Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Economia

O calcanhar de Aquiles chinês

Na próxima década, a China poderá ter uma severa desaceleração, prevê Le Monde

Jornal do Brasil

Durante a próxima década, o crescimento da China deve ter uma grave desaceleração. Este não é o ponto de vista estrangeiros mal-intencionados, mas do próprio governo chinês, opina o jornalista Martin Wolf em sua coluna publicada no Le Monde, em parceria com o Financial Times.

A questão é se essa desaceleração será suave ou aguda. A resposta a esta pergunta está diretamente ligada ao futuro da China e de grande parte do mundo.

Um dos documentos discutidos no Fórum de Desenvolvimento da China, realizado de 23 a 25 de março em Pequim, escrito por economistas do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento do Conselho de Estado, analisava o potencial de declínio chinês, seguido de um renascimento inicial e de um novo período de crescimento.

Seu argumento era de que a taxa de crescimento da China vai passar de cerca de 10%, entre 2000 e 2010, para 6,5% entre 2018 e 2022.

Alguns das razões pelas quais os autores fazem essa previsão são, em primeiro lugar, o potencial de investimento em infra-estrutura,  "claramente contraído";  além de a participação dos investimentos em ativos fixos ter  aumentado  de 20% para 30% ao longo da última década. Outro motivo é que no mundo o retorno sobre os ativos caíram e o excesso de capacidade explodiu. O "ICOR" - que mede o crescimento gerado por um determinado nível de investimento - atingiu 4,6 em 2011, seu nível mais alto desde 1992. Os investimentos chineses começaram a gerar um crescimento mais lento do que antes.

Em terceiro lugar, o crescimento da oferta de trabalho tem caído significativamente.

A urbanização, o quarto motivo, continua a aumentar. Por fim, os riscos aumentam nas finanças, nos governos locais e no setor  imobiliário.

Estabelecidas há muito tempo, as tendências começam a se reverter. O investimento fixo atingiu 49% do produto interno bruto  (PIB) em 2011, mas deverá cair para 42% em 2022, enquanto a percentagem de consumo deve aumentar de 48% para 56%. A participação da indústria deverá diminuir de 45% para 40% do PIB, enquanto os serviços,  de 45% para 55%.

A economia será impulsionada pelo consumo, não pelo investimento. Do lado da oferta, o principal fator para o declínio do crescimento é o colapso do aumento do estoque de capital, após a queda do investimento.

PIB no mesmo nível que o Japão

É possível ter uma visão otimista desta mudança. Conforme o Conference Board, um grupo de reflexão especializado em Canadá, pesquisa e análise econômica, o PIB per capita da China (paridade poder de compra) é o mesmo que o do Japão em 1966 e da Coréia do Sul em 1988. 

Em relação aos EUA, a China corresponde ao que foram o Japão em 1950 e a Coréia do Sul em 1982. Isto sugere um potencial adicional de crescimento. O PIB per capita da China é pouco mais de um quinto do nível dos EUA. Parece, portanto, que o país asiático tem um grande espaço para melhorar.

Há, porém, uma série de elementos contrários a esta visão otimista. Como muitas vezes sublinhou o ex-primeiro-ministro Wen Jiabao, o crescimento da China foi "desequilibrado, descoordenado e insustentável". É verdadeiro em muitos aspectos, porém o mais significativo é a dependência vis-à-vis do investimento, não só como fonte de capacidade adicional, mas como um alvo de procura. Um aumento permanente da taxa de investimentos não é sustentável, porque vai depender, em última análise, do aumento do consumo.

E é aqui que há pessimismo. Como demonstrado pela experiência do Japão, é extremamente difícil passar de uma economia com forte investimento e crescimento para economia com baixo investimento e baixo crescimento.

Confiança para imobiliárias

Em primeiro lugar, se o crescimento esperado cair mais do que 10%, ou seja, passar a 6%, o investimento necessário em capital produtivo sofrerá um colapso: um ICOR com nível constante cairia de 50% para 30% do PIB. Se isso ocorrer de modo rápido, só esta diminuição poderá provocar depressão.

Segundo, o forte crescimento do crédito foi acompanhado de dependência vis-à-vis aos imóveis e outros investimentos. Em parte por este motivo, o menor crescimento irá provavelmente resultar em um aumento das dívidas incobráveis, particularmente no setor de investimento operado sob a ideia de que o crescimento passado continuaria. A fragilidade do sistema financeiro pode aumentar muito, especialmente no "setor bancário ".

Terceiro, há poucas razões para esperar um declínio da taxa de poupança das famílias. Portanto, apoiar o crescimento do consumo previsto requer um reequilíbrio da gestão doméstica à custa de grandes empresas, incluindo as estatais.

Já a crescente escassez de mão de obra e as taxas de juros poderiam contribuir para bons resultados. Mas, mesmo se fosse esse o caso, há um claro risco de declínio dos lucros, o que poderia acelerar o colapso do investimento.

A intenção do governo chinês é clara: prosseguir sem problemas na transição para um crescimento mais equilibrado. O que está longe de ser impossível. O governo tem todas as alavancas necessárias. Além disso, a economia continua a apresentam um potencial.

É fácil encontrar exemplos de economias que têm um excelente desempenho a longo prazo, mas depois não conseguem negociar sua inevitável desaceleração. O Japão é um deles.

A China pode fugir a esse destino, em parte porque ele inclui um enorme potencial de crescimento. Mas o perigo de derrapagem é  elevado. Eu não acho que um acidente grave é suficiente para interromper completamente a emergência da China. Mas a próxima década poderia ser muito mais acidentada nesse sentido, acredita Martin Wolf.

Tags: economias, investimento, JB, publicado, Risco

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