Jornal do Brasil

Domingo, 20 de Abril de 2014

Economia

Economistas fazem suas apostas para o Brasil em 2014

Entre previsões pessimistas e otimistas, o crescimento é senso comum

Jornal do BrasilPamela Mascarenhas

Ano de Copa do Mundo e eleições, 2014 inspira cuidados e preocupa alguns economistas. Aumentou a apreensão em relação à dívida pública, que deve ficar em 62% do PIB em 2014 contra os 53% de 2010, de acordo com dados da Tendências Consultoria. É certo, até para os mais pessimistas, contudo, que a situação não será marcada por nenhuma tragédia. Haverá crescimento, sim, mas ele será "medíocre" para alguns e bem melhor que o deste ano para outros. Para o PIB, as projeções vão desde 1,8% de expansão até algo em torno de 4%. Já a inflação oscila entre 4%, para os mais otimistas, e 6%. O investimento estrangeiro deve permanecer no patamar em que está e, para a balança comercial, as perspectivas são melhores, motivadas pelos efeitos do câmbio.

O economista Nelson Barbosa, pesquisador do Ibre/FGV, apresentou suas projeções durante o seminário “Perspectivas da economia brasileira 2014”, realizado em novembro, de uma forma que explica bem as diferentes projeções. Ele as dividiu em otimistas, pessimistas e de mercado, que prevê crescimento de 2,2%, com base na desaceleração do investimento; enquanto os otimistas esperam avanço em torno de 3%, de olho na recuperação do investimento pela infraestrutura, câmbio estável de R$ 2,30 e reajuste de energia e gasolina; e, os pessimistas, de 1,5%, com base no aumento da inflação, aumento do câmbio e cancelamento das desonerações.

“Há um incerteza muito grande em torno da economia brasileira e se formou uma convenção pessimista, que tem gerado estimativas pessimistas”, acredita Pedro Rossi, professor doutor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp. Rossi avalia que o próximo ano deve atrair um crescimento robusto, puxado pelos investimentos realizados, como das concessões, que devem surtir efeito já em 2014.

“Eu acredito em um crescimento do PIB em torno de 4% para 2014. Os motivos que causaram a queda recente se dissiparam. Um dos principais foi a desaceleração do investimento em 2011, que foi um erro, do ponto de vista da política econômica.  O ano passado foi muito ruim em investimento. Mas [o investimento] está acelerando neste ano, recuperando o ano passado. Eu acho que a tendência é que tenhamos um crescimento maior”, avalia Rossi. No acumulado dos quatro trimestres terminados no terceiro trimestre de 2013, o PIB registrou crescimento de 2,3% em relação aos quatro trimestres imediatamente anteriores.

Quanto à inflação, Rossi projeta uma taxa entre 4% e 5%, embora pondere que é muito difícil fazer previsões para o índice. Ele sublinha que tivemos um “choque” importante no final do ano passado e no início deste, e que não há motivo para esperar que o “choque” volte. O consumo, que vinha crescendo, deve desacelerar um pouco. “O ano que vem vai ser melhor que 2013. Não compartilho das estimativas que estão sendo feitas. O Brasil tem base para crescer.”

Em relação à possível redução de estímulos pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano), Rossi diz que o mercado, de certa forma, já precificou este acontecimento, o que já causou muita volatilidade. “O mercado já entendeu que, mesmo que as mudanças ocorram, a taxa de juros nos EUA vai ficar baixa por muito tempo. A recuperação americana é um sinal positivo, mas vai ser muito lenta. Não acredito nessa possibilidade de crise cambial”.

Já em relação ao investimento estrangeiro, medido pelo IDE (investimento Direto Estrangeiro), o economista chama a atenção para a estabilidade e tendência que continue forte, sem querer arriscar se vai aumentar ou diminuir. A balança comercial, por sua vez, deve melhorar, muito por conta do ajuste cambial, que demora um tempo para fazer efeito, mas que deve aparecer já no ano que vem, melhorando o déficit em transações correntes.

Segundo números da Tendências Consultoria, o próximo ano deve ter um déficit nominal de 3,6%, expansão de 2,1% no PIB, inflação de 6% e dívida pública de 62% (do PIB). Felipe Salto, economista da Tendências, destaca que o quadro é de crescimento baixo em 2014, próximo de 2%,  devido a restrições novas, principalmente a externa, e limitação para o consumo.

“O modelo baseado no déficit em conta corrente, que vinha sendo financiado por entrada forte de capital externo, como modelo, chegou ao limite. Não tem mais entrada forte de capital. O ajuste vai se dar nas variáveis domésticas, o consumo cresce menos. Vai se reforçando aquelas restrições quase históricas para que a rende per capita avance, produtividade e investimentos. Nem no ano que vem nem a médio prazo esses dois entraves parecem equacionados. Por isso um PIB de 2,1%, um quadro fiscal que se agrava, o déficit nominal cresce, a taxa de juros vai ser maior, o juros da dívida longa está aumentando. O quadro não é desastroso, mas as limitações para que o crescimento vigore são cada vez maiores. ”, explica Salto.

O IDE, acredita Salto, deve permanecer em R$ 58 bilhões no ano que vem, já que ele vinha numa trajetória ascendente, mas neste ano desacelerou. O saldo de pagamentos não é mais financiado pelo IDE, pois não é mais suficiente. Já a balança comercial deve se recuperar, com a taxa de câmbio mais desvalorizada, a uma taxa de 8,2%. “O Brasil continua a ser primário exportador, os termos de trocam dependem da demanda por esse tipo de produto. Esse ciclo se encerrou em 2012, então a balança sofreu esse efeito, que a indústria não conseguiu se recuperar, como a indústria do resto do mundo. O Serviço se tornou mais importante que a indústria. A relação câmbio e salário prejudicou muito o setor produtivo nacional. A balança vai se ajustar, como câmbio desvalorizando aumenta a rentabilidade das exportações. Agora, se isso vai ter impacto sobre o crescimento, é uma dúvida muito grande. É preciso uma mudança da política estratégica macroeconômica. É preciso novos acordos comerciais que estimulem as importações, tecnologia que estimule o aumento da produtividade. Em todas essas frentes, nós estamos muito aquém”.

O ano de 2014, então, para Salto, será o ano em que a política fiscal vai ser “cozinhada em banho maria, com crescimento medíocre, contas externas medíocres e déficit em conta corrente de 3,7% do PIB, o que não será nenhuma tragédia, pois temos reservas de R$  400 bi”.

Antonio Carlos Macedo, professor da Unicamp, pondera, porém, que o instrumental à disposição dos economistas não é poderoso o suficiente para fazer "previsões" com o mínimo de precisão. O que vale para as economias desenvolvidas e para as em desenvolvimento, em geral mais instáveis do que as primeiras. "O Brasil é uma economia em desenvolvimento em meio a um contexto em que as incógnitas são particularmente difíceis de desvendar. Nossa política econômica é alvo de crítica cerrada (e nem sempre justificada); porém, estamos às vésperas de um ano eleitoral - qual será, então, a política fiscal em 2014?."

Macedo aposta que o crescimento da economia brasileira em 2014 deve ficar entre 2% e 4%, e lembra que, no plano externo, há forte incerteza quanto ao momento, à intensidade e à reação dos mercados com a provável mudança da política monetária norte-americana, com a redução dos estímulos pelos Fed. "Não admira, então, que as projeções sejam divergentes. Acho mesmo que, dadas as circunstâncias, nem são tão divergentes assim! Nenhum dos números que tenho visto é em si mesmo mais razoável do que os outros. Todos são o resultado de hipóteses (e esperanças) que os analistas nem sempre têm o cuidado de explicitar. Na hipótese de "tempestade perfeita", aventada por alguns, o crescimento econômico pode mesmo vir a ser muito baixo. Sem descartá-la, prefiro considerá-la pouco provável".

Equipe de Economia Aplicada do Ibre também apresenta diferentes visões

No seminário “Perspectivas da economia brasileira 2014”, em novembro, na Fundação Getulio Vargas, o contraste entre as diferentes visões também pode ser sentido nas apresentações dos economistas da equipe de Economia Aplicada do Ibre. Representando a posição “oficial” do Instituto, Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro Ibre, indicou projeções de crescimento do PIB de 2,4%, em 2013, e de 1,8%, em 2014. Silvia ressaltou que as incertezas no cenário externo no próximo ano são muito elevadas, o que dificulta fazer previsões para o comportamento da economia brasileira, dependente do panorama econômico mundial. Ainda assim, Silvia aposta num cenário internacional mais favorável, com a saída da área do euro da recessão, a continuação da recuperação dos EUA e a estabilização do ritmo de crescimento da China.

Os analistas consideram improvável que o Banco Central (BC) leve o ciclo de aperto monetário, iniciado em março último, muito além do nível de 10% a que a Selic chegou na reunião de novembro. A expectativa é de que o BC interrompa as altas num nível de 10,25% ou 10,5%, no início de 2014, e o IPCA deve fechar em 5,8% este ano e em 6,1%, em 2014. 

Para o pesquisador do Ibre Nelson Barbosa, que deixou o Ministério da Fazenda em meados de 2013 depois de 10 anos de atuação no governo, o país deve crescer entre 2% e 3% no ano que vem. Ele separa as expectativas de crescimento em três grupos - a do mercado, que prevê crescimento de 2,2%, com base na desaceleração do investimento; a dos otimistas, de 3%, com base na recuperação do investimento pela infraestrutura, câmbio estável de R$ 2,30 e reajuste de energia e gasolina - que não devem, acredita, causar impacto muito grande na inflação; e, por fim, a dos pessimistas, de 1,5%, com base no aumento da inflação, aumento do câmbio e cancelamento das desonerações (taxa próxima da projeção do Ibre, ele ressalta).

O superávit primário, ele acredita, deve corresponder a 1,5% do PIB, uma situação sob controle, apesar de estar um pouco abaixo das expectativas. Deve ficar em R$ 73 bilhões neste ano e em R$ 78 bilhões em 2014, considerando a retirada dos estímulos às termelétricas, que teve impacto de R$ 9 bilhões neste ano; o futuro reajuste da gasolina, que teve impacto de R$ 4 bilhões; e a discussão sobre abono salarial.

Em relação aos desembolsos do BNDES, Nelson projetou que vai cair dos R$ 190 bilhões deste ano para R$ 150 bilhões em 2014, "o que deve gerar grande impacto na economia". Ele também reforçou que uma retomada da produção de caminhões deve causar um impacto positivo. Ele lembrou a queda de 41% em 2012, devido ao novo padrão de eficiência energética, em relação às 223 mil unidades produzidas em 2011. "Só isso explica maior parte da queda do investimento em 2012", diz. Neste ano, a projeção do pesquisador é que a produção cresça 45%. 

A inflação em 2014 deve ficar em 6%, no pior cenário, que ainda "é melhor do que o que vimos nos últimos anos". Já em relação ao salário mínimo, com o crescimento de 0,6% no ano que vem, o ritmo de crescimento do consumo deve ser um pouco mais lento. 

Silvia Matos, que abriu o seminário com as previsões do modelo macroeconométrico desenvolvido pelo Ibre sob sua responsabilidade, ressaltou, todavia, que as incertezas para o próximo ano são "muito elevadas", levando em conta o cenário internacional, e que deve haver baixo crescimento e alta inflação, com crescimento do PIB de 1,8% em 2014. Ela destacou também sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho, com menor participação dos jovens, e menor confiança do empresariado.

O cenário econômico dos Estados Unidos e Zona do Euro deve ser mais favorável para esses países, aponta, com um crescimento não tão bom quanto se esperava, mas, de qualquer forma, longe da recessão. O PIB dos EUA deve crescer 1,8% neste ano e 2,4% no próximo. Na América Latina e no México, contudo, a desaceleração é generalizada, com um quadro um pouco mais pessimista para o Brasil - já que os países da AL têm maior espaço para adotar políticas monetárias mais "acomodatórias", devido a inflação menos resistente, que o Brasil.

"O crescimento brasileiro parece que foi transitório. Não é uma tragédia, claro", disse Silvia. Ela acredita, todavia, que a política fiscal continuará expansionista, com "muitos riscos à frente". "Apesar do alívio temporário do câmbio, os riscos inflacionários persistem."

De acordo com Silvia, a confiança de todos os setores da economia continua muito fraca, com desaceleração expressiva. Na indústria, a confiança seria ainda mais baixa. Com relação ao mercado de trabalho, ela explica que a população ocupada tem crescido, mas aquém do mesmo período do ano anterior. "Jovens estão participando menos do mercado de trabalho e a população ocupada está crescendo pouco." Ela destacou o bom crescimento da agropecuária neste ano, que deve contribuir com 0,5% do PIB. 

Quanto à porcentagem do superávit primário no PIB, Silvia prevê que deve ficar em torno de 0,4% em 2014, contra 1% em 2013 e 1,7% em 2012. Ela reforça o peso das desonerações, que significaram R$ 34 bi em 2012 e R$ 59 bi em 2013. Nesse cenário, Silvia sugere que pelo menos três desonerações podem ser canceladas, melhorando a arrecadação. 

A inflação (IPCA), acredita, deve ficar em 6,1% em 2014, um pouco próximo da avaliação de Nelson Barbosa. Para este ano, ela projeta uma taxa de 5,7% ou 5,9% - caso haja o reajuste do preço da gasolina.

O pesquisador do Ibre Samuel Pêssoa acredita "que algum ajuste fiscal deve ser adotado em 2014, mas que a maior parte deve ficar mesmo para 2015". Reforça ainda que uma posição sobre o contrato social e salário mínimo deve ficar mais para frente, em 2018. Já o pesquisador Armando Castelar apresentou a expectativa mais pessimista em relação à adoção de medidas para conter os gastos. Ele não acredita que essas ações sejam tomadas nem mesmo após as eleições, considerando que o custo delas é muito alto. 

Tags: 2014, economia, inflação, perspectivas, PIB

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