Sérgio Pardellas
BRASÍLIA - Passadas as eleições municipais, o Planalto volta a direcionar as suas preocupações no sentido de reaglutinar a bancada governista no Congresso. Segundo o acordo firmado pelo presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), as votações na Casa só serão retomadas na semana que vem. Já estão sendo mantidas, no entanto, conversas para assegurar que os partidos aliados retornem das eleições falando a mesma língua do governo.
As costuras têm o objetivo de evitar que o rescaldo eleitoral se transforme numa espécie terceiro turno dentro do Congresso, capaz de inviabilizar as votações de matérias de interesse do Planalto, como a Lei de Falências e as Parcerias Público-Privadas. O governo começa a juntar os cacos do estilhaço eleitoral porque sabe que encontrará uma oposição fortalecida e estridente, encarnada pelo PSDB e PFL, e uma bancada governista desmobilizada, sedenta pela liberação de emendas parlamentares individuais. Na coalizão governista, as eleições provocaram fissuras em quase todos os partidos. Uma das exceções foi o PTB. Embora tenha enfrentado o PT em Belém (PA), o partido está cada vez mais afinado com o Planalto, desde o jantar oferecido pelo presidente da legenda, deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva:
- O governo reconhece que as feridas das eleições precisam ser curadas e já está conversando com cada partido - admitiu ontem o líder do governo na Câmara, deputado Professor Luizinho (PT-SP).
O PMDB retorna indócil, ameaçando abandonar a barca governista por conta das divergências eleitorais no Rio Grande do Sul, em Pernambuco e no Rio de Janeiro. Além disso, a ala ligada ao senador Renan Calheiros (PMDB-AL) sonha com um acordo para a presidência do Senado que leve ao cargo o próprio Renan ou alguém ligado à bancada. No próximo dia 10, o partido se reúne para traçar as novas diretrizes pós-eleitorais. Há quem defenda o rompimento imediato com o governo e a conseqüente entrega dos cargos:
- Algumas forças defendem uma posição de independência. Outras querem levar o partido para a oposição. Eu, particularmente, entendo que precisamos cumprir nosso papel, que é estratégico na governabilidade - afirmou ontem o senador Renan Calheiros, acrescentando, no entanto, que os problemas, apesar de existirem, são ''contornáveis''.
No PSB, que teve candidatos derrotados pelo PT, o líder do partido na Câmara, deputado Renato Casagrande (PSB-ES), também tentará apaziguar os ânimos para debelar uma eventual crise de relacionamento com o governo. Nas eleições municipais, os socialistas enfrentaram o PT em cidades importantes como São Paulo (SP), Porto Alegre (RS), Natal (RN), Porto Velho (RO) e Anápolis (GO). Do embate em São Paulo, por exemplo, resultaram ressentimentos e mágoas por parte da candidata a prefeita e deputada Luiza Erundina (PSB-SP). A bancada ainda reclama de falta de prestígio do governo.
- Realmente, a Erundina saiu magoada das eleições. De qualquer forma, as questões eleitorais nós tentaremos administrar. O problema maior é a reclamação dentro da bancada de que o governo não tem prestigiado os nossos parlamentares no dia-a-dia, revelando sua incapacidade de fazer política nos estados - lamentou ontem o líder Renato Casagrande.
O PPS, do deputado Roberto Freire (PE), volta fortalecido pela vitória de José Fogaça em Porto Alegre e o aumento de 65% do seu eleitorado governado no país. Passou de 4,1 milhões em 2000 para 6,7 milhões. O resultado credencia a legenda ainda mais para fazer ecoar o grito de independência em relação ao governo federal. Para isso, conta com a parceria do PDT, presidido por Carlos Lupi. Juntas, as duas siglas saíram das eleições municipais controlando 12 das 96 maiores cidades do país. Enquanto não anuncia o desembarque definitivo do governo, até porque conta com a resistência do ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, o PPS promete dar trabalho ao Planalto no Congresso, integrando o chamado ''bloco dos 69''. O nome foi dado em alusão ao número de parlamentares que PPS, PSB, PDT, PC do B e PV têm juntos.
- Vamos atuar juntos - avisa Lupi.
No PC do B, as cicatrizes também ainda estão abertas por causa da disputa em Fortaleza. O deputado Inácio Arruda (PC do B) ainda não engoliu a derrota, ainda no primeiro turno, para Luizianne Lins (PT). Embora a petista não tenha contado com o apoio do Palácio do Planalto na primeira etapa das eleições, o diretório do PT não conseguiu impedi-la de entrar na disputa e sair vencedora no segundo turno.
Na próxima semana, os líderes vão realizar nova reunião para estabelecer um cronograma de votações e as matérias prioritárias, depois que forem votadas as 21 Medidas Provisórias que estarão trancando a pauta. Apesar dos problemas, Luizinho se mostra confiante:
- Há o compromisso das lideranças de reiniciar as votações no dia 9. Até lá, acreditamos que a maioria dos problemas já estará solucionada - disse ontem o líder.