Jornal do Brasil

Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

Economia

Sindicato e GM selam acordo que ambas as partes não consideram 'ideal'

Sindicalistas dizem que empresa quer modelo "chinês"; GM os chama de intransigentes

Jornal do BrasilLuciano Pádua

Após a aprovação, nesta segunda-feira (27), pelos funcionários, do acordo que a General Motors propôs ao Sindicato dos Metalúrgicos em São José dos Campos, ambas as partes destacaram que a negociação foi árdua e o resultado não é ideal para nenhuma delas.

Os sindicalistas acusam a empresa de querer implantar um padrão “chinês” de trabalho e o governo de não protegê-los de forma adequada. Já a montadora diz que o custo de produção na fábrica é, em média, 30% mais elevado do que em outras unidades e que o sindicato da categoria dificulta as negociações.   

Segundo Antonio de Barros, presidente do Sindicato dos São José dos Campos e Região, a dificuldade na negociação, que foi intermediada pelo Ministério do Trabalho, se deu porque a montadora queria manter a demissão de mais de 1.500 trabalhadores, acabar com a produção do modelo Classic e, com isso, fechar a fábrica, que conta com mais de 7 mil funcionários. 

Além disso, ele entende que o governo não deveria atuar apenas como intermediário, mas promover uma Medida Provisória (MP) semelhante à MP 579, que determinou a redução das tarifas energéticas no país, para "proibir a demissão em massa de funcionários de empresas lucrativas  os montadoras". 

"A dificuldade foi que a empresa queria manter as demissões de 1.500 pais de família, acabar com a produção do modelo Classic. Tinha como estratégia fechar as fábricas de São José dos Campos em no máximo cinco anos. Por isso, o acordo não foi perfeito, foi o possível. Poderia ter sido muito melhor se o governo tivesse apertado as montadoras com medidas concretas para proteger os trabalhadores", criticou o sindicalista.

"Padrão chinês" e nacionalização

De acordo com ele, a empresa oferecia, no começo das negociações, um "padrão chinês de exploração" dos trabalhadores, referindo-se à baixa proteção legal dos funcionários de empresas chinesas. Pelo acordo, o piso salarial que hoje é de R$ 1.800 psara a área de logística e de R$ 3.100 para os trabalhadores nas áreas de motores, transmissões e estamparia, passa a ser no único valor de R$ 1.800 para todos os novos empregados. Os antigos empregados mantêm seus salários atuais.

"A empresa não tem crise financeira, está em seu melhor momento de vendas no Brasil. Eles querem uma demissão em massa em São José dos Campos para  aumentar o lucro e o faturamento. Em 2011, a planta (fábrica) faturou R$ 8,5 bilhões, foi a mais lucrativa do pais. Querem nos impor um padrão quase que chinês de exploração. Por isso fizemos um processo de resistência", defendeu Barros.

O sindicalista adiantou que agora se inicia a segunda parte da negociação com a GM. Nela os trabalhadores querem a nacionalização da produção de carros em São José dos Campos. "A GM hoje importa mais de 100 mil carros no país. Isso deixa de gerar mais de 3 mil postos de trabalho diretos. Queremos que ela nacionalize a produção do modelo Sonic, que é importado da Coréia do Sul e produza em São José dos Campos o modelo Track, que será importado a partir de março do México", afirmou o presidente do Sindicato. 

GM se defende 

A GM, por sua vez, alega, por meio de sua assessoria de imprensa, que desde 2008 - quando foram investidos R$ 800 milhões no Complexo de São José - as negociações entre a empresa e o Sindicato vêm estremecendo, sem chegar a um acordo. A montadora norte-americana alega que o custo da produção no local é 30% mais elevado do que a média de suas outras plantas no país e na Argentina. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos confirma a informação e diz que os outros sindicatos “relaxaram tanto que transformaram nosso salário em maior”.

A empresa afirmou também que desde agosto de 2012 vem discutindo com os trabalhadores o destino da fábrica. A unidade industrial produzia outros quatro modelos de veículo, todos descontinuados em 2010. Segundo a companhia, outros quatro carros seriam produzidos no local, mas não houve acordo com os trabalhadores para tal.  

A GM informou ainda que há um excedente de mão-de-obra na unidade de 1.598 funcionários. Com o novo acordo entre as partes, foram mantidos a produção do modelo Classic até dezembro deste ano, que, segundo a empresa, deveria ter sido encerrada em agosto de 2012, e 750 postos de trabalho. Além disso, ficou acertado o investimento de R$ 500 milhões na unidade de transmissões e motores do complexo nos próximos cinco anos. 

Para o excedente, foi oferecido layoff a 800 empregadores, modalidade na qual eles não trabalham e receberiam o salário integral até novembro do ano passado, estendido agora por mais dois meses. Caso o acordo seja descumprido, a empresa terá de pagar três vencimentos mensais aos demitidos. Este valor é pago conjuntamente pela companhia e pelo governo federal. Paralelamente, há um Programa de Demissão Voluntária (PDV), que conta com 300 adesões, segundo a GM.

A partir desta terça-feira (28), os trabalhadores que permanecerem na linha de montagem do Classic entrarão em férias coletivas, e voltarão no dia 14 de fevereiro, quando a empresa acredita que "já terá tomado as providencias necessárias para retomar a produção do modelo até dezembro". 

Tags: acordo, carros, fábrica, montadora, partes, Produção

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