Jornal do Brasil

Domingo, 19 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Literatura: Pedagogia de um crime

‘Corpo, cabeça’, de Chico Teixeira, segue a trilha dos romances policiais

Jornal do Brasil Marcio Salgado*, marcio.salgado@jb.com.br

No começo do conto “Os crimes da Rua Morgue”, Edgar Allan Poe, mestre que inspirou uma legião de escritores da literatura de suspense, faz uma digressão sobre as faculdades mentais, em especial, as analíticas: “As condições mentais consideradas como analíticas são, em si, pouco suscetíveis de análise. Apreciamo-las somente em seus efeitos. Delas, sabemos que são sempre, entre outras coisas, para os que as possuem em alto grau, uma fonte dos mais vivos prazeres.” Poe não faz essa digressão ao acaso, pois é através da sua capacidade analítica que alguém – no caso, um detetive – pode reunir dados aparentemente desconexos, e chegar a uma conclusão, ou seja, à autoria de um crime.

O enredo de “Corpo, cabeça”, de Chico Teixeira, segue a trilha dos romances policiais. De início, narra a cena de um crime que acontece em um motel na Barra da Tijuca, onde a vítima, um advogado, é brutalmente assassinado. O inspetor Marcus e seu auxiliar se encarregam das investigações policiais. Eles vão desatar os nós de uma trama que envolve sexo, corrupção e poder. 

A presença de um travesti na cena do crime ajuda a embaralhar as cartas do jogo, e a compor o cenário de uma sociedade que se defende dos preconceitos com elevados graus de moralidade. Contudo, hoje mais do que nunca, as novas expressões da sexualidade estão na pauta das discussões. 

Com a personagem trans do romance um mundo diferente se descortina, causando receio aos que se envolvem com ela. Acontece com o policial Marcus, que vez por outra é pego numa grande confusão mental, embora ele esteja numa posição de poder com relação a ela, que além de encarnar o diferente, à primeira vista, é suspeita de um crime. 

A história é narrada em terceira pessoa, e com frequência dá a impressão de que o narrador invade indevidamente o mundo particular das personagens. O narrador onisciente conhece o íntimo dos seus personagens – razões, emoções, sentimentos – mas não toma parte na história.

A história é narrada em terceira pessoa, e com frequência dá a impressão de que o narrador invade indevidamente o mundo particular das personagens

Já a expansão do eixo narrativo para questões fora da trama é comum aos romances, embora não propriamente ao subgênero romance policial, que pede maior coesão. 

Em “Corpo, cabeça”, o autor usa esse artifício para discorrer sobre a sexualidade de Cherlaine, personagem trans do romance. Em outra cidade, em outra época, ela foi um menino. Experimentou a violência das pessoas a sua volta, mudou de nome e de sexo. Sentou praça no Rio de Janeiro, onde encontrou uma nova identidade, e a felicidade em meio aos abismos: “Cherlaine pensava, agia e vivia como mulher. Sentia a existência real dessa alma feminina dentro de si mesma.” 

Ela se torna então aquela personagem que, sorrateiramente, rouba a cena. No romance híbrido de Chico Teixeira, o assassino e o detetive deixam de figurar como estrelas da trama. Antes suspeita de um crime, ela passa a ser vítima de uma organização criminosa. A sua condição e o seu trabalho a colocam neste limiar onde residem todos os perigos.

O crime, segundo as intuições do inspetor Marcus “tinha alguma coisa de pedagógico, os perpetradores queriam dizer algo para alguém... Era necessário descobrir quem seria o auditório e qual a mensagem e, então, a resolução do mistério brilharia.” Ele passa de acusador a protetor daquela figura que lhe causava conflitos interiores. Acontece então um natural deslocamento na identificação com os personagens. Sendo a vítima do crime uma figura desprezível, e seus assassinos, ainda piores, restam o policial e a persona desconcertante de um travesti. Este inspira na sociedade uma gama de preconceitos, que são potencializados na narrativa em forma de julgamentos morais e conflitos interiores. 

Numa saída noturna, quando assistiam a um espetáculo, ela interroga o inspetor sobre as suas aventuras amorosas. Ao ouvir deste que jamais tinha feito algo do gênero com homens, ela responde: “Que bom que eu não sou homem!”

Em meio aos conflitos, como pessoa e como policial, Marcus se mantém honesto. Contudo, o autor quis mostrar também o outro lado na atuação do seu auxiliar: “Era como se Luís fosse o resumo da moralidade comum, com forte conteúdo de classe, moralista e vingativo”. 

O escritor carioca Chico Teixeira já publicou livros de contos e poesias, sendo “Corpo, cabeça” seu primeiro romance. Viveu parte da sua infância no antigo bairro operário da Penha Circular. Segundo a apresentação do livro, o autor entrevistou e conviveu com personagens da vida noturna da Lapa para a criação do seu romance. 

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Serviço 

CORPO, CABEÇA De Chico Teixeira Edupe/Autografia 333 pág.; R$ 65

*Jornalista e escritor



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