setor energético. O cenário é analisado pelo jornalista colombiano Juan Forero, em uma reportagem publicada nesta segunda (6/1), na edição eletrônica do Washington Post. Forero afirma que a produção de petróleo no Brasil  está estagnada e as dívidas da Petrobras estão prejudicando os investimentos de empresas de petróleo estrangeiras, que têm receio de investir no país.

A reportagem dá destaque a um depoimento de Roger Tissot, consultor em energia na América Latina. Tissot diz que: "É engraçado, há alguns anos atrás, todo mundo amou o Brasil. E agora, parece que o amor se foi". Segundo Forero o Brasil chegou a considerar-se já uma potência petrolífera, que ajudaria a atender a demanda mundial. Porém, agora enfrenta uma dura realidade e pode desacelerar as suas expectativas. As afirmações de Forero são baseadas em entrevistas com funcionários da energia, executivos do petróleo e conselheiros.

O jornalista avalia que a produção petrolífera no país passou a ser menos atraente para as grandes e ricas empresas estrangeiras e outras fontes de energia promissoras estão emergindo no mundo, especialmente nos campos da África, as areias betuminosas do Canadá e dos depósitos de gás de xisto desbloqueado por tecnologia de fraturamento hidráulico, também chamado de fracking, nos Estados Unidos. Para o especialista em petróleo do Banco Interamericano de Desenvolvimento em Washington, Ramón Espinasa - "Essas empresas têm a força financeira e capacidade e tecnologias para mover ao redor do mundo a engenharia. Elas são capazes de escolher. E isso explica o motivo de não estarem no Brasil".

Juan Forero ouviu alguns especialistas e eles esclareceram que os planejadores de energia do petróleo brasileiro, quando comentaram sobre as reservas não provadas e que poderia rivalizar com alguns dos maiores poderes do petróleo, exageraram enormemente "as bênçãos do fundo do mar", que são os chamados "pré-sal". "Havia um monte de autoridades do governo dizendo que as reservas do Brasil eram de 50 bilhões de barris, 100 bilhões de barris, até 240 bilhões de barris, mais do que a Arábia Saudita", comentou ao WP Wagner Freire, geólogo de petróleo que trabalhou por 35 anos na Petrobras, supervisionando a exploração e produção. Segundo o geólogo, muitos poços foram perfurados na área do pré-sal e estavam seco.

As descobertas no ano de 2007 levaram ao então presidente Luiz Inácio Lula da Silva dizer uma frase que ficou marcada no mercado, que 'Deus havia dado Brasil recompensas que iriam impulsionar a modernização do país'. A reportagem também ressalta que a Petrobras foi uma das 10 maiores empresas do mundo, admirada por investidores como George Soros, um dos mais conhecidos nomes de Wall Street. E novamente destaca uma frase de Lula - "O Brasil fez um bilhete de loteria premiado". 

O WP relembrou um depoimento do então presidente da Petrobras na época, José Sergio Gabrielli. Segundo Gabrielli, os funcionários da Petrobras imaginaram um plano para levar o Brasil ao status de elite entre os produtores de energia do mundo, com a produção passando de 2 milhões de barris por dia para 5,3 milhões em 2020. Juan Forero comenta que as projeções são mais limitadas atualmente, "mas eles ainda são ambiciosos: 4,7 milhões de barris por dia dentro de uma década, de acordo com o ministro da Energia, Edison Lobão". "Considerando que, naquela época o nosso consumo era de cerca de 3,1 milhões de barris por dia, nós estaremos exportando algo em torno de 1,6 milhões de barris de petróleo por dia", destaca o jornal do discurso de Lobão. E destaca que essa é a quantidade total de petróleo exportado pela Venezuela.

Segundo o WP, alguns especialistas dizem que em se tratando de petróleo a previsão é exageradamente otimista. Um funcionário de alto escalão de uma instituição financeira internacional disse para "esquecer os dados". Ele debateu a questão com as autoridades energéticas brasileiras e aconselhou as companhias de petróleo. Na condição de anonimato, esse funcionário disse ao jornal que devido à natureza delicada das relações com funcionários da energia, o país não encontrou novas bacias desde 2008 e enfrenta o esmagador desafio de desenvolver a área do pré-sal a um custo de 237 bilhões de dólares. "As pessoas estão nos dizendo a Petrobras não será capaz de lidar com isso", disse o funcionário ao WP.

O texto destaca que a Petrobras está sobrecarregada com mandatos e grandes interferência do governo, que podem ter prejudicado a empresa, segundo as avaliações dos especialistas. E explica que, para reviver a indústria da construção naval, por exemplo, a Petrobras e seus parceiros devem usar as plataformas de petróleo e outros equipamentos pesados ??construído no Brasil, o que levou a enormes derrapagens de custos e falta de equipamentos. "Petrobras é obrigada a ser a operadora líder e é obrigada a ter uma participação mínima de 30% em todos os novos campos do pré-sal, onerando a empresa com enormes responsabilidades financeiras, enquanto afasta potenciais parceiros estrangeiros", destaca o texto. Além disso, a empresa ainda é obrigada a importar e vender gasolina a preços abaixo do mercado, uma política controladora da inflação.

"Essa perda de receita que o governo impõe à Petrobras apenas obriga a Petrobras a assumir mais dívidas. O governo usa a Petrobras para os seus objetivos econômicos e eleitorais", disse Adriano Pires, ex-conselheiro da Agência Nacional do Petróleo. Segundo o WP, a empresa respondeu com a venda de ativos no Peru, Colômbia, África e Golfo do México. A Petrobras também está adiando o desenvolvimento de outros campos potencialmente lucrativo de petróleo no Brasil, como o depósito de Sergipe, no nordeste, projetada em 1 bilhão de barris.

A presidente-executiva da Petrobras, Maria das Graças Silva Foster, relatou que a situação financeira de curto prazo da empresa "é confortável", com US$ 58 bilhões em dinheiro garantido. A reportagem diz ainda que Foster também abordou sobre o conselho da estatal, que é presidido pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega - "é manter um olhar atento sobre o nível de endividamento e estamos trabalhando para tornar a geração de caixa mais previsível e reduzir a alavancagem da empresa". 

Por outro lado, o jornal afirma que os mercados financeiros observam cada vez mais uma empresa sobrecarregada. Ações da Petrobras caíram recentemente, parte de uma tendência de dois anos que viu a empresa perder um terço de seu valor. "Eles não perderam o grau de investimento, mas há algumas dúvidas sobre a capacidade de a Petrobras pagar sua dívida e ter dinheiro suficiente para investir", disse David Zylbersztajn, um especialista em economia de empresas de petróleo e um ex-diretor do National Agência do Petróleo.

A área do pré-sal está produzindo 300 mil barris de petróleo por dia, muito menos do que havia sido previsto, segundo as informações do WP. E em todo o país, a produção continua a ser estável. Em um episódio que abalou fortemente a confiança no setor de petróleo, a segunda mais importante companhia de petróleo do país, a OGX, que registrou a maior oferta pública inicial do Brasil em 2008, declarou falência em outubro. A maioria de seus poços secaram. 

"Apesar dos contratempos, Foster disse que a Petrobras terá em breve novas plataformas que operam na área do pré-sal, aumentando significativamente a produção no próximo ano e gerar receitas para financiar os investimentos. Em palestra no Rio, em outubro, ela disse que 144 poços exploratórios foram perfurados na área do pré-sal e que 82 por cento do petróleo encontrado", destaca o texto. E completa que no mesmo mês, o governo leiloou seu campo Libra, o primeiro leilão desde 2008. Um consórcio de empresas que inclui a Royal Dutch Shell, a francesa Total e dois gigantes chineses ganharam a licença com a parceria com a Petrobras para desenvolver Libra, que é pensado para conter até 12 bilhões de barris de petróleo.

O texto ressalta uma fala de Magda Chambriard, diretora da Agência Nacional do Petróleo, aos jornalistas - "É difícil imaginar um sucesso maior do que isso". Mas no trecho seguinte afirma que a própria Chambriard havia dito que esperava mais de 40 empresas participantes. Apenas 11 empresas participaram, e nem sequer metade das pessoas optaram por lance. "Talvez o mais surpreendente para os especialistas em energia aqui foram as empresas que não participaram: Exxon Mobil, Chevron e BP, as multinacionais com capital para desenvolver bacias petrolíferas complexas", destaca a matéria de Juan Forero. David Mares, um estudioso de energia que está escrevendo um livro sobre o nacionalismo de recursos na América Latina, disse que o Brasil pode ter que reescrever termos de atrair mais investidores para o próximo leilão. E a matéria completa com uma avaliação de Mares: "O governo tem que se este óleo que flui, mais cedo ou mais tarde".

Tags: brasileira, economia, investimento, Petróleo, Produção

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Comentários

1 comentário
  • cesar coelho cunha

    Para eles não é atrativo? Ótimo, não entraram nem no leilão patrocinado por uma democracia. Eles normalmente conseguem "atrativos" da maneira que o planeta sabe.

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