PT finca bandeira na Baixada

Bernardo Mello Franco e Paulo Celso da Cunha

Por mais de 60 mil votos de diferença, Lindberg Farias, do PT, derrotou o candidato do ex-governador Anthony Garotinho em Nova Iguaçu, maior colégio eleitoral da Baixada Fluminense. Com 57,74% dos votos válidos, o petista frustrou a tentativa de reeleição de Mario Marques, do PMDB, e se credenciou como estrela em ascensão do PT no Estado.

– Há seis meses, ninguém acreditava que nós conseguiríamos vencer no coração da Baixada. O partido terá uma grande chance para se renovar no Estado. Estive com o presidente Lula depois do primeiro turno e ele afirmou que Nova Iguaçu precisa ser o cartão-postal do PT na Baixada – contou.

Lindberg afirmou que o governo federal e o prefeito reeleito do Rio, Cesar Maia, serão os “dois grandes parceiros” de sua administração, mas descartou a continuidade da aliança entre o PT e os dois principais partidos de oposição no plano nacional, PSDB e PFL, que participaram de sua campanha em Nova Iguaçu.

– Quero fazer convênios com Lula e Cesar Maia, mas a disputa nacional de 2006 será entre PT e PSDB. O que nos uniu nas eleições do Rio foi a rejeição aos métodos políticos do casal Garotinho.

O prefeito eleito de Nova Iguaçu afirmou que sua vitória servirá de lição ao ex-governador e presidente regional do PMDB:

– Garotinho tem que tomar isso como aprendizado. Seu método de fazer política foi derrotado. Enfrentamos uma campanha barra pesada, com muitos boatos e uso da máquina do governo do Estado. Mas isso me beneficiou. A apreensão de R$ 318 mil na sede do partido dele em Campos é o fim de uma campanha conduzida de forma desastrosa. Um vale-tudo, sem limites éticos, que não respeita nem a família dos candidatos – atacou o petista, acusado há duas semanas de ter uma filha não reconhecida com uma garçonete.

Apesar do tom duro, Lindberg acenou com uma possível conciliação.

– Pretendo ter boa relação institucional com a governadora Rosinha Matheus. Não consigo imaginá-la boicotando Nova Iguaçu. Mas não aceitarei retaliações – antecipou.

O petista espera “serenar os ânimos” em Nova Iguaçu, mas afirmou que é preciso “moralizar” a administração municipal. Quer promover uma intervenção no Hospital da Posse e estuda uma auditoria nas contas da prefeitura.

– É o mínimo que preciso fazer. Temos que ver como estão sendo aplicados os recursos federais na saúde, por exemplo – ponderou.

Lindberg não quis antecipar seu secretariado, mas afirmou que pode recrutar nomes “consagrados” do partido em áreas problemáticas do município, como saneamento.

Desde cedo, o favoritismo do petista era notado nas ruas. Formando uma “onda laranja” (coincidentemente, também a cor da Prefeitura do Rio), Lindberg tinha ampla vantagem no número de cabos eleitorais. Apesar disso, seu adversário, Mario Marques, dizia acreditar na vitória e estranhava a diferença de 20 pontos percentuais apontada pelo Ibope.

– A pesquisa saiu em cima da hora para influir nos indecisos. É lamentável, pois não consigo atinar como a diferença que era tão pequena há uma semana tenha aumentado tanto – criticou, diante do Colégio Estadual Rangel Pestana, onde votou às 11h30.

Pouco antes, Lindberg, confiante, votava na Igreja de São Jorge, na região central da cidade, acompanhado de aliados como a ex-governadora Benedita da Silva (PT-RJ), o deputado federal Rodrigo Maia (PFL-RJ) – filho do prefeito carioca, Cesar Maia – e do vice-líder do governo Câmara Sigmaringa Seixas (PT-DF).

À noite, na sede da produtora de Lindberg, Benedita ressaltou a importância da conquista para o partido no Estado.

– A vitória em Nova Iguaçu é muito importante para fortalecer a militância do PT em 2006. Garotinho deve fazer uma reflexão e reconhecer a derrota de seu estilo político.

O fato mais inusitado de um dia tranqüilo aconteceu no início da tarde. Um dos carros que acompanhava Lindberg foi fechado pela polícia em Austin, sob a acusação de estar fazendo carreata.

– Eles pararam meio arrogantes e eu disse para verem os carros que estavam atrás. Só havia jornalistas e os seguranças, por isso liberaram logo em seguida – afirmou o petista, que, após o incidente, trocou o jipe onde estava por um automóvel fechado.

As acusações que movimentaram a eleição ainda podem atrapalhar o petista, acredita Mario Marques, que vê a possibilidade de Lindberg não ser empossado em janeiro.

– Ele ainda tem que responder pela fraude no domicílio eleitoral. O processo está em Brasília e foi adiado por quatro semanas seguidas, com a pressão do senhor José Dirceu (chefe da Casa Civil), que está coagindo os ministros do TSE. A coisa está indefinida – afirmou.

Para Marques, tradicional político iguaçuano e afilhado político do cacique local Nelson Bornier, o PT investiu numa campanha caríssima para tentar tomar a cidade:

– Lamento tenha rolado tanto dinheiro aqui. É o rolo compressor do governo – protestou.

[ 01/11/2004 - 01:49 ]


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