Além do Fato / Resultados do segundo turno

Pedro do Coutto

O fato de os resultados finais das eleições de ontem nas cidades de São Paulo, Curitiba e Porto Alegre terem apresentado algumas diferenças significativas em relação às pesquisas de sábado não representam, efetivamente, erros do Ibope ou Datafolha, mas sim oscilações de última hora no sentido dos vencedores. Como os levantamentos divulgados no Jornal Nacional de sábado, e no JB, O Globo e Folha de São Paulo no domingo, deixaram nítidas as vitórias de José Serra, Beto Richa e José Fogaça, parte dos indecisos optou por eles. Acontece sempre. Ao mesmo tempo, a divulgação maciça desestimulou a militância de Marta Suplicy, Ângelo Vanhoni e Raul Pont. Mais uma vez, o fator emoção influiu.

Esta, como é natural, ficou ao lado dos vitoriosos. A emoção, muito mais do que qualquer marketing, é decisiva nas chegadas. Motivo pelo qual, a meu ver, John Kerry vencerá as eleições presidenciais dos Estados Unidos. Há muito mais calor na campanha democrata do que em volta do presidente George Bush. O marketing é algo estudado, frio, bem comportado, o oposto do impulso humano. É a publicidade axiomática que sustenta a venda de produtos.

Acontece que o ser humano não é um aparelho de televisão, um sabonete, uma cerveja, um automóvel. Homens e mulheres não são peças publicitárias. Pensam, amam, discutem, arrebatam-se. Não são feitos de gelo. Quando as campanhas políticas se distanciam do marketing e ganham o caráter de competição esportiva, entra a emoção. É ela que decide. Os motivos que levam à vitória e causam derrotas são outro assunto. Podem explicar o voto, mas não podem mudá-lo.

Se na vida de todos nós não existe ato algum que não produza qualquer tipo de reflexo, muito menos na política, sobretudo na hora da urna. O desencontro do presidente Luís Inácio Lula da Silva com o candidato Lula teria que produzir reflexos negativos tanto para o governo quanto para o PT. Inclusive, agindo com absoluta honestidade, foi este o fator destacado na noite de sexta-feira por Raul Pont ao tornar pública sua própria derrota.

A partir de hoje há um novo quadro político no país. A derrota evidente do PT não decorreu de armações e acordos partidários. Se assim fosse, o poder logicamente não perderia eleições no mundo. O eleitorado espera e cobra soluções. Não é simples massa de manobra, não quer saber de injunções. Protesta pelo único instrumento de que dispõe: o voto

[ 01/11/2004 - 01:55 ]


[Tempo Real]