Jornal do Brasil

Terça-feira, 18 de Junho de 2013

Economia

Os ricos estão mais vulneráveis, diz artigo de 'El Pais'

Crise econômica no Primeiro Mundo agrava quadro

Jornal do Brasil

A crise econômica fez com que a classe média na Europa e nos Estados Unidos hoje fosse muito mais vulnerável aos acontecimentos que empurram uma família para situação de pobreza. E em países de baixa renda, apesar de alguns progressos inegáveis, a maioria da população permanece pobre. Enquanto isso, a desigualdade econômica tem sido aguda. Entre 1970 e 2012, a renda do 1% da população dos EUA duplicou, passando de 10% para 20% do total. E durante aproximadamente o mesmo período, a renda dos 10% mais pobres da população cresceu apenas 3,6%. E nós sabemos que o maior peso do ajuste econômico europeu não recaiu precisamente em quem mais tem, diz artigo publicado no jornal espanhol El País no sábado (23), e assinado por Moises Naim.

De acordo com o texto, esta dura realidade, no entanto, mascara outra tendência que começou antes da crise econômica e que vai continuar depois dessa morrer: as corporações e seus executivos de topo estão perdendo o poder. Isso é difícil de acreditar em tempos de tanta e tão justificada indignação frente a uma crise causada pelas decisões dos empresários mais poderosos e ao fato de que muitos parecem não terem pago um alto preço por seus erros. No entanto...

Tanto as pessoas mais ricas do mundo como os que dirigem as empresas que parecem fortalezas inexpugnáveis são mais vulneráveis. Isso de forma alguma significa que se deve ter pena deles. Obviamente, eles continuam estando muito bem. Mas supor que nas alturas do poder econômico não está acontecendo profundas transformações é um erro, alerta o artigo.

De acordo com Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia, 1% das pessoas com maior renda nos EUA viu uma queda de 36% devido à crise, enquanto os restantes 99% sofreram uma queda de 11,6%. Em 2012, 441 mil das pessoas mais ricas do mundo listadas na lista da Forbes experimentaram uma redução em seu patrimônio. Obviamente, uma perda de 11% na renda de uma família que a duras penas mal chega ao fim do mês é uma catástrofe, enquanto a que queda na receita dos que ganham mais não tem grandes consequências. Mas o fato é que os que ganham mais têm agora uma situação menos segura do que antes, diz o artigo.

E não apenas na renda: seus empregos também são menos seguros. Nos EUA, a permanência de um executivo sênior do escritório foi reduzida pela metade ao longo dos anos 90: de 10 a 5 anos. Em 2011, 14% dos chefes das 2.500 maiores empresas do mundo deixaram o cargo involuntariamente, prossegue a reportagem.

O mesmo se aplica para as próprias empresas: já não é tão fácil como antes manter uma posição de liderança. Um estudo realizado por Diego Comin e Thomas Philippon mostrou que, em 1980, uma empresa dos EUA top de seu setor só tinha um risco de 10% de ser deixada de fora deste nível nos próximos cinco anos. Duas décadas mais tarde, essa probabilidade tinha subido para 25%. No setor financeiro, sempre um dos mais poderosos - as grandes empresas tradicionais foram à falência ou são perseguidas por novos concorrentes. No segundo semestre de 2010, os 10 maiores (hedge funds), a maioria deles desconhecidos do público, ganhou mais do que os seis maiores bancos do mundo como um todo. Estes dez fundos empregam apenas alguns milhares de pessoas, enquanto os maiores bancos têm centenas de milhares de funcionários, diz o texto do El País.

Outro risco que aumentou significativamente para as grandes empresas e os seus gestores é o de sofrer um acidente que destrua sua reputação. Uma investigação da Oxford Metrica revelou que as empresas que possuem marcas mais renomadas do mundo têm, ao longo de um período de cinco anos, 82% de chance de ter um acidente que reduza drasticamente o valor de sua marca. Duas décadas atrás, essa probabilidade era de apenas 20%.

O que significa tudo isso? Isso não significa que o poder econômico está desaparecendo, muito menos que a sua capacidade de influenciar os políticos e o governo está diminuindo. Significa, sim, que a situação dos mais ricos e dos responsáveis das grandes empresas não é tão cômoda e estável como antes. O poder econômico, como muitos outros nos dias de hoje, é agora mais fácil de obter, mais difícil de exercer e mais fácil de perder. E isso é uma boa notícia, conclui o texto.

Tags: crise, economia, perda, política, rico

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