Jornal do Brasil

Sábado, 18 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Rio Cello promove interação entre países e instrumentos

Criador do festival, o violoncelista inglês David Chew destaca a parceria educativa

Jornal do Brasil JOÃO PEQUENO, joao.pequeno@jb.com.br

Com dezenas de apresentações, em sua maioria gratuitas, e parceria com projetos educacionais musicais, o Rio International Cello Encounter inaugura hoje a programação carioca de sua 24ª edição, no Museu do Amanhã, que prossegue até o dia 20, reunindo músicos dos mais diversos países e instrumentos – não apenas do violoncelo que lhe dá nome. 

Só na abertura, com peças de Johann Sebastian Bach e Astor Piazolla, o festival começa com o saxofone e o piano do argentino Blas Rivera, o bandoneon de Otto Hanriot e o violino de David Johnson, além do violoncelo do inglês David Chew, idealizador e produtor do Rio Cello, desde 1994. 

Com a dança dos bailarinos Cecília Gonzales e Luciano Bastos, eles também tocam música do próprio Blas Rivera, às 11h, no auditório do Museu do Amanhã, em um número já apresentado durante a semana em Volta Redonda, espécie de subsede do festival. 

Kely Pinheiro toca com violoncelista Marnix Mohring  e tenta arrecadar dinheiro para estudar em Berklee

“Hoje, toquei com bom Blas Rivera Quarteto para 700 alunos de uma escola pública em Volta Redonda”, contou, na quinta-feira, ao JB, um entusiasmado David Chew. Ele se refere ao projeto Volta Redonda Cidade da Música, capitaneado pelos maestros Nicolau Martins e Sarah Higino, “que já pôs mais de 4,5 mil crianças tocando”, segundo ele. “É o  maior projeto educativo musical do mundo e tem tudo para ser mais famoso que El Sistema, da Venezuela”, afirma Chew, que fundou o Rio Cello com o propósito social em sua gênese, meses após a chacina da Candelária. 

Ele, que vivia desde 1981 no Rio de Janeiro, onde tocava o primeiro cello da Orquestra Sinfônica Brasileira, foi chamado por amigos para ajudar crianças que haviam escapado da chacina, de oito mortos, e eram atendidos na Fundação São Martinho, na Lapa. “Fiquei um dia tentando tocar para uma menina, sobrevivente, e ela não parava de chorar, traumatizada. Pensei, ‘eu não posso fazer nada sozinho’ e resolvi chamar amigos para ajudarem”. 

Na ocasião, Chew contou com a ajuda do então gerente do Copacabana Palace, o também inglês Philip Carruthers, que abrigou as primeiras edições e ajudou a divulgar o festival, apresentando o violoncelista inclusive ao então primeiro-ministro britânico John Major. “Os estrangeiros vêm tocar pagando passagem do bolso deles, porque sabem que o principal é a ajuda às crianças”. 

Uma dessas crianças a que David Chew se refere cresceu, cronológica e artisticamente, até o ponto de se tornar uma das grandes atrações desta edição do Rio Cello. Nascida na favela da Grota, em Niterói, Kely Pinheiro, 20, ex-aluna de Chew, tocará músicas do folclore escandinavo e do maestro brasileiro Guerra-Peixe com o renomado violoncelista alemão Marnix Mohring e uma camerata, em duas das principais datas de apresentação, às 17h do próximo sábado, na Cidade das Artes. 

No próximo domingo, às 16h, eles repetem a dose na Igreja da Candelária, no Centro – uma das sedes fixas do Rio Cello, especialmente em referência ao que motivou o início da criação do festival. 

“Kely foi minha aluna aos 11 anos, e já tocou comigo o ‘Cisne negro’ [do ‘Lago dos cisnes’, de Tchaikovsky]. Quando eu a escutei tocando, pensei: “Kely... essa menina vai longe. E realmente foi, tanto que ganhou bolsa para estudar em Berklee, então este realmente vai ser um grande encontro”, aposta David Chew. 

Mesmo com a bolsa, Kely faz campanha de arrecadação para pagar sua ida a Boston (EUA), onde fica a Escola de Música de Berklee – uma das mais concorridas do mundo. 

De sua terra natal, Chew  traz a Rice Cello Ensemble, da London Music Club Piano Quartet, para a programação desta edição. O Quarteto Ad Libitum, da Colômbia, é outro destaque, assim como a homenagem ao economista e músico venezuelano José Antonio Abreu, criador, em 1975, do El Sistema, modelo didático musical que formou gerações de músicos no país vizinho, entre eles o consagrado maestro Gustavo Dudamel. 

Com peças de Vivaldi, Villa-Lobos, Piazolla e uma composição inédita do inglês David Ashbridge, a homenagem a Abreu – morto em março deste ano – será hoje, às 16h, na Candelária. Ela terá a Orquestra de Violoncelos e Contrabaixos de Volta Redonda, sob a regência de Sarah Higino, o Blas Rivera Quarteto, os violinos de Haroutune Bedelian e David Johnson, o bandoneon de Otto Hanriot, os cellos de David Chew e Marnix Mohring, além da voz da soprano Angelica de la Riva. 

Também hoje, às 12h30, o átrio do Museu do Amanhã recebe o projeto Frequência Modulada, com o violoncelista Yaniel Matos, o DJ Muralha e os bailarinos Danilo D’Alma e Pâmela Sobral, em apresentações de dança contemporânea e street dance, com cello sobre elementos eletrônicos, e o Cello Dance, com a bailarina Sheila Fingier e Dilo Paulo, do Kuduro de Angola. 

Além do Rio e de Volta Redonda, a 24ª edição do Rio Cello tem ainda apresentações em Teresópolis, Cabo Frio e até em Florianópolis. A programação completa está no site http://riocello.com/site_2018/programacao.



Tags: arte, cultura, festival, jb, música

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