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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Exposição ilustra os 60 anos da Bossa Nova, que revolucionou a música e influenciou o mundo

Jornal do Brasil João Pequeno

Roberto Menescal fala com o repórter a caminho de uma gravação, às 11h de sexta-feira, depois de encerrar a véspera já à noite com uma produção – da cantora coreana Heena, radicada no Brasil – e da pré-produção “de um garoto de 18 anos, Heitor. Não lembro o sobrenome, porque conheci ele ontem, fui indicado para produzir e topei, canta muito bem”. O movimento intenso na carreira do violonista e produtor de 81 anos dá uma ideia do ritmo que a Bossa Nova e seus músicos seguem a imprimir depois de seis décadas na música brasileira e, mais do que isso, mundial, com influências e intercâmbios de que foram dos jazzistas americanos aos selos fonográficos  japoneses e DJs europeus.

Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, 1959

Parte desta história imensa como as harmonias de Tom Jobim (1927-1994) e elegante como o canto “quieto” de João Gilberto estará em exposição a partir de quarta-feira no espaço cultural do BNDES, em “Bossa Nova 60 anos – passo e compasso”.

Em uma “mirada conceitual”, como define o crítico musical Tárik de Souza, seu curador, a mostra aborda, de fotos da época a trilha sonora incidental ambiente, as inovações que a Bossa imprimiu na forma de cantar e no ritmo, além das temáticas na música brasileira.

Tárik explica que a exposição mantém “uma linha do tempo com os principais episódios da Bossa e uma visão segmentada de suas manifestações. Há letras expostas para evidenciar as mudanças poéticas introduzidas pelo movimento, gravações comparativas das mudanças de interpretação, além de melodia, harmonia e ritmo”. 

Tom Jobim, Sylvia Telles e Marcos Valle

Paralelamente, “há seções das bossas política, erudita, afrossambas, samba jazz, presença no exterior e um estuário denominado Bossa sempre Nova, onde se encontram bossanovistas clássicos e recentes”, detalhe o curador, que montou a exposição idealizada pela produtora cultural Valéria Machado Colela com projeto expográfico de Lidia Kosovski, design de Ruth Freihof e desenho de som de Framklim Garrido.

Como lembra Menescal, “o que tocava quando eu ligava o rádio era samba-canção, que eu adoro, mas as letras eram só de infelicidade. O cara podia ser feliz, mas inventava infelicidade e a cultuava”, brinca. “Então, a gente sentia a necessidade de uma música… para a nossa geração, com mais felicidade, mais sol”, arrisca o compositor de “O barquinho”, em parceria com Ronaldo Boscoli (1928-1994).

Johnny Alf (piano), Tião Netto (contrabaixo) e Rubens Ohana  (bateria)

É bem verdade que há um bocado de tristeza nos versos de Vinicius de Moraes (1913-1980) para a música de Tom Jobim mais citada como marco zero da Bossa Nova. “Chega de saudade” já começa com “Vai, minha tristeza”, mas manda ela para lá – pelo menos “se ela voltar, que coisa linda”.

Dez de julho de 1958, data da gravação de “Chega de saudade” por João Gilberto, foi oficializada como o Dia da Bossa Nova, mas, como todo estilo artístico, não houve uma criação pontual, única, mas uma formação, entre propósitos e acasos, que levaram à sua origem. Isso é muito natural.

Menescal aponta que “não houve uma, mas várias pedras fundamentais” da Bossa. Antes da gente, o Jonnhy Alf [1929-2010] já fazia uma música bem-humorada, com toques jazzísticos. Do exterior, o Chet Baker [1929-1988] cantava de um jeito manso, meio como o João Gilberto viria a fazer, tal como um cantor francês, Henri Salvador [1917-2008]”.

Carlos Lyra, Nara Leão e Vinicius de Moraes, no musical Pobre menina rica, no Au Bon Gourmet, 1963

A denominação, porém, ele viu pela primeira vez em uma canja que ele e colegas como Carlos Lyra e Luiz Carlos Vinhas fizeram com a já conhecida cantora Sylvinha Telles (1934-1966), na Hebraica, em Laranjeiras. “O cartaz vinha escrito ‘Sylvinha Telles e o grupo Bossa  Nova’. Eu pensava ‘que grupo é esse?’”, lembra Menescal. “Quando perguntei, éramos nós. Ela disse ‘eu não sabia que nome vocês tinham e disse à produção que faziam um som Bossa Nova’”, conta.

Outro marco tido como o definidor da Bossa é a batida no violão de João Gilberto, hoje, aos 87 anos, interditado judicialmente pela cantora Bebel, sua filha, em graves problemas financeiros e de saúde. “Tenho sabido dele pelas notícias”, diz Menescal. “Me tocou muito a frase do filho dele [João Marcelo]: ‘Não pude salvar meu pai de si mesmo’”. 

Sérgio Ricardo, Normando Santos, Tom Jobim, Ronaldo Bôscoli e Nara Leão, em entrevista à revista O Cruzeiro

Se a influência do jazz e de outras vertentes sobre a Bossa divide suas origens, o legado da música esculpida na Zona Sul carioca se multiplica como as notas de seus acordes dissonantes, aos diversos cantos do mundo, muito além de um banquinho e um violão. “Em meados da década de 1990, de repente, nossa música começou a alcançar uma geração totalmente nova, por meio de DJs na Europa e no Japão, que descobriram gravações antigas e começaram a fazer inúmeros meus, da Joyce, do João Donato”, celebra o cantor e pianista Marcos Valle, compositor de sucessos que ganharam versões estrangeiras, especialmente “Os grilos” e “Samba de verão”. Ele destaca o caminho diverso dos anos 1960, quando a Bossa se popularizou primeiro nos EUA. “Depois, voltou para lá também. Uns dos últimos a usarem músicas minhas foram rappers, como Jay-Z – com “Ela, ela” em “Thank you” -  e Kayne West, com “Bodas de sangue”, em “God”.

Tom Jobim e Os Cariocas

Valle e Menescal produziram “O Tom da Takai”, em que a cantora regrava músicas de Tom Jobim e é citado por Tárik de Souza entre novidades da Bossa Nova. O curador ainda enumera Bossacucanova e expoentes que seguem lançando material novo, como Celso Fonseca, Rosa Passos e Vinicius Cantuária, além de casas como a Toca do Vinícius, em Ipanema, e o Beco das Garrafas, em Copacabana, “este histórico bunker do movimento, reativado com duas casas de shows por Amanda Bravo, filha de Durval Ferreira”, em um estilo que influenciou do jazz de Stan Getz a Stereolab, passando por Style Council, Matt Bianco e Everything But The Girl.

Serviço

Bossa 60, passo a compasso

Espaço Cultural BNDES. Av. República do Chile, 100, próximo ao metrô Carioca. Tel.: (0800) 702-6337. De 18/7 de julho a 6/9. De segunda a sexta-feira, das 10h às 19h. Visitas guiadas às 12h30 – quartas e quintas, também às 18h15.​ Entrada franca. www.bndes.gov.br/espacobndes.

Tom Jobim, Sylvinha Telles e Marcos Valle – que é pianista e  também toca violão 

Instituto Tom Jobim/Divulgação



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