Miami Herald: Todos estão otimistas sobre o México, exceto os mexicanos
Até pouco tempo, as manchetes sobre o país arrepiavam os cabelos
Cidade do México - Durante uma visita na semana passada, eu não podia deixar de ser surpreendido pela reação de desprezo de muitos mexicanos com o crescente consenso na mídia mundial que este é "o momento do México" na economia global, começa o jornalista Andres Oppenheimer seu artigo sobre o país latino para o jornal americano Miami Herald.
Ao longo das últimas semanas, houve uma enxurrada de manchetes brilhantes ao redor do mundo, anunciando que o México irá ofuscar o Brasil, e talvez até mesmo a Índia e a China, como a estrela mais promissora do mundo econômico.
Na semana passada, a revista Foreign Affairs publicou uma reportagem intitulada México faz, e o colunista do The New York Times, Thomas Friedman, escreveu uma coluna intitulada Como o México voltou para o jogo.
Em janeiro, o The New York Times publicou um artigo de opinião do ex-editor da revista Wired, Chris Anderson, intitulado México: a nova China. Poucos dias depois, o Financial Times publicou a reportagem Mexico: Tigre asteca.
No ano passado, a revista The Economist publicou um artigo, “The Rise of México”, e eu escrevi uma coluna no Miami Herald chamada (Presidente Enrique) Peña Nieto do México tem a sorte ao seu lado.
Até poucos meses atrás, a maioria da mídias internacionais trazia manchetes de arrepiar os cabelos sobre o México, com foco nas 60.000 mortes com a violência relacionada às drogas nos últimos seis anos. Alguns até especularam que o México estava se tornando um "Estado falido", como a Somália, onde o governo não pode controlar todo o seu território.
Como se pode explicar essa repentina reviravolta? O México pode ter se tornado um queridinho da mídia: Com o fiasco de crescimento do Brasil, as economias da China e da Índia desacelerando, e a Europa em recessão, o México está brilhando por padrão. A economia do México cresceu 4% no ano passado, em comparação ao crescimento de 0,9% do Brasil.
Além disso, nós jornalistas somos como pássaros pousados ??em um fio de telefone: Uma vez que um deles voa, todos voam. Nós tendemos a ter uma mentalidade de bloco, quer admitamos ou não, prossegue Andres Oppenheimer.
Durante minha visita, encontrei um ceticismo generalizado nos meios de comunicação locais, e entre os mexicanos em geral, sobre o caso de amor repentino internacional com o México.
"Depois de tantos anos de crescimento econômico medíocre, há um persistente clima de frustração", disse o pesquisador Ulises Beltrán, diretor da empresa de pesquisas BGC.
De acordo com a última pesquisa de Beltran, lançada no início de fevereiro, apenas 46% dos mexicanos acreditam que os próximos cinco anos serão melhores, em comparação com 56%, quando o governo anterior iniciou um mandato de seis anos em 2006.
A confiança das pessoas cresceu um pouco desde que Peña Nieto assumiu o cargo em dezembro, mas 66% dizem que situação econômica do México é "regular" ou "ruim", mostra a enquete.
Quando perguntei a uma platéia de cerca de 500 pessoas durante um painel na Cidade do México na semana passada se estavam otimistas sobre o futuro do México, apenas a metade das pessoas levantou as mãos.
E a maioria dos analistas políticos reage com uma mistura de cautela e humor diante das previsões otimistas do exterior.
Comentando sobre a manchete do Financial Times sobre o 'Tigre asteca', o colunista Sergio Sarmiento, do Diário Reforma, escreveu que "quando se trata de metáforas, temos que ter em mente que o tigre é um animal que não existe no nosso país."
Minha opinião: o México não é uma "nova China", nem uma economia tigre, pelo menos não ainda. Mas não há dúvida de que há uma constelação de fatores positivos que trabalham em favor do México - e nós não vimos tal desenvolvimento nas últimas décadas.
A recuperação econômica dos EUA provavelmente ajuda as exportações do México, uma provável reforma da imigração dos EUA legalizaria milhões de mexicanos que poderiam conseguir trabalhos melhor remunerados e enviar bilhões de dólares extra de volta para casa em remessas familiares. Já o aumento dos salários na China levam um número crescente de empresas industriais multinacionais a se realocarem no México.
Tão importante quanto isso é um acordo inédito assinado em 02 de dezembro entre os três maiores partidos políticos do México, que pode levar às necessárias reformas na educação, energia e telecomunicações.
E a passagem de uma emenda constitucional na última semana para permitir avaliações de professores e outras reformas de longo alcance da educação, juntamente com a divulgada prisão da todo-poderosa líder do sindicato dos professores, Elba Esther Gordillo, pode sinalizar que Peña Nieto está sério sobre a realização dos seus vários planos de reforma.
Mas para que a ascensão do México se torne uma realidade, os mexicanos terão de começar a acreditar neles próprios.
Até agora, o governo Peña Nieto fez um grande trabalho em convencer os estrangeiros de que o México está em ascensão, mas ele vai ter que começar a fazer algo para ajudar a melhorar a auto-estima dos mexicanos em casa, como aconteceu no Peru e na Colômbia nos últimos anos, em coordenação com os partidos de oposição.
Se os mexicanos não estiverem convencidos, o momento do México não vai durar muito, conclui o artigo do Miami Herald.
