Serra vence e PSDB sai fortalecido

Otto Filgueiras

SÃO PAULO - A São Paulo de todos os povos, de todas as crenças e de todas as raças acordou com sol forte ontem, temperatura de 31 graus. E escolheu José Serra o 51º prefeito da história da cidade. O eleitorado paulistano, de 7,7 milhões de mulheres e homens, jovens e velhos, deu preferência às bandeiras azuis e amarelas. Antes da meia-noite e meia, quando havia 99,96% das urnas apuradas, José Serra tinha sido eleito com 54,87% dos votos válidos, contra 45, 13% da atual prefeita, Marta Suplicy, candidata do PT. O que torna Serra o primeiro prefeito tucano do PSDB da cidade de São Paulo.

Com a vitória de Serra, os tucanos comandarão o segundo e terceiro maiores orçamentos da União, o que faz o PSDB sair das urnas mais forte que o PT. O presidente do PT, José Genoino, prometeu para hoje análise das derrotas e vitórias no balanço das eleições. Só com Serra em São Paulo e a despedida do PT dos gabinetes municipais de Porto Alegre e Goiânia, os eleitores mostraram que pendem entre as legendas, mas deram ao PSDB o controle de dois dos três maiores orçamentos da União.

Curiosamente, a eleição de José Serra para a Prefeitura de São Paulo, metrópole mais populosa do Brasil, com maior colégio eleitoral brasileiro e onde está localizado o maior centro financeiro do país, pode ter sido também uma derrota política importante do modelo econômico neoliberal adotado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que deu continuidade à política e monetarista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, da qual Serra fazia parte, mas criticava.

– Quero agradecer ao povo paulistano por ter votado em mim e comparecido em bom número, apesar do feriadão. Preferiu não trocar quatro dias por quatro anos de prefeitura. O modelo neoliberal do governo Lula foi derrotado na eleição de São Paulo – afirmou Serra.

É que durante os oito anos do PSDB e de Fernando Henrique Cardoso no governo federal, Serra divergia do tucano Pedro Malan, então ministro da Fazenda, que adotou política econômica ortodoxa e de juros elevados. Além disso, para Serra, sua vitória ontem tem outro significado especial: Ocorreu 41 anos depois de ter sido eleito presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), de onde foi, um ano depois, destituído do cargo pelo golpe militar de 1964.

– Ainda no dia 31 de março de 1964, a UNE, sob o comando de Serra, decretou greve geral contra o golpe, fizemos passeatas de protestos com estudantes no Rio e em Recife, houve muita repressão policial, morte de estudantes, e no dia seguinte a sede da UNE foi incendiada pelas forças paramilitares fascistas partidárias dos militares golpistas de 1964 – relatou o jornalista Duarte Pacheco Pereira, que foi vice-presidente da UNE na gestão de Serra. Além de presidente da UNE, José Serra também foi um dos fundadores da organização de esquerda Ação Popular (AP) e, depois de 1964, se exilou no Chile, onde continuou sua militância na AP até o golpe que derrubou o presidente Salvador Allende, em 1973. Só voltou ao Brasil em 1978, pouco antes da Anistia.

Ontem, José Serra saiu de casa para votar num Brasil que se democratizou e derrotou a ditadura. O tucano demonstrava convicção de que seria o escolhido pelos eleitores, embora sem fazer qualquer declaração de “já ganhou”. Serra estava vestido com calça esporte e camisa azul de mangas longas, votou às 9h50 no Colégio Santa Cruz, no bairro de Pinheiros, Zona Oeste da cidade, e chegou acompanhado da mulher, a chilena Mônica Allende – que conheceu e com quem casou quando esteve exilado no Chile –, do governador Geraldo Alckmin, do deputado Walter Feldman e de coordenadores de sua campanha, deputados, vereadores eleitos e secretários estaduais.

Pouco depois, a comitiva foi para o Jockey Club, onde o governador Geraldo Alckmin votou e disse à imprensa que esperava pela vitória do tucano. – Quem ganha é a população. Serra será prefeito para melhorar a vida do povo e da cidade.

[ 01/11/2004 - 01:40 ]


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