Saramago arranca aplausos de milhares de pessoas

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Valéria Reis

PORTO ALEGRE - O Auditório Araújo Vianna, no bairro Bom Fim, ficou lotado de na manhã deste sábado, 29. Todos queriam assistir às conferências do Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, e do jornalista e autor de vários livros, dentre eles o cultuado As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano - uma das principais atracões do Fórum Social Mundial. Ambos dialogavam com a proposta de converter a utopia em realidade por meio da dinamização de políticas criativas e humanas, no encontro 'Quixote hoje: utopia e política'.

Saramago disse que a esquerda precisa revisar seus conceitos. Também enfatizou que "a política é a arte de não falar a verdade", acrescentando que as decisões são tomadas pelas grandes organizações financeiras, criticando o Fundo Monetário Internacional (FMI).

José Saramago foi enfático ao rechaçar a utopia e seus significados. ''O que transformou o mundo não foi a utopia, mas a necessidade. Se a realização de nossas utopias ocorressem em breve, não seriam chamadas de utopia, mas sim de muito trabalho e dedicação'', frisou. O escritor sugeriu a retirada desta palavra do dicionário.

O escritor português também criticou os organismos internacionais e não poupou os governos políticos. Ele acrescenta que o discurso manipula e sempre esconde algo. É a arte de camuflar a verdade. ''Nossas democracias estão amputadas e sequestradas''. Ele observa que nosso poder como cidadão, hoje, consiste em trocar um governo que não gostamos por outro que não conhecemos.

O escritor disse ainda que não sabe o que é natureza humana. Segundo ele, esse conceito já foi muita coisa desde o Homem das cavernas. ''Eu tenho clara uma coisa: cada um de nós, seja quem for, leva uma besta dentro de si. A natureza não é só humana''. Saramago disse ainda que é ateu e acredita na auto-reflexão. ''Os conflitos se sucedem porque não somos capazes de reconhecer o outro. O outro é como eu e tem o direito de dizer Eu''. Lembrou, também, que o homem vê o mundo com seus cinco sentidos. 'Se tivéssemos 10 sentidos, o mundo seria de outra forma bem diferente', sentenciou.

Saramago citou uma frase de Ghandi: "Não há caminho. O caminho é a paz. O caminho se faz andando". O escritor comentou ter encontrado recentemente, na Itália, o amigo Umberto Eco e que ele lhe confidenciou: ''Tenho medo do futuro do meu neto''. Após a lembrança, Samarago declarou aos presentes: ''Se todos aqui neste Fórum formos determinados, eu não terei medo do futuro de meu neto e de meu filho'', completou, sob muitos aplausos. Também participaram da conferência o escritor uruguaio Eduardo Galeano, Frederico Mayor Zaragoza, ex-diretor geral da Unesco, e o diretor de redação do Le Monde Diplomatique, Ignacio Romanet.