Clínicas públicas precisam concorrer com cracolândias
Internação compulsória funciona para crianças; para adultos, tratamento desburocratizado
O crack é noticia no mundo desde a metade dos anos 80, no século passado, descoberto por acaso por traficantes em Nova York e desde então vem afligindo serviços de saúde, assistência social, famílias e sociedades em várias cidades do planeta. Suas vítimas são, em sua grande maioria, pessoas muito jovens, algumas crianças, fora do mercado de trabalho e com situação econômica e familiar extremamente insatisfatória. Os laços familiares dos usuários de crack estão sempre rompidos e há uma pobreza extrema, além de uma grave situação de abandono. Eis, portanto, o cenário problemático em que encontramos o usuário de crack.
Ao longo da minha longa experiência no atendimento dos dependentes químicos de crack, constatei que a abordagem dessas pessoas é, geralmente, fácil: eles gostam de falar sobre suas experiências com a droga e se sentem amparados quando os encorajamos a falar de seus problemas. Aí podemos vislumbrar um milagre de resistência – resiliência, isto é, capacidade de superar as adversidades - diante de verdadeiras tragédias que permeiam suas vidas.
Internação compulsória funciona para crianças
Das propostas para o enfrentamento da questão, uma nos parece interessante, apesar de estar causando polêmica: a internação compulsória de crianças e adolescentes em abrigos especializados, com acompanhamento de equipe multidisciplinar. É uma proposta que tem que se cercar de cuidados, tem que ser muito bem feita, porque se essa primeira tentativa falha, teremos um usuário para sempre descrente de qualquer proposta de um serviço de saúde ou assistência social.
A internação compulsória para menores de idade funciona porque, pelo que temos visto, entrevistando e pesquisando a história de vida e comportamento dessas crianças bem como suas famílias - quando existem - elas se beneficiam do contato com adultos interessados e responsáveis. Além disso, aprendem sobre a droga que estão consumindo, retomam seus estudos, algumas, inclusive, praticam esportes. Outras, se assim o desejam, são matriculadas em academias de dança e , acima de tudo, são protegidas da violência das ruas e se permitem desfrutar da companhia de adolescentes de sua idade, sem que haja consumo de drogas. Esse é um passo tímido, mas pode ser uma pedra fundamental no enfrentamento ao crack na cidade do Rio de Janeiro.
Tratamento desburocratizado para adultos
A mesma internação forçada que não parece funcionar para adultos. Esses já têm outros interesses, são mais insensíveis às propostas de prevenção e não se beneficiam, lógico, das principais armas da mesma proposta com adolescentes, que é o vínculo com a escola e o aprendizado de uma profissão. Para os adultos, proponho a estratégia das cracolândias: elas não fecham nunca, estão sempre ali, servindo de abrigo noite e dia para os que querem e os que não querem consumir drogas.
Vale a pena ressaltar que o serviço de saúde oferecido hoje para o tratamento dos dependentes químicos são burocráticos e isto torna-se um desafio para as autoridades.
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) para tratamento de dependentes químicos têm dia e hora para abrir, quem os procura precisa se identificar, precisa de senha, às vezes até de indicação de terceiros. Além disso, mesmo os usuários que assim desejarem não pode pernoitar nas clínicas.
Proponho serviços de tempo integral, em todos os lugares do Rio, que funcionem 24 horas – sem fechamento aos sábados, domingos e feriados. Assim, será possível competir com as cracolândias.
Enquanto essas apostam no vício, na decadência e na morte, vamos funcionar o tempo todo, oferecendo saúde, esperança e vida.
*Profª. do Departamento de Psiquiatria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e uma das fundadoras do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad), da Uerj.
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