Jornal do Brasil

Domingo, 21 de Setembro de 2014

Economia

Com talento "nato", brasileiro já é o 3º maior empreendedor do mundo

Brasileiros superam dificuldades para prosperar nos negócios

Jornal do BrasilCarolina Mazzi

As micro e pequenas empresas do Brasil que atuam legalmente respondem por mais da metade dos empregos com carteira assinada no país. Mas, a grande maioria delas ainda atua na informalidade, mostram dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Burocracia, tributações elevadas e deficiências na infra-estrutura são alguns dos problemas citados pelos empresários para o baixo nível de legalização e a dificuldade na expansão dos empreendimentos.

Apesar do ambiente desfavorável para negócios, o Brasil já é o 3º país com o maior número de empreendedores do mundo, atrás apenas de China e Estados Unidos, segundo dados do GEM (Global Entrepreneurship Monitor). Número que continua crescendo. Dos 1,2 milhão de novos negócios que surgem anualmente no país, mais de 99% são de micro e pequenas empresas e estão na região mais urbanizada do país, o Sudeste. O grande número de empreendedores nas camadas menos escolarizadas da população também é uma característica particular do país. 

Carla Teixeira, coordenadora do Sebrae para os "Projetos de Empreendedorismo das Comunidades Pacificadas", lembra da importância da aprovação da lei do Empreendedor Individual (EI), que facilitou a legalização dos negócios informais. "Antes, era impossível. Agora, a burocracia é quase nula e as taxas são muito baixas".

Para os que estão cobertos pela nova lei, em vigor desde 2008, fica eliminada a necessidade de um corretor e a contribuição tributária não ultrapassa 37,10 reais ao mês. Além disso, os benefícios de acesso ao crédito ficam mantidos, assim como descontos na previdência e isenção de taxas para registro. 

Secretária bilíngue, Silênia Barreto Jader, de 60 anos, é uma das beneficiadas pelo EI. Há 25 anos, ela resolveu abandonar uma "mordomia do emprego" no Rio de Janeiro para abrir uma confecção de uniformes profissionais em Petrópolis (RJ). No início, as dificuldades para obtenção de crédito e os altos impostos prejudicaram o seu negócio. Desde que se registrou como empreendedora individual finalmente progrediu.

"Já fiquei muito enrolada com cheque, cartão de crédito e pagamentos pré-datados. Desde que entramos nesta nova lei, as coisas melhoraram e atualmente consigo comprar com o fornecedor a vista e revender no crédito", comemora. 

Perfil brasileiro

João Ricardo Moraes sempre teve uma motivação natural para os negócios. Com apenas 25 anos, ele já está em sua segunda empreitada, a Zíper Delivery de Conveniências, que faz entregas de comidas e bebidas durante a madrugada na Zona Sul do Rio de Janeiro. Em apenas dois anos de funcionamento, a empresa tem 16 funcionários e um faturamento de R$ 2 milhões por ano. 

Terminando o curso de Radialismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Moraes é exemplo do perfil do empresariado brasileiro: homem, de 18 a 64 anos, com mais de cinco anos de formação. Porém, a penetração das mulheres nos negócios, que sempre foi equilibrada, tende a aumentar. Hoje, elas estudam mais e já representam 45% dos empreendedores do país.  

"Acho que o sonho de abrir o próprio negócio aqui no Brasil ainda é grande, pois não temos empresas sólidas, instituições que dão segurança ao trabalhador, o medo de perder o emprego faz com o que os brasileiros busquem seus negócios. As oportunidades no país também estão crescendo, para todos, desde micro até grandes empresas", analisa.

Herança cultural

A posição no ranking internacional, mesmo com tantas dificuldades, mostram o perfil empreendedor que é "nato do brasileiro", segundo o historiador André Azevedo, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Ele acredita que um dos responsáveis por esta característica é um fenômeno do século 19, chamado "escravidão de ganho".

"Na época, a burguesia urbana obrigava seus escravos a procurar proventos na cidade. Alguns roubavam, mas grande parte arriscava, em novos negócios: venda, serviços, por exemplo. Mesmo os ex-escravos continuavam à margem da sociedade, o que os obrigava a buscar proventos pelo próprio esforço. Estes fenômenos ainda fazem parte da identidade da população, principalmente quando vemos que é muito comum no Brasil associar o trabalho para o outro como escravidão, como prisão, que é preciso ser o 'próprio patrão'". 

Andréia Dourado com uma de suas funcionárias: salão foi aberto há dois anos
Andréia Dourado com uma de suas funcionárias: salão foi aberto há dois anos

Andréia Dourado mora no Rio de Janeiro, só terminou o segundo grau e trabalhava como vigilante até decidir abrir um salão de cabeleireiros para "não ter patrão". Ela já exercia a profissão desde a adolescência, mas só formalizou o negócio há dois anos. Hoje conta com mais três funcionárias. "É muito melhor não ter patrão, poder definir seus custos. Hoje trabalho muito, mas tenho retorno financeiro melhor e liberdade". 

Para o professor, o governo brasileiro não consegue se aproveitar desta característica da população. "Se tributassem esses empreendedores com taxas especiais, por exemplo, poderiam tapar uma parte do rombo da previdência e estimular novos negócios", analisa. Outra particularidade apontada pelo especialista é a vontade de inovar das camadas mais pobres. "A elite do brasil quer ser funcionária pública, promotor, juiz e etc. Então, sobra para a camada mais baixa da pirâmide a função de criar, de empreender, inovar". 

Problemas antigos

Apesar de comemorar o sucesso, Andréia afirma que a tributação alta quase a fez desistir do negócio. "Quando vi o que teria que pagar ao contador, todo mês, só para ele fazer as notas e gerenciar o pagamento dos tributos, quase desisti. Acredito que esta deva ser a razão que faz com que as pessoas desistam de legalizar o negócio, ou até criar um novo", contou.

Silênia acredita que a maior dificuldade brasileira ainda é a falta de mão-de-obra qualificada no mercado. "É mais difícil achar uma costureira boa do que vender muito bem ou enfrentar a burocracia. Falta gente boa em todas as áreas, na verdade", afirma.  

Para o consultor Márcio de Oliveira Santos Filho, sócio da Inseed Investimentos, a vontade de se abrir um negócio no Brasil não é fomentada, o que explica o alto nível de "empreendedores por necessidade" no país, pessoas que acabam investindo em negócios para subsistência.

"Uma economia saudável tem mais empreendedores por 'oportunidade', pessoas que vêem uma deficiência no mercado e a preenchem. Além da educação falha, o ambiente para negócios é ruim, a infra-estrutura é deficiente e tudo é muito caro e burocrático. O brasileiro é muito persistente e obstinado e consegue ir além dessas barreiras. É quase inexplicável, um talento natural", acredita. 

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