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Cultura

A paixão insubmissa: revolucionário e gay, Herbert Daniel tem trajetória contada em biografia

Jornal do Brasil ANDRÉ DUCHIADE (andre.duchiade@jb.com.br)

Criança introspectiva nas Minas Gerais do meio do século passado. Estudante culto e brilhante. Filho, neto e irmão de policiais. Revolucionário comprometido que pegou em armas e sequestrou dois embaixadores. Libertário comportamental desconfortável com o próprio corpo. Escritor. Democrata. Pioneiro na luta contra a Aids. Homossexual. 

Estes atributos, dentre tantos outros, constituem o percurso do personagem histórico de “Revolucionário e gay – A vida extraordinária de Herbert Daniel”, que a Civilização Brasileira acaba de publicar (R$ 70, 370 pp.). Escrita pelo premiado brasilianista James N. Green, do Departamento de História da Universidade de Brown, a biografia, ao contar a história de um militante tenaz, ajuda também a entender a esquerda do Brasil na segunda metade do século XX, em suas aspirações e incongruências. 

Herbert Daniel em Paris

A obra é resultado de mais de dez anos de trabalho e de cerca de uma centena de entrevistas, acompanhadas por análises de livros e documentos do próprio Daniel, de pessoas próximas a ele e de uma contextualização do período. Do conjunto, emerge uma figura de obstinação febril pela luta política, que de tudo fez para se opor à ditadura militar e, mais tarde, se metamorfoseou e abraçou bandeiras que continuam urgentes, como as causas ambientalista e LGBT. 

“O caso dele é único. Não conheço outra pessoa que, simultaneamente, cumpra o papel de revolucionário socialista que pegou em armas e de pioneiro da luta pelos direitos sexuais e de gênero”, diz o autor da biografia. “Ele faz parte de uma geração que responde à ditadura e não tem opção senão combatê-la. Neste processo, com muito sofrimento, ele percebe que a revolução não vai acontecer e que não pode negar a própria sexualidade, o que o leva a se engajar em outras questões”.  

O interesse do historiador americano em Herbert — nascido Herbert Eustáquio de Carvalho em 1946, até incorporar um dos muitos codinomes da clandestinidade à identidade — provém primeiro de uma identificação com o retratado. Homossexual e militante contra a Guerra do Vietnã, Green veio pela primeira vez ao Brasil em 1976, movido pela crença de que a próxima intervenção dos EUA seria na América Latina. Estabelecendo-se em São Paulo, permaneceu no país por seis anos e envolveu-se com grupos de viés trotskista. Na militância, frequentemente encontrou a homofobia. 

Com o companheiro Cláudio Mesquita

“Daniel vivia as mesmas contradições que eu: um homem de esquerda e gay. Não havia muito espaço para a homossexualidade dentro da esquerda, que adotara uma série de noções de gênero muito rígidas, de fundo moral católico e cristão. Entendia-se que a homossexualidade era uma decadência burguesa que acabaria com a revolução socialista. Assim como Herbert, eu pensava que não existia essa contradição”.     

Abstinência sexual 

No caso de seu objeto de estudo, esta compreensão só chegou ao custo de um imenso sacrifício pessoal. Depois de alguns encontros fugazes na juventude, Herbert Daniel ficou de 1968 a 1972 vivendo como celibatário. O período coincide com sua época de maior atividade em organizações revolucionárias, com as quais se envolveu ainda na faculdade federal de Medicina em Belo Horizonte, que não chegou a concluir.

“Ele percebeu que precisava optar pela revolução ou pela vida sexual e se absteve de relações nessa época”, diz Green. A abstinência sexual e o engajamento em grupos como a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), de Carlos Lamarca, e a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) são contadas em “Passagem para o próximo sonho” (1982), seu primeiro livro. 

Revolucionário e gay

Até logo antes do exílio em Portugal em 1974, os confidentes de Daniel eram raros e, à exceção do amigo Ângelo Pezzuti, sempre mulheres. Dentre estas, a mais famosa é a ex-presidente Dilma Rousseff , a quem Herbert conheceu em 1967 e que assina a orelha do livro. A líder política foi a última entrevistada da pesquisa, em conversa que aconteceu no Palácio Alvorada em junho de 2016, quando já estava afastada do mandato e aguardava a votação no Senado.

O brasilianista e Dilma se encontraram no evento “Historiadores internacionais contra o golpe”, realizado naquele mesmo mês em Brasília e co-organizado por Green. Na ocasião, ele se apresentou e disse que escrevia o livro sobre o antigo amigo da presidente. Nasceu ali uma amizade, que, durante visita dela aos EUA em 2017, motivou absurdos boatos de que os dois teriam um caso amoroso. “É claro que isso é machismo. Sou gay assumido há 45 anos. O que insinuam é que ela precisa de um homem”, opina Green.

Anos obscuros na clandestinidade 

No final da década de 1960, pouco depois de afastarse de Dilma, Herbert Daniel passaria os anos mais obscuros de clandestinidade. O historiador conta que se esforçou para saber onde o personagem morava em 1969 e 1970, sem sucesso. Neste período, o então já militante em tempo integral ocupava uma posição de liderança dentro da VPR e cometeu suas duas ações mais extraordinárias: o sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, em junho, e do embaixador suíço Giovanni Bucher, em dezembro. 

Herbert Daniel com a mãe e bebê

Capitaneada por Daniel, Lamarca, Alfredo Sirkis, Tereza Ângelo e Gerson Th eodoro de Oliveira, com apoio logístico de outros militantes, a última captura, que envolveu a morte de um agente de segurança, é de ousadia espantadora, realizada em momento de forte apoio popular ao governo militar e quando a luta armada sofria sérios reveses. Não à toa, o regime ditatorial endureceu nas negociações para libertar a lista exigida de 70 prisioneiros. O cativeiro de Bucher durou 40 dias e sua execução foi avaliada. Mais tarde, contudo, o diplomata recusou-se a reconhecer os rostos dos captores à polícia. 

A brutal reação do regime fez de Daniel um dos únicos três membros da VPR, em cerca de 40, a escapar da prisão ou da morte em 1971. Neste mesmo ano, escondido em um apartamento em Niterói, enquanto antigos companheiros eram torturados, ele conheceu Cláudio Mesquita, o grande amor de sua vida. Durante três anos, tiveram uma relação puramente platônica, conversando sobre todos os temas, até dormirem juntos pela primeira vez em 1975, já no exílio.

Daniel, até então, tinha muitos problemas com o próprio corpo e imagem. De baixa estatura, incomodado pelo peso, a vida toda se achara feio. Artista gráfico bonito, assumido e impudico, Cláudio foi o estímulo para o processo de libertação emocional por parte de Daniel, assim como para uma revisão de antigas posições. Segundo Green, nessa mesma época, o militante entendeu que a luta armada fracassara. 

A ida para o exílio em 1974 (depois um período escondido em Barbacena, onde, em um dos achados mais surpreendentes do livro, chegaram a abrir uma casa noturna chamada “Dinossauro”) significou o contato com ideias feministas, o que o leva a ponderar sobre a questão de gênero. 

“Isso o faz entender como aconteciam discriminações dentro da própria esquerda”, diz Green. Primeiro em Portugal, e, em seguida, em Paris, vão levar uma vida festiva e agitada, com festas e experimentações. Em Paris, Daniel chegará a trabalhar como o faz-tudo de uma sauna. Ao mesmo tempo, uma intensa inquietação intelectual permanece. 

O autor James N. Green

Uma das principais críticas de Daniel é ao que ele define como a criação de um “gueto” para a homossexualidade, ao invés de sua dispersão na sociedade. “Ele não gostava do gueto porque representava aquilo a que não tinha acesso”, diz o historiador. Green enfatiza que este posicionamento seria revisto mais tarde. 

Tanto ao concorrer a deputado, como ao atuar como militante contra a Aids, ele criará campanhas de mobilização baseadas na identidade homossexual. “Quando ele percebe a necessidade de mobilizar as pessoas, entende a importância das políticas identitárias como ferramenta estratégica”. 

Nesse período, Daniel e Cláudio já estavam de volta ao Brasil. Daniel se engajou na inovadora campanha a deputado federal de Liszt Vieira pelo PT, em 1982, que introduziu temas como ambientalismo e gênero no debate público nacional. Em 1985, fundou o PV ao lado de Sirkis e Gabeira, achando que essas questões não tinham espaço no Partido dos Trabalhadores. Em 1986, se candidatou, mas não se elegeu. 

Os últimos anos serão dedicados à conscientização a respeito da Aids, doença que o vitimou em 1992. Dois anos depois, Cláudio, deprimido, foi levado pela mesma doença. O historiador acredita que, depois da perda do companheiro, ele se deixou infectar propositalmente. “Naquela época, eles já não dormiam juntos. Cláudio se infectou depois, matando-se indiretamente depois da morte do Daniel, por tristeza”. 

No final do livro, Green dedica algumas páginas à mãe de Daniel, Geny Brunelli de Carvalho. Foi ela quem o estimulou a escrever a obra, acreditando que o legado do filho estava esquecido. O historiador concorda com a avaliação e espera que a obra reverta esse cenário. 

“Quem se lembra dele são só seus companheiros, ativistas de Aids e uma ou outra pessoa que lê ‘Passagem para o próximo sonho’. No Brasil, há poucos gays ou lésbicas que são referências históricas. Mário de Andrade é enrustido, João do Rio também. As pessoas não conseguem conviver com as duas realidades. Daniel é uma pessoa que lutava pela justiça social e, eventualmente, pela democracia. Um dos meus objetivos é recuperá-lo, para que as pessoas possam imaginar o que já houve e o que ainda pode acontecer”.



Tags: carreira, cultura, democrata, escritor, história, jb, literatura

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