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Cultura

As veias poéticas de Galeano: documentário reúne trechos de entrevista e leituras de textos

Jornal do Brasil Mônica Loureiro*, monica.loureiro@jb.com.br

FORTALEZA - Quando surgiu a ideia de fazer “Sangue latino”, do Canal Brasil, o nome de Eduardo Galeano veio junto. Afinal, a obra do escritor e jornalista uruguaio tinha tudo a ver com o perfil do programa de entrevistas. “Em outubro de 2009, entrevistamos Galeano em sua casa, no Uruguai. De quase uma hora de material, só entraram 15 minutos no programa, que estreou em 2010”, conta Felipe Nepomuceno. O diretor apresentou ontem, no Cine Ceará - Festival Ibero-americano de Cinema, seu documentário “Eduardo Galeano Vagamundo”, que traz depoimentos inéditos do escritor resgatados dessa entrevista e várias pessoas lendo trechos de seus livros.

O documentário foge do formato tradicional e opta por um olhar totalmente poético e de reverência a Galeano. As imagens em preto e branco têm um ritmo lento, com o objetivo de envolver o espectador naquele mundo de palavras e ideais tão esquecidos nos dias de hoje. Por isso, não se ouve depoimentos que remetam a, por exemplo, uma de suas obras mais conhecidas, a impactante “As veias abertas da América Latina”. 

Galeano em cena do documentário rodado em quatro países e exibido na capital cearense

“Apesar de termos tido muitas conversas - Galeano era amigo de meus pais - eu nunca falei sobre política com ele, só de futebol e coisas nossas do dia a dia. Acho que suas posições, para o bem e para o mal,  atraíram e afastaram pessoas. Sua literatura é tão maravilhosa que pensei no filme como uma forma de chamar mais espectadores e leitores à sua essência”, justifica Felipe.

“Me formei nos cafés de Montevidéu escutando histórias. O mundo é feito de histórias, são elas que permitem aproximar o que está distante, de unir as pessoas, de transformar o passado em presente”, diz Galeano a certa altura do filme. Seus depoimentos são intercalados por imagens de natureza, de Montevidéu e de sua casa, para onde o diretor retornou um ano depois da morte de Galeano (abril de 2015) para fazer imagens. “A garotinha que aparece lendo é Lila, uma de suas netas”, diz. Helena, a viúva, preferiu não aparecer, ainda muito comovida com a perda do companheiro de mais de 30 anos. Ela lê um trecho como se fosse uma carta, dedicada a “Dudu”. 

Ricardo Darín é uma das personalidades que leem trechos de textos de Galeano

Rodado em quatro países, o longa teve oito ou nove fotógrafos diferentes, pois era inviável viajar com uma equipe grande. “Tive que pensar em como dar uma unidade e um dos recursos que optei foi o de não usar refletores, fosse dia ou noite”, conta Felipe. A leitura do ator João Miguel, por exemplo, foi uma filmagem noturna diante de uma fogueira, onde seu rosto praticamente não aparece. “A fogueira é um símbolo muito presente na literatura de Galeano que, inclusive, escreveu uma ‘Trilogia do fogo’”, ressalta. 

Os atores Paulo José e Ricardo Darín e o artista plástico pernanbucano Francisco Brennand são outras personalidades que fazem leituras no documentário. “Brennand não tinha lido a fundo Galeano, mas é um daqueles encontros que o cinema permite. O trecho que ele lê é sobre uma situação em que um homem é transportado para dentro de uma tela atraído por uma mulher. Em sua sala tem uma tela pintada por ele que remete à história e que foi feita em 2015, ano em que Galeano morreu”, comenta a coincidência. 

Florencia, filha de Galeano, ao lado do diretor Felipe Nepomuceno na apresentação do longa no Cineteatro São Luiz

Florencia Hughes, uma das filhas de Galeano, foi convidada pelo festival para assistir ao documentário. Ela conta que tinha visto apenas algumas cenas enviadas anteriormente por Felipe: “Em dezembro de 2016 estavámos juntos em São Paulo, onde meu irmão mora - a outra irmã mora em Paris e Florencia,em Montevidéu - e assistimos a alguns trechos”.

Formada em arquitetura, ela conta que todos sempre tiveram muita afinidade com os ideais do pai, afirmando que ele era categórico. “Com ele, era branco ou preto, porque achava que, se não se posicionasse assim, poderia perder força. Eu já acho que tem o cinza”, pondera. Mãe de três filhos, ela presencia em casa o que percebe em relação à juventude latino-americana: a descrença total na política. “Meus filhos estudam, se interessam por muitos assuntos, mas vejo que não se ligam a atividades políticas. Acho que é uma geração que até pode acreditar na utopia pensada por meu pai, mas que não se sente representada nas questões políticas, não encontrando canais para se comunicar. Os governos de esquerda latino-americanos criaram mais expectativas que realidade”, opina. Florencia lembra de um episódio marcante, quando noticiou-se que Galeano havia negado o que escreveu no livro “As veias abertas da América Latina”: “Publicaram coisas totalmente fora do contexto. Ele não disse que não acreditava mais no que tinha escrito e sim que talvez escrevesse de outra forma. Afinal, o livro é dos anos 1970 e muita coisa mudou nas realidades políticas e sociais de lá para cá”, afirma.

Florencia diz que o que havia de inédito após a morte do pai foi publicado no livro “O caçador de histórias” e que Helena, sua viúva, pensa em fazer uma instituição ou centro de referência sobre ele em Montevidéu.

*A repórter viajou a convite do festival



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