Jornal do Brasil

Quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Cardeal Orani Tempesta

O próximo e a proximidade

Dom Orani João Tempesta*

A celebração do Natal nos contagia a todos. Festas, presentes, visitas, cânticos, enfeites, solenidades, gestos de carinho e de caridade se espalham pelo mundo. Mesmo para os não cristãos é uma data que chama a uma experiência de vida partilhada e a ideais de vida que todos trazemos em nossos corações.

O contágio com o bem que ocorre no Natal nestes últimos tempos é campo de uma questão de comercialização e de lucros. Creio que é tempo de retomar a primeira razão, a primordial, pela qual celebramos o Natal, que é o nascimento de Jesus, o Verbo Eterno do Pai que se fez homem no seio da Virgem Maria em Belém de Judá, uma pequena cidade perdida no Oriente Médio, mas que era o foco das profecias do local do nascimento do Messias.

Vejo com esperança que os presépios pelas praças, ruas e avenidas, apesar das dificuldades logísticas e de autorizações, continuam a ocorrer em nossa cidade. Alguns centros de compras começam também a colocar em seus salões de entrada não só os enfeites de um natal “genérico”, mas estão tendo a coragem de recordar o que realmente se comemora nessa época.

As igrejas, que em geral já “montam” seus presépios no interior das mesmas, já há alguns anos começaram a mostrá-los em suas escadarias, fachadas, pátios de tal forma que as pessoas que passam pelas ruas e avenidas possam refletir sobre o mistério do Natal que celebramos.

Porém, esses sinais que ajudam a pensar no Natal de Cristo e com Cristo supõem outro passo importante que neste ano somos chamados a dar: a proximidade de Deus! Jesus é a imagem do Deus invisível. Ele é a boa notícia que alegra o coração de todas as pessoas: “eu vos anuncio uma grande alegria”! É a Ele que se refere também o Papa Francisco em sua exortação apostólica: “A alegria do Evangelho”, e o Evangelho, a Boa Notícia, é o próprio Jesus, o Verbo encarnado, feito homem para a nossa salvação.

Essa proximidade de Deus, o totalmente outro, celebrada no Natal é ainda mais bela: uma criança em uma manjedoura simples em uma pequena cidade. Ninguém tem medo de se aproximar, pelo contrário, sente-se chamado a estar próximo! É essa proximidade d’Aquele que tudo criou e que sempre existiu e existirá que nos faz confiantes e orantes. Podemos nos aproximar, falar, ouvir, estar próximo desse Deus que se revelou a nós!

Em tempo de incredulidade e distanciamentos, em tempos que muitas vezes falamos de um Deus como princípio de todas as coisas ou a razão última de tudo que nossos conceitos filosóficos nos conduzem, celebrar o Na                tal é ter diante da vida o grande mistério da encarnação: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”!

Essa proximidade de Deus nos faz encontrá-Lo também nos irmãos e irmãs: “o que fizerdes ao menor dos meus irmãos é a mim que fareis” nos coloca ainda mais diante da proximidade d’Ele. Eis que O encontramos, além da Palavra, Eucaristia, também nos irmãos e irmãs que estão ao nosso lado e a quem somos chamados a amar.

Contemplar os presépios espalhados pelas igrejas e pela cidade já é um passo para retomarmos o verdadeiro sentido do Natal, mas essa contemplação deve nos conduzir a viver a proximidade do “Deus Conosco” e “Salvador” que nos conduz a compartilhar esperança e vida com os nossos irmãos e irmãs, em especial aqueles que mais sofrem e são excluídos.

Nesse sentido, o Ano da Caridade que a nossa Arquidiocese inaugura com a solenidade de São Sebastião, “discípulo do amor e da caridade” deverá ser a nossa resposta concreta à celebração natalina que vivemos nestes dias, pois, “se não tiver caridade de nada adianta”.

Depois de uma bela preparação no Advento, com liturgia própria, em especial nesta última semana, a celebração penitencial nos dando a reconciliação e renovando nossa vida cristã, a oração e reflexão da novena de Natal e os atos concretos (tivemos a partilha generosa de muitos com relação aos que sofreram com as enchentes) devem ter nos preparado para celebrar cristãmente o Natal.

Não será apenas uma festa externa, sem a razão principal, apenas feita de momentos vazios que se perdem no dia seguinte, mas sim de uma presença próxima que nos acalenta o coração e nos torna novos para acolhermos o outro que passa ao nosso lado.

Um Santo e Feliz Natal para todos os nossos queridos diocesanos!

*Dom Orani João Tempesta é Arcebispo do Rio de Janeiro. 

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