Luizianne dá 'lição' ao PT

Adriana Thomasi

FORTALEZA - A professora e jornalista Luizianne Lins, do PT, 35 anos, assume a Prefeitura de Fortaleza em 1º de janeiro de 2005. Eleita ontem com 56,21% dos votos válidos, 12,42 pontos percentuais à frente do candidato Moroni Torgan, do PFL, com 43.79%, ela chega ao cargo disposta a reconstruir a cidade. Anunciou pela manhã, antes de ter o otimismo confirmado nas urnas, a intenção de iniciar, no primeiro dia de governo, uma operação que chamou de Fortaleza Bela.

– Vamos marcar 60 dias para um grande mutirão, uma força-tarefa encarregada de tapar buraco, limpar a cidade, envolvendo toda a sociedade: uma preparação para as chuvas – disse, adiantando ainda que promoverá a retirada de famílias que moram nas cerca de 92 áreas de risco de Fortaleza.

A mobilização em torno da candidatura de Luizianne – que tem como vice-prefeito o sindicalista Carlos Veneranda – começou com a coligação PT e PSB, Fortaleza Amada, e agregou outros sete partidos no segundo turno.

Luizianne disse que sua vitória, para o PT, significa “entender que o processo histórico está sempre em mutação”. Não tem carta marcada ou estrutura financeira que garanta eleição, decretou:

– O que garante (a eleição) é o compromisso e a aliança com o povo. Esta eleição foi importante para o PT entender que democracia não é um fim, mas um meio – afirmou.

No primeiro turno, o governo federal preferiu apoiar o candidato do PCdoB, Inácio Arruda, derrotado pelos adversários Luizianne e Moroni Torgan, do PFL. O deputado federal João Alfredo (PT-CE) declarou que o partido adotou uma estratégia que, no primeiro turno, buscou referência nos valores e fronteiras históricas do partido, na defesa da classe trabalhadora e nas experiências positivas de administração e deixou de lado o debate nacional, “que não interessa em uma eleição municipal”.

– Os que fizeram isso se arrebentaram – afirmou, citando os candidatos à prefeitura de Fortaleza Inácio Arruda e Antonio Cambraia, do PSDB e ponderando: “Também não fomos o antipetismo ou antilulismo. Sabíamos das dificuldades”.

No segundo turno, o PT teve “a capacidade de ampliar sem se descaracterizar”, definiu João Alfredo ao lembrar que a petista manteve a coerência. Luizianne tinha um bom programa de TV e rádio, bem-avaliado, muito positivo e alegre e uma militância forte.

Líder do PT na Assembléia Legislativa, o deputado José Nobre Guimarães chegou a dizer que o partido seria vitorioso qualquer que fosse o resultado da eleição em Fortaleza. Fez questão de atribuir ao apoio de figuras do governo federal o sucesso da candidata petista:

– A audiência com o presidente, depois de um pouco isolada, foi fundamental. Acho que simbolicamente teve um peso importante – disse, creditando, contudo, a Luizianne o mérito de chegar ao segundo turno.

Luizianne confirmou que a transição envolverá uma semana de trabalho seguida de uma folga e voltou a afirmar que não existe acordo de compromisso com qualquer partido.

– O único sentimento é que vamos juntos reconstruir essa cidade. Não trabalhamos com acordo, negociata ou troca de cargo. Vamos começar a administração pela campanha e mudar a cultura política da cidade. Isto é, pensando em acordos políticos para a cidade e não individuais – prometeu.

Luizianne adiantou ainda que promoverá uma discussão, já articulada, com prefeitos do partido no Nordeste. As propostas serão encaminhadas ao governo federal. A prefeita eleita votou na Assembléia Legislativa de manhã, em meio ao cerco de eleitores e militantes do partido, a maioria jovem. À tarde, Luizianne circulou entre as seções. Acompanhou a apuração na sede do comitê.

Luizianne foi a primeira vereadora do PT em Fortaleza, eleita em 1996 e reeleita em 2000, e a mulher mais votada do Ceará para deputada estadual, em 2002, quando se elegeu com mais de 60 mil votos. Nascida em Fortaleza em 1968 – completará 36 anos em 18 de novembro –, filiou-se ao PT com 21 anos.



[ 01/11/2004 - 01:28 ]


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