Alta do dólar vai encarecer tarifas de eletricidade
Natalia Pacheco, Jornal do Brasil
RIO - Os preços da energia elétrica vendida pelas distribuidoras das regiões Sul e Sudeste deverão aumentar este ano, apesar da já verificada queda do consumo de energia no país.
O fenômeno será provocado pelo câmbio, que influencia os preços da energia comercializada pela geradora Itaipu Binacional. Como boa parte da carga gerada pela maior hidrelétrica do mundo tem como destino as distribuidoras dessas duas regiões, a tendência é que 2009 se revele um ano ruim para o consumidor final.
O dólar, que rege os contratos de Itaipu, tem apresentado altas desde o início da crise financeira. Além disso, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou recentemente o reajuste das tarifas da hidrelétrica em 8,7%, para US$ 25, 02 por quilowatt/hora (KWh).
Presidente da consultoria Andrade & Canellas, especializada no setor elétrico, João Mello revela que a queda do Produto Interno Bruto (PIB) provocada pela crise reduzirá o crescimento do consumo de energia elétrica do país para uma média de 3% ao ano. Antes do colapso financeiro global, a previsão de crescimento era de 5%.
Apesar dos impactos da crise financeira internacional sobre o setor elétrico brasileiro, o esperado leilão da hidrelétrica de Belo Monte - cuja construção deverá agregar 11.181 megawatts (MW) de potência energética no rio Xingu, no Pará - está mantido. Pelo menos é o que assegura uma fonte do governo, ao justificar que o já declarado apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai contribuir para reduzir os riscos não só do empreendimento já conhecido como Itaipu da Amazônia, como também de outros investimentos em infra-estrutura previstos pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Especialistas do setor advertem, no entanto, que as atuais condições de crédito no mercado deverá diminuir a concorrência no leilão da usina, marcado para o próximo ano.
Consórcio
Para a disputa da usina, executivos e especialistas do setor acreditam que, diferentemente do leilão da hidrelétrica de Rio Madeira ocorrido entre 2007 e o ano passado , a tendência é que as subsidiárias do grupo Eletrobrás entrem unidas em um mesmo consórcio encabeçado pela holding. Nos leilões do Rio Madeira, um consórcio formado por Furnas e Odebrecht arrematou a usina de Santo Antônio (3.150 MW), enquanto um outro, formado por Suez, Eletrosul e Chesf, adquiriu a usina de Jirau (3.300 MW).
Pela nova modalidade de participação, o governo não só pretende evitar a concorrência entre as empresas do grupo, como também assegurar uma melhor garantia de investimento. O bem fornido caixa da holding, observam os especialistas, deverá diminuir os custos de financiamento das obras.
Além das esperadas dificuldades de crédito e da menor concorrência entre consórcios, esses mesmos especialistas prevêem uma dificuldade adicional para o governo, no leilão de Belo Monte: a queda dos deságios. Com a escassez de crédito no sistema financeiro, só as grandes empresas do setor elétrico deverão participar do leilão.
Com menos empresas na disputa, a concorrência deverá diminuir, o que acarretará lances menores. Entretanto, o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nivalde de Castro, acredita que os preços da energia da hidrelétrica deverão ficar no mesmo patamar do das usinas de Santo Antônio (R$ 78,87 por MWh) e Jirau (R$ 71,40 por MWh).
Se no segmento de geração de energia as dificuldades trazidas pela crise mundial parecem contornáveis, no setor de distribuição, a tendência é de queda da lucratividade das empresas distribuidoras de energia, como conseqüência da redução da demanda. O lucro das companhias, que vinha crescendo em torno de 50% por ano, com o desaquecimento da economia, neste ano, deverá aumentar na mesma proporção do PIB, em torno de 3%.
Nivalde de Castro também prevê a queda dos preços da energia no mercado livre. Antes do agravamento da crise, o preço estava em torno de R$ 200 por MWh. No início de setembro a energia no mercado livre já era negociada a R$ 100 por MWh.
O mercado livre desestressou. Com a economia aquecida, as distribuidoras não conseguiam atender toda a demanda, o que tornou a energia mais cara. A crise criou um movimento diferente do que estávamos acostumados. O preço da energia no mercado livre vai cair, mas no mercado cativo vai subir por causa dos reajustes de Itaipu explicou o coordenador.
