Garotinho perde em casa

Marco Antônio Martins e Roberto Barbosa

CAMPOS - Após uma campanha marcada por brigas judiciais e denúncias de compra de voto, a vitória de Carlos Alberto Campista (PDT) em Campos – 54,58% dos votos válidos – pode ter decidido o futuro político do ex-governador e presidente regional do PMDB, Anthony Garotinho, candidato declarado à presidência da República em 2006. Geraldo Pudim, seu candidato, teve 45,42%. O grupo de Garotinho comandava a prefeitura da cidade do Norte Fluminense desde 1988.

– Essa eleição em Campos prestou um relevante serviço ao Brasil, ao mostrar Garotinho nu. A história vai fazer justiça ao prefeito Arnaldo Vianna – comemorou Campista, referindo-se ao atual prefeito, rompido com o ex-governador e afastado do cargo por 20 horas no início da semana, sob suspeita de irregularidades na administração.

Pudim não quis se manifestar, mas desde as 20h o clima era de derrota no escritório no Centro, onde acompanhava a apuração sem a companhia de Garotinho – que circulou entre o diretório e a casa de parentes da governadora Rosinha Matheus e depois foi para casa. À noite, cerca de 60 simpatizantes de Campista fizeram um buzinaço na porta de Garotinho.

– Pudim a R$ 1! Pudim a R$ 1! – provocavam os manifestantes, em referência aos programas sociais do casal de governadores.

O ex-governador viajou para o Rio no fim da noite, sem se pronunciar. Apesar de Carlos Campista (PDT) ter ganho de Geraldo Pudim (PMDB) nas urnas eletrônicas a disputa para a Prefeitura de Campos ficará a cargo da Justiça decidir qual candidato assumirá o governo do município. A afirmação é do presidente do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), desembargador Marcus Faver. Ele declarou que, devido às mais de 10 denúncias direcionadas aos dois candidatos, a juíza de Campos, Denise Apolinário, apresentará a decisão final em 15 dias, podendo impugnar ambas candidaturas ou apenas uma. Caso Pudim e Campista fiquem inelegíveis, uma outra eleição pode ser marcada para a cidade.

– As eleições de Campos não terminaram para o Tribunal. Se for preciso, teremos um terceiro turno – explica Faver.

O dia começou tenso entre Garotinho e os jornalistas. Irritado, chegou por volta das 8h30 ao Ciep da Lapa, a cerca de 500 metros de sua casa, para votar. O ex-governador não quis dar entrevistas e chamou os jornalistas de “canalhas”. A seu lado, a governadora Rosinha pediu que se mantivesse tranqüilo. Em seguida percorreu seções eleitorais no Distrito de Guarus, onde foi aplaudido por partidários do PMDB. Para o promotor Marcelo Lessa, essa prática representa boca-de-urna, por quebra de silêncio.

Como presidente regional do PMDB, Garotinho usou a prerrogativa de ser fiscal do partido para entrar nas seções eleitorais do Distrito de Guarus, maior colégio eleitoral do município e onde se originou a maior parte das denúncias recebidas pela Justiça eleitoral e pela Polícia Federal.

A irritação de Garotinho era compartilhada por seu candidato, Geraldo Pudim (PMDB). As notícias da apreensão de R$ 318 mil na sede do PMDB de Campos, na madrugada de sábado, foram vistas por ele como “encenação”. Pudim chegou às 9h para votar na Faculdade de Direito, no Centro. Confiante que venceria as eleições com 20 mil votos de diferença (terminou 22 mil votos atrás de Campista), o peemedebista orientou a mesária Stephanie Áreas a conferir a assinatura de cada eleitor, orientação dada pela juíza Maria Teresa Gusmão aos funcionários das seções eleitorais, e disse se considerar prejudicado com a presença do Exército na cidade.

– Fui voto vencido no partido sobre o apoio à vinda das tropas. A presença do Exército assusta os meus eleitores e eu me senti prejudicado. Agora, ao contrário do que dizem, a vinda de Garotinho me ajudou – desabafou Geraldo Pudim, contando que foi dormir às 23h e ontem acordou às 7h. Mesmo não sendo evangélico, participou de um culto em sua casa antes de ir votar.

O candidato do PDT também votou pela manhã na Escola Estadual Visconde do Rio Branco, no bairro da Lapa. Chegou acompanhado da mulher, Beth Campista, do prefeito Arnaldo Vianna e da primeira-dama Ilsan Vianna, e criticou o que chamou de abuso financeiro do PMDB nesta eleição:

– Garotinho sai de sua cidade natal com um projeto político derrotado. Agora todos sabem quem é o verdadeiro Garotinho. Creio que esta eleição em Campos serviu como um farol para todo o país.

Após deixar a seção eleitoral, Campista seguiu para o Centro Federal de Educação Tecnológica, onde o prefeito Arnaldo Vianna votou. Os dois acompanharam a apuração de votos na casa do prefeito.

Após a apuração, Campista anunciou que vai se reunir com seus aliados para começar a definir os nomes da equipe de governo.

[ 01/11/2004 - 02:00 ]


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