Hugo Marques
BRASÍLIA - O presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), dom Tomás Balduíno, de 81 anos, afirma que ''o distanciamento do PT com as suas bases'' foi uma das causas da derrota de vários candidatos do partido nas eleições. Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do governo federal, dom Tomás acha que as alianças ''esdrúxulas'' do PT com partidos conservadores também contribuiu para o resultado da eleição nas capitais.
- A derrota aponta para uma atitude do próprio PT, de se fechar às bases - critica dom Tomás.
O bispo avalia que o governo de Lula criou uma espécie de ''blindagem'' em torno do poder, que acabou provocando um ''deslocamento'' da base em relação aos políticos da legenda. Não foram denúncias de corrupção que condenaram o partido nas urnas, diz dom Tomás, mas a falta de comunicação entre o partido e as massas das grandes periferias das capitais, o que o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, consegue estabelecer.
- O PT não atendeu aos anseios e as expectativas de fazer o povo participante do governo. A elite sabe fazer pressões todos os dias, mas o povo só tem as eleições para manifestar sua insatisfação - diz dom Tomás.
O bispo não consegue entender os motivos que levaram o PT a fazer alianças com partidos considerados por ele conservadores, exemplo do PFL e PP, entre outros. Dom Tomás cita como exemplo o ex-governador Paulo Maluf, indiciado por formação de quadrilha por mandar dinheiro para as Ilhas New Jersey. Maluf foi eliminado no primeiro turno e perdeu a eleição ao lado de Marta Suplicy (PT) no segundo turno.
- A população acabou votando em quem não gosta. Estas alianças esdrúxulas não são com partidos preocupados com o social - observou dom Tomás.
Grande parte da militância do PT, afirma o bispo, votou nulo por não concordar com as alianças e o distanciamento das bases. Além de ser muito crítica, diz dom Tomás, a militância do PT foi a primeira a se sentir fora do poder, distanciada das decisões da cúpula do partido. O bispo acha que Lula pode ter problemas nas eleições de 2006 se mantiver o distanciamento.
- O PT ficou no seu pedestal em Brasília, não dialogou com as periferias. Estou muito preocupado com o comportamento do PT. E a próxima problemática se dá em torno da Presidência da República - afirma dom Tomás.
O bispo acha que Lula e o PT terão de reconquistar a militância e as bases do partido nas periferias. Além de dialogar com o povo e fazer com que a militância se sinta parte do poder, diz dom Tomás, o governo tem de cumprir rápido os projetos que prometeu. Dom Tomás aponta a área de educação como prioridade. O bispo não acha que as metas da reforma agrária - que não estão sendo cumpridas - tenha sido motivo da derrota dos candidatos do PT.
- O pessoal que ocupa a terra é minoria. O problema foi mais urbano do que rural - diz o bispo.
Dom Tomás demonstra preocupação com o ressurgimento de ''messias'' da política, gente que aproveita esta brecha do distanciamento do PT com as bases e encara eleição como negócio. O bispo se diz preocupado com Estados do Centro-Oeste, onde a política ''populista'' estaria ''inflando as cidades para conseguir uma rotatividade'' no poder.
- Essa faixa da sociedade que é manipulada pelos messias tem que ser trabalhada pelas organizações populares - conclui dom Tomás.