Jornal do Brasil

Quinta-feira, 19 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Moacyr Luz comemora 60 anos com disco de inéditas e novas parcerias

Jornal do Brasil MÔNICA LOUREIRO, monica.loureiro@jb.com.br

Os 60 anos de idade chegaram para Moacyr Luz como um alívio. Com um sentimento de dever cumprido, o cantor e compositor se diz livre para tocar e cantar da forma que quiser e, principalmente, deixar de lado os ressentimentos. “Essa coisa dos 60 anos me marcou muito intimamente. Então, ao pensar num disco de comemoração, quis fazer um totalmente inédito e com novas parcerias, para mostrar que ainda estou trabalhando muito!”, brinca Moacyr. 

Em “Natureza e fé”, o 14º álbum de carreira, o artista inovou ainda mais ao incluir piano, baixo e bateria pela primeira vez nos arranjos. “E mais, foi a primeira vez em que não toquei violão. A ideia era descentralizar mesmo, ficas mais à vontade. O Carlinhos 7 Cordas fez coisas super elaboradas, por exemplo. Considero um disco maduro, com um resultado conceitual e estou muito alegre com esse resultado”, conta. 

Cantor e compositor diz que levanta todo dia às 5h  para compor e lança músicas com Zélia e Fagner

Das 12 faixas, sete têm participações dos próprios parceiros das músicas, começando por “Atravessado”, com Pretinho da Serrinha tocando cuíca. “Estávamos eu, ele e Fred Camacho compondo ‘Gostei do laiá-laiá’ e ‘batutando’, martelando a cabeça para terminar. Num intervalo para beber água, veio a ideia de ‘Atravessando’ e terminamos ali mesmo’”, conta ele. 

As histórias das parcerias são ótimas. Com Raimundo Fagner, nome pouquíssimo habitual no mundo do samba, Moacyr conta que o encontro, casual, já rendeu uma dezena de parcerias: “Nos esbarramos num supermercado no Leblon, onde eu estava fazendo hora para ir a um lançamento de livro tomando vinho. Resultado: foram duas horas de conversa, duas garrafas de vinho e um grande atraso no lançamento. Mas valeu a pena! Nos encontramos numa quinta e, na segunda, já tínhamos três músicas prontas. Hoje temos dez - ‘Periga’ e ‘Samba em vão’ entraram no meu disco, com participação de Fagner na segunda -, e outra delas ele vai gravar no próximo disco”. 

Já com Teresa Cristina, o encontro foi na Adega Pérola, em Copacabana. “Estávamos comendo uns petiscos e Teresa falando de Xangô. Ouvindo ela, já fui fazendo a letra”, conta sobre a faixa-título ao disco. 

“Gosto”, parceria com Zélia Duncan, é uma das duas únicas canções do disco - a outra é “Samba em vão”: “Não me senti merecedor de tanto amor e resolvi deixá-la cantar sozinha essa linda marcha-rancho”, justifica Moacyr, antecipando que o próximo trabalho com Zélia será um EP com seis músicas e Rogério Batalha. Aliás, projetos e trabalhos não faltam na vida de Moacyr, que comanda, há 13 anos, o Samba do Trabalhador, roda que acontece toda segunda no Clube Renascença, no Andaraí. “Acordo às cinco da manhã para fazer música, sou viciado no que faço. Lancei um livro de crônicas sobre o Rio; dia 29 de setembro, a Orquestra Sinfônica de São Paulo vai fazer um espetáculo com 14 músicas minhas; daqui a alguns dias embarco para participar do festival Mimo em Portugal”, enumera. Sobre os parceiros, Moacyr diz que tem muita coisa inédita para vir: “Tenho cinco músicas com Hamilton de Holanda, inéditas com Aldir Blanc e João Donato”. 

Parceria póstuma 

Duas faixas carregam um significado maior de carinho para Moacyr. “Conto de fadas”, parceria com Luiz Carlos da Vila, e “Chapéu Panamá”, com Mestre Trambique e Wilson das Neves, todos já falecidos. “Moro na Praia do Flamengo e, em dias de folga, costumo ficar ali no Posto 3. Um dia o Diogo Cunha, que está escrevendo a biografia de Luiz Carlos da Vila, me perguntou se eu não tinha nenhuma parceria com ele para incluir no disco. Aí lembrei que poderia haver algo num computador antigo e encontrei essa, a segunda que fizemos juntos em 1996”, relata. 

Moacyr conta que “Chapéu Panamá” foi uma parceria póstuma: “O filho do Trambique me ligou e disse que tinha essa parceria do pai com o Wilson. Aí fiz a música e senti que tinha de gravar, pois acabei prestando uma homenagem aos dois”. 

A última faixa do disco é “Jorge da cavalaria”, parceria com Serjão, que ganhou um coro com 23 vozes de homens chamados Jorge, reafirmando sua espiritualidade, também presente nas letras de “No Baile do Almeidinha” (com Hamilton de Holanda) e, claro, “Natureza e fé”. “Todos os meus discos trazem algo de religiosidade e fé. Estou meio em falta com São Jorge, costumava ir toda semana à igreja, no Centro. Mas sei que ele me perdoa!”, brinca Moacyr, que não é adepto a nenhuma religião: “Sou de tudo! Na minha casa tem um altar com Exu e Buda lado a lado. O importante é praticar o bem”, afirma.



Tags: caderno b, cultura, disco, moacyr, música

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