Jornal do Brasil

Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017

Economia

Especialistas indicam consequências da redução de estímulos do Fed ao Brasil

Se redução for motivada por crescimento da economia americana pode ser favorável, a longo prazo

Jornal do BrasilPamela Mascarenhas

A possível redução dos estímulos do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) têm gerado apreensões e, na última segunda-feira (9/12), dirigentes do Fed sinalizaram a necessidade do corte já neste mês. As consequências negativas, a curto prazo, para mercados emergentes como o Brasil são unanimidade, mas, se a retirada for incentivada pelo efetivo crescimento da economia americana, os efeitos serão positivos para o mundo todo, pelo menos a longo prazo, acreditam economistas. 

Rodolfo Oliveira, economista da Tendências Consultoria, comentou em conversa com o JB que uma retirada dos estímulos monetários já neste mês poderia não sinalizar uma melhora da economia americana, mas, sim, uma preocupação do Fed com o resultado de seus balanços. Richard Fisher, que comanda o Fed de Dallas, disse terça-feira, de acordo com o Valor Econômico, que "os custos dos estímulos monetários excedem os benefícios". Caso a decisão não seja motivada pelo crescimento, então, a retirada não traria consequências positivas para o Brasil. Se for, ele não acredita que deve ser realizada neste mês, deve ficar para o primeiro semestre de 2014, em janeiro ou março. 

"No curto prazo, é difícil ver efeito positivo. O fortalecimento do dólar nos mercados globais traria consequências para outras moedas. Mas condições melhores da economia americana seriam positivas para a economia mundial. Se a retirada dos estímulos significar que a economia americana está melhor, então os efeitos serão positivos. Agora, uma retirada de surpresa significa algo negativo. As autoridades estão preocupadas com o volume das contas, o balanço da instituição. Mesmo que a economia [americana] não esteja apresentando tendência mais favorável, eles poderiam reduzir para evitar riscos de expansão de balanço do Fed", avalia Oliveira.

Bruno de Conti, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), membro do Centro de Estudos de Conjuntura do Instituto de Economia, ajuda a explicar as consequências favoráveis e desfavoráveis da redução dos estímulos monetários americanos, à economia brasileira. O principal aspecto seria possível caso a redução seja proveniente de uma retomada da economia dos EUA: “No longo prazo, com a economia americana crescendo, dada sua importância para o mundo todo, isso seria bom para o Brasil”. Em curto prazo, no entanto, os efeitos tendem a ser mais negativos que positivos.

Conti destaca que diversos economistas, como Delfim Neto, falam da possibilidade da “tempestade perfeita” no ano que vem, com a retirada dos estímulos do Fed acontecendo no mesmo momento de uma possível queda da nota do país pelas agências de risco, que pode levar à perda do grau de investimento. Se os dois eventos acontecerem de forma mais separada, as perspectivas serão melhores. Há, contudo, a correlação entre os dois. “Se [a retirada dos estímulos dos EUA] for feito agora, e a fuga de capital do Brasil for acentuada, haverá um efeito no câmbio, fator que pode contribuir para possibilidade de queda do Brasil nas agências de classificação.”

Para ele, não há dúvidas de que, no curto prazo, os efeitos para o Brasil são mais negativos, em função da volatilidade que vai ser criada no mercado financeiro. A entrada de capital hoje, pela conta financeira, tem sido funcional, explica, devido ao déficit elevado na conta de transações corrente. “A gente, para fechar o balanço de pagamentos, precisa desse capital que tem entrado pela conta financeira”.

Um efeito positivo, contudo, poderia seria a conquista de uma taxa de câmbio competitiva, estimulada justamente pela menor entrada de capital financeiro. Nos últimos anos, tivemos uma entrada massiva de capital financeiro, que gerou a apreciação da moeda brasileira. Isso teve seus benefício, explica, como controle da inflação e barateamento das importações. Mas, para ele, "é óbvio" que ter uma moeda apreciada não é positivo para a economia, principalmente para o setor produtivo. 

"A taxa de câmbio muito baixa foi um dos fatores que levou a indústria a ter muita dificuldade na competitividade internacional. Com a redução dessa entrada massiva de capital, a pressão sobre a taxa de câmbio também se reduz. A alta depreciação, porém, também não seria positiva. O ideal seria ter uma taxa num patamar razoavelmente competitivo.” Conti aponta para a importância de o governo brasileiro tentar controlar esses movimentos de câmbio e ficar atento ao mercado futuro, para, na medida do possível, evitar um overshooting cambial.

O professor de macroeconomia da ESPM Rio, Roberto Simonard, por sua vez, observa um crescimento da economia americana e também explica os diferentes efeitos, positivos e negativos, da redução dos estímulos do Fed para a economia brasileira. O lado mais negativo, confirma, surgiria no curto prazo, pois é o que tem o efeito mais rápido.

"Como o banco central americano vai injetar menos moeda [com a retirada dos estímulos], e parte dessa moeda hoje vai para os mercados emergentes, que oferecem algum tipo de atrativo, haverá menos dólar em circulação, esses países vão receber fluxos menores”, analisa.

Os efeitos positivos, acredita, devem surgir no médio prazo. Com o crescimento da economia americana, o país deve começar a importar mais alimentos, matérias-primas, e as empresas americanas voltarão a investir no exterior. Essas situações, acredita, devem começar a ser percebidas apenas a partir do segundo semestre de 2014. “No curto prazo, o efeito monetário é mais rápido. No médio prazo, vamos ver. O quanto os Estados Unidos vão crescer, e aumentar de importação, a gente tem que esperar para ver.”

A economia dos Estados Unidos cresceu mais que o previsto no terceiro trimestre deste ano, apesar de lenta demanda doméstica. O PIB cresceu à taxa anual de 3,6%, em vez dos 2,8% esperados, de acordo com o Departamento de Comércio.

Tags: FED, brasil, consequência, economia, estimulo

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