Caciques perdem o reinado

Hugo Marques

BRASÍLIA - O povo deu adeus a quase todos os caciques da política nacional no cômputo final das eleições para as prefeituras das capitais. Além do enfraquecimento político, o resultado das eleições mostra que tradicionais nomes da política brasileira não têm sucessores à altura nos Estados. Muitos desses políticos tiveram a imagem desgastada por denúncias de envolvimento em irregularidades.

Uma das grandes novidades deste segundo turno foi a derrota de Amazonino Mendes (PFL) para a prefeitura de Manaus. Ele responde a ações penais no Superior Tribunal de Justiça devido a denúncias de corrupção na compra de geradores e é acusado de ter conta ilegal no paraíso fiscal de Luxemburgo. Amazonino recebeu apoio de outro cacique no Estado, o senador Gilberto Mestrinho (PMDB). Não adiantou.

Na Bahia, o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL) jogou a toalha no ringue antes do segundo turno e anunciou a derrota antecipada de seu candidato, César Borges. Além de uma renúncia por acusação de fraude no painel do Senado, ACM foi apontado como um dos envolvidos no episódio dos grampos de telefones na Bahia. O deputado Antônio Carlos Magalhães Neto aparece na linha sucessória do espólio político do “carlismo”, mas não tem o mesmo brilho do outro filho de ACM, o ex-deputado Luiz Eduardo Magalhães, precocemente morto.

Em São Luiz do Maranhão, o eleitorado despachou, ainda no primeiro turno, o candidato Ricardo Murad, apoiado pela dinastia do ex-presidente José Sarney (PMDB-AP). O pedetista Tadeu Palácio, que já ocupava a prefeitura, foi reeleito em 3 de outubro. O clã maranhense começou a sofrer desgaste depois que a senadora Roseana Sarney não conseguiu explicar a origem de R$ 1,3 milhão encontrado no cofre de sua empresa, a Lunus, e renunciou à disputa pela Presidência da República em 2002.

Os eleitores de São Paulo parecem ter sepultado de vez as pretensões políticas também de Paulo Maluf (PP). Depois de amargar uma derrota no primeiro turno, Maluf não conseguiu transferir votos para a petista Marta Suplicy (PT). Sem a imunidade política conferida por cargo público no Brasil, Maluf poderá ter mais problemas para explicar à Polícia Federal e à Justiça a origem das centenas de milhões de dólares movimentados nas Ilhas Jersey. O filho do ex-prefeito, Flávio Maluf, que não teria pretensões políticas, foi indiciado pela Polícia Federal, juntamente com o pai, por lavagem de dinheiro, evasão de divisas, formação de quadrilha, peculato e sonegação.

Em Fortaleza, o cacique derrotado foi o ex-governador Tasso Jereissati (PSDB). Lá, brilhou a estrela da petista Luizianne Lins, mesmo com o apoio tardio – só no segundo turno – do PT nacional. Ponto negativo para o presidente do partido, José Genoino, que chegou a chamar Luizianne de “aventureira” e “sectária”.

No Rio de Janeiro, a imagem do candidato a cacique nacional Anthony Garotinho sai bastante arranhada destas eleições. O ex-governador do Estado apoiou Geraldo Pudim (PMDB) em Campos, envolvido com denúncia de compra de votos. Além disso, o PT surge com vitórias expressivas em Nova Iguaçu, com Lindberg Farias, e em Niterói, com Godofredo Pinto, desbancando os candidatos apoiados pelo grupo político de Garotinho.

No Piauí, o grande derrotado foi o ex-governador Francisco de Assis de Moraes Souza, o senador “Mão Santa” (PMDB). A esposa dele, Adalgisa, amargou uma derrota para Sílvio Mendes, do PSDB. Para o professor de ciência política da Universidade de Brasília, David Fleischer, a derrota dos caciques é “uma boa notícia para o país”.

– Esse tipo de político se sustenta pelo domínio dos meios de comunicação e pelas ligações com o poder econômico. Os resultados do pleito municipal mostram que o eleitorado está amadurecendo e o processo eleitoral se aperfeiçoa – avalia Fleischer.

Na avaliação do professor, os caciques estão com cada vez mais dificuldades, porque o eleitor das capitais estaria se desvinculando dos métodos tradicionais de política, como a injeção de dinheiro nas eleições e da “tutela” dos políticos. Ou seja, o clientelismo e a prestação de serviços.

Para David Fischer, essa evolução política nas capitais está ligada também ao melhor nível de escolaridade. O especialista também acha que o envolvimento com irregularidades abala cada vez mais as candidaturas.

– As denúncias desgastam a imagem dos caciques. O caso do Antônio Carlos Magalhães com o painel eletrônico reduziu seu prestígio no Congresso e dentro do PFL – diz Fleischer.

Houve, no entanto, alguns caciques que se saíram bem nessas eleições. Em Goiânia (GO), Íris Rezende ficou fortalecido com um PMDB histórico que tem militância. Além disso, o prefeito que disputava a reeleição, Pedro Wilson (PT), fez uma administração considerada medíocre por muitos goianos. Lá, ele é chamado de “Pedro banana”. Em Curitiba (PR), a eleição fortalece o grupo do ex-governador Jaime Lerner (PSB), que apoiou o candidato Beto Richa (PSDB), eleito com 54,78% dos votos, contra 45,22% do petista Ângelo Vanhoni.

[ 01/11/2004 - 01:24 ]


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