Chávez: graças à Venezuela, a Alca não existe

JB ONLINE

-

Valéria Reis

PORTO ALEGRE - A coletiva com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, contou com a presença de milhares de jornalistas que cobrem o Fórum Social Mundial. A entrevista começou com mais de duas horas de atraso e terminou por volta das 20h, no Hotel Plaza São Rafael, em Porto Alegre.

De jaqueta vermelha e cercado por um batalhão de seguranças e generais, Chávez saudou os jornalistas de várias nacionalidades e as organizações sociais e disse que o Fórum é o evento mais importante que ocorre no mundo. Ele respondeu a cinco perguntas, sendo que uma delas questionava o papel dos militares neste momento na América Latina. Chávez disse que ele mesmo é militar e citou o líder Simon Bolivar: ''Os militares devem empunhar suas espadas para defender as garantias sociais'', disse. ''Maldito seja o soldado que se volte contra seu povo. Os militares devem levantar suas espadas em defesa de seu povo e nunca subordinar-se aos ministérios. Os militares têm que ter o papel de libertadores da vontade popular''.

O presidente citou a agressão imperialista sofrida pela Venezuela, ''quando alguns militares venderam sua alma ao demônio do imperialismo e nos derrotaram, apoiados pelo militarismo norte-americano''. Ele contou que o povo foi às ruas quando a ditadura o aprisionou por 47 horas. ''O braço poderoso do povo se uniu e, quase três anos depois, estamos aprofundando a democracia e cumprindo tarefas de desenvolvimento''.

Chávez informou que, atualmente, em seu país, as missões de saúde estão incorporadas aos militares que atuam junto à comunidade construindo estradas, auxiliando pescadores e camponeses na lavra da terra, para uma melhor qualidade de vida. ''Acabei de chegar de Tapes, onde visitei um assentamento e fiquei surpreso ao encontrar um general venezuelano acompanhado de uma universitária de meu país, verificando o modelo de agricultura usado na área. Muitos militares de meu país trabalham também incorporados na investigação científica, além de defender a soberania de nossa terra. O objetivo é fortalecer a participação popular na união cívico-militar.''

Sobre o golpe de 2002 que sofreu pelo poder dos meios de comunicação de massa, Chávez respondeu que é necessário criar e lutar de verdade por um mundo melhor. ''Se o modelo do capitalismo e do neoliberalismo continuar avançando no planeta, haverá grandes desastres no mundo. A Terra está com a pulsão, equilíbrio e cada vez mais aumenta a temperatura. Mas, eles não reconhecem que fizeram isso e escondem a cabeça como avestruz. Está havendo o degelo dos pólos e isso acarretará grandes inundações, 10 vezes mais que o desastre recente na Ásia. É preciso salvar a vida das futuras gerações, propondo uma ofensiva'', defendeu. ''E aí vem Mr. Bush e Miss 'Condolência' (risos) com ameaças negativas e golpe de Estado, com pressão e chantagens econômicas através da Alca para o colonialismo de nosso povo. A melhor defesa é o ataque'', disparou.

Segundo Chávez, a proposta da Venezuela é a elaboração de uma agenda mundial, pois não se pode só ficar debatendo por 200 anos. ''Não se detém o tempo e é preciso propostas específicas para a América do Sul. Temos que fazer um esforço maior e lançar um plano ofensivo, uma agenda. Não se assuste Mr. Bush! Tudo a seu tempo!'', disse.

Hugo Chávez citou o Grupo dos 15, formado por Venezuela, Índia, Egito, Indonésia, Malásia, Senegal, Sul da África, Argélia, América Latina, Nigéria, entre outros países de peso. O presidente disse que este grupo estava apagado e foi feito um esforço para levantar a chama. Disse ainda que a salvação do Norte, está na salvação do Sul. Citou a tirania da mídia que quer lavar o cérebro com veículos como CNN, New York Times, Washington Post e ''tantos times e post por aí''(risos da platéia).

''Visitei Saddan para salvar a OPEP e a salvamos. Saíram fotos minhas nos jornais, com Hussein, Kadafi, mas nunca mostraram uma foto minha com o papa, e olha que já estive duas vezes no Vaticano. Já estive com Clinton e falamos sobre temas do Continente. Mas, com este homem dos Estados Unidos, a conversa é sobre bombas e ameaças'', criticou.

Chávez disse que há uma campanha mundial sobre a Ditadura Midiática, sobretudo nos grandes jornais. O presidente contou que em seu país só publicavam mentiras. ''Diziam que eu mandava matar as pessoas e eram eles que matavam, que eu estava em reuniões, quando eu estava preso''.

Chávez informou sobre uma Aliança com a América Latina e o Caribe. Disse que amanhã segue para Buenos Aires e também deverá passar pelo Canadá, para uma integração com estes meios de comunicação, ''para dizer a verdade para nossos povos''. ''Eles só dizem que somos violentos, que somos invasores. Aqui no Rio Grande do Sul, só vi os agricultores trabalhando e cuidando do equilíbrio ecológico'', afirmou. ''Queremos uma união das TVs do Sul da América que esteja na ordem do povo e não dos governos, com cultura, informação verdadeira e profunda''.

Chávez lembrou seu encontro com Fidel Castro, em Havana, em 1994. ''Naquela queda recente na escada, ele quebrou o joelho em sete pedaços, com uma luxação severa no ombro. Fidel está com 78 anos e pouco depois já estava caminhando. Ele é de uma disciplina espartana''. Hugo Chávez comentou uma passagem, quando Fidel o surpreendeu numa conferência sobre a Bolívia. ''Desci do avião de Fidel e ele estava me esperando com fratura no joelho, numa cadeira de rodas. Meu filho disse: papai, Fidel Castro está na porta do avião. Não acreditei e era verdade. Foram nove horas de conversa''. (risos).

Chávez observou que, na Venezuela, um programa com médicos venezuelanos e 20 mil médicos cubanos trabalham com as comunidades. O presidente contou que eles dormem em ranchos, percorrem todos os povoados, promovendo ações de prevenção à doenças. Informou sobre os programas de saúde para mulheres grávidas e clubes de idosos. Disse ainda que 1,3 milhão de pessoas foram afalbetizadas. Antes, a cada ano, só 10 mil pessoas eram alfabetizadas. ''Foi uma verdadeira batalha contra a ignorância. No ato de entrega dos diplomas, um homem de 92 anos recebeu o diploma. Uma senhora com idade avançada disse que não podia ensinar seus filhos, mas agora estava ensinando seus netos'', disse. ''Esta é uma maneira de integração com novos conceitos econômicos''.

O presidente informou que seu governo está atuando junto com uma empresa brasileira para usar carvão para a energia combustível. ''Temos níquel em nossa terra e essa é a integração das economias. Graças à Venezuela, a Alca não existe!'', disparou. ''O caminho é avançar com uma proposta alternativa e uma aliança enérgica de países como Cuba, Bolívia, Trinidad Tobago, México e Brasil'', sugeriu. ''Hoje a Venezuela se sente cubana e Cuba se sente venezuelana. O superman luta pela justiça (numa referência a Bush) e nós temos a Criptonita. Somos anti-imperialistas. Enfim, numa economia social, é necessário transcender o capitalismo para solucionar os grandes problemas da pobreza. Este é um grande debate para o FSM. É preciso construir um mundo pluri-polar. Deus me livre caminhar por um mundo polar!''.

Chávez disse que a forma mais negativa do mundo se chama governo dos Estados Unidos da América e que seu país vive uma relação econômica afetada por esta atormentada relação. ''A Venezuela é livre, independente e soberana e não aceita pressão de ninguém! Ele disse que os governos da América do Sul deveriam cercar a Chávez e o que acontece: a cada dia estamos nos aproximando cada vez mais'', ironizou.

''Nós temos capacidade de solucionar os problemas entre nós mesmos. Temos que marchar para um modelo de integração. Não temos outra alternativa a não ser nos unirmos para formar um continente livre e independente''.

Chávez lembrou quando estava preso e recebeu a visita de um cardeal que lhe pediu para aceitar o último sacrifício, subir no avião e deixar o país. ''Que vergonha para a Igreja.! Eu disse: se quiser, vá o senhor. Se quiserem me fuzilem, mas não subo neste avião. Estive dois dias sequestrado e mesmo assim fui presidente, mesmo que me levassem na Apolo 11. Sob qualquer situação, eu era o presidente da Venezuela'', contou.

Sobre o golpe no Haiti, Hugo Chávez disse que na última reunião de presidentes declarou que a solução está no povo do Haiti, incorporar o presidente Jean Bertrand Aristide, promover uma assembléia constituinte com o povo daquele país, através de um referendo no mundo, com observadores do FSM e uma consulta popular. ''Isso se chama democracia'', completou o presidente da Venezuela.