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Quinta-feira, 19 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Nathalia Timberg diz viver ‘mais ativamente’, quando estreia peça em que interpreta Chopin e outros

Jornal do Brasil JOÃO PEQUENO, joao.pequeno@jb.com.br

“Por que não? É algo que eu sempre gosto de dizer”, desafia Nathalia Timberg, ao ser questionada sobre por que escolheu encarnar o compositor e pianista Frédéric Chopin (1810-1849) e pessoas que tiveram relação com a vida ou a carreira dele, em peça que estreia hoje no Rio de Janeiro depois de passar por São Paulo, Porto Alegre, Santa Maria (RS), Salvador e Fortaleza. 

Em “Chopin – O tormento do ideal”, a atriz interpreta, pela segunda vez, um texto que ela mesma traduziu sobre um músico erudito, apenas dois anos depois de encenar “33 variações de Beethoven”. Ela também retoma a parceria com a pianista Clara Sverner, que já tocara no espetáculo calcada no compositor alemão.

“Foi depois de uma apresentação das ‘33 variações’ que fiquei sabendo desse montagem com textos sobre o Chopin. Quando os tive em mãos, me encantaram”, recorda Nathalia, que traduziu o original do francês Philippe Etesse, de 1987. 

A pianista Clara Sverner toca músicas de Frédéric Chopin, enquanto Nathalia Timberg declama textos alusivos à vida do compositor polonês, radicado em Paris no século XIX

A base dos textos parte de recortes da vida de Chopin e de cartas de George Sand, pseudônimo da escritora Amandine Aurore Lucile Dupin (1804-1876), considerada o grande amor de sua vida, sempre no período em que o músico, nascido em, Zelazowa Wola, na Polônia, e criado em Varsóvia, passou a viver em Paris – ele se mudou em 1830, ano em que os poloneses se levantaram contra o domínio russo e nunca mais voltou à sua terra natal.

Também há declarações e poemas do compositor e pianista Franz Liszt (1811- 1886) e dos escritores e poetas Alfred de Musset (1810-1857), Charles Baudelaire (1821-1867), Gérard de Nerval (1808-1855) e Saint-Pol-Roux (1861-1940). 

Frédéric Chopin, fotografado por Louis-Auguste Bisson, em Paris

“Do Liszt, leio uma resenha de quando assistiu ao primeiro concerto do Chopin em Paris e ficou impressionado e passou a ser um divulgador do talento daquele que revolucionou a forma de se tocar piano e se compor para o instrumento. Liszt, que era ele mesmo um pianista muito virtuoso, enalteceu o ‘auditório emudecido’”, relata a atriz, “uma excelente ouvinte”, como se define sobre educação musical. “Meu pai ouvia sempre muita música, especialmente os clássicos, e eu cresci ouvindo também. Tive esse privilégio”, elogia. 

Liszt se entusiasmou com Chopin; Amandine Lupin foi seu grande amor

Com essa paixão vinda de infância, Nathalia Timberg se declara entusiasta da confluência entre gêneros artísticos, caso aqui da música com o teatro. “No Brasil, às vezes parece que as artes ficam separadas em compartimentos estanques. Para mim, há um trânsito normal entre as várias facetas de expressão, o que inclui também a literatura, as artes plásticas. É impossível, por exemplo, um ator que não seja sensível à poesia”, afirma. “É difícil, porém, a gente ver uma virtuose como a Clara participando de uma montagem teatral por aqui. Quase sempre, os grandes músicos estão em seus concertos, não como parte de outros espetáculos, de outras artes”, acrescenta. 

A montagem original francesa também contava com um pianista renomado. Erik Berchot, vencedor do prêmio Frédéric Chopin de Varsóvia, em 1980.

Tempo de criação e dissonância

O repertório tocado por Clara Sverner inclui mazurkas, balada, noturno, sete prelúdios – números 1, 4, 6, 15, 17, 20 (opus 28) e 21 –, a “Valsa nº2 (opus 69)” e o “Estudo revolucionário”. 

Esse espírito interdisciplinar é compartilhado pelo diretor José Possi Neto, 71. Acostumado a dirigir shows musicais, como os da cantora Zizi Possi, sua irmã mais nova, ele conta que não teve dificuldade com o espetáculo unindo música e representação. “Teatro é um conglomerado de tudo. Sempre teve música, com a trilha sonora, tem luz, que sigo, na operação, quase que como em uma leitura de partitura musical”, afirma. 

Nathalia também encarna pessoas próximas ao compositor, como Liszt e a escritora que foi namorada

Após receber a tradução de Nathalia, o diretor fez adaptações para encaixar o texto de Philippe Etesse em formato, segundo ele, mais teatral. “Não era exatamente uma peça de teatro, mas um roteiro construído pela memória de Chopin e das pessoas que o cercavam. Inverti algumas ordens; também eliminamos alguns poemas. Da forma que estava, parecia mais um concerto com declamações; dei mais uma estrutura dramática, foi uma liberdade que tive”, ressalta. 

A história de vida de Chopin se confunde com a do período romântico, do qual ele foi um dos principais representantes na música. “Quando a gente mergulha nas obras dessa época, vê o quanto ela foi riquíssima, de ideias novas. No caso do Chopin, ele soube dar uma forma nova, essa coisa selvagem adulta, com ousadias de dissonâncias e harmonias estranhas, tudo isso junto a uma grande delicadeza musical”, exalta Nathalia Timberg. “O romantismo foi muito na questão de mexer com a nossa sensibilidade – que não é sentimentalismo, ao contrário do que muitos imaginam”. 

A angústia por não poder voltar à terra natal é um aspecto ressaltado por Nathalia Timberg – filha de um polonês com uma belga. “Em Paris, ele sempre foi muito próximo de outros poloneses exilados e pediu que seu coração fosse enterrado em Varsóvia, onde despontou na música”, destaca. 

Em sua 44ª peça, com 12 filmes e mais de 60 trabalhos na TV, entre séries, novelas e especiais, a atriz já agraciada com o Prêmio Moliére só pensa no que virá a seguir. “Não sou peça de museu, quero trabalhar até morrer. A bagagem ajuda a perceber com mais clareza o que está acontecendo. Hoje, vivo minha vida mais ativamente”, afirma, antes de partir para o ensaio.

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SERVIÇO

CHOPIN – O TORMENTO DO IDEAL. MAISON DE FRANCE. Av. Presidente Antônio Carlos, 58, Castelo;Tel: 2544-2533 Hoje, às 20h30 (horário somente para a estreia). De sexta a domingo, até 29 de julho, às 19h30. Ingressos: R$ 80 e R$ 40. Vendas pela internet em www.tudus.com.br. Bilheteria: de terça a domingo, a partir de 14h. Capacidade: 353 lugares. Duração: 1h40. Classificação: 14 anos. teatromaisondefrance.com.br.



Tags: caderno b, chopin, cultura, nathalia timberg, rio, teatro

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