Jornal do Brasil

Terça-feira, 17 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Literatura: Romance-ocupação

Jornal do Brasil Claudia Nina*, cnina@gmail.com

Que ninguém se aproxime deste objeto estranho se não tiver coragem e gostar de sair dos espaços literários convencionais. No terceiro romance de Luisa Geisler, procura-se um enredo que se esfarela ou se ramifica em mil vozes, entre as quais estão trechos retirados da web e perguntas de um manual de escrita criativa, cujas respostas são incompatíveis com as questões. Mas se há uma insistência por algo que explique ou justifique o livro, então vamos lá: Maria Alice está à procura da mãe desaparecida depois de um surto e, a partir de dicas de um blog misterioso, suspeita que ela esteja em Dublin, para onde vai. 

No caminho, tenta vários empregos informais, encontra brasileiros mais perdidos do que ela e a mãe juntas, e se espalha em uma vida de solidão, errância e, claro, falta de grana. O livro se chama, com muito acerto, “De espaços abandonados”. É o terceiro da autora que tem 27 anos e já ganhou dois prêmios Sesc, além de ter sido duas vezes finalista do Jabuti. 

O fiapo de enredo desdobra-se em uma multiplicidade de coisas, o que já é antecipado logo de cara: “Uso a desculpa de cadernos em branco serem um santuário para o infinito de possibilidades de ideias que ainda posso ter. Qualquer ideia tosca pode funcionar se tiver um suposto simbolismo por trás”. Luísa segue o intento ao explorar as possibilidades do gênero. O romance contemporâneo é isto: espaço que se quer abandonado de preconceitos de estilo – esgarçar as paredes destes vazios é o exercício que a autora faz com humor e segurança. Ocupar estes espaços é função de quem aceita a viagem por um labirinto sem mapa, rota ou destino.

O parágrafo que justifica a existência do livro para quem faz questão de um enredo “sólido” se dispersa em vários momentos do texto, aqui e ali com alterações e adições. Sabe-se, por exemplo, que Maria Alice é míope e, desde os 5 anos de idade, as imagens começaram a escurecer nas bordas. Um dos resumos que se espalham em uma das inúmeras fichas de um manual de escrita criativa que irrompem no meio do texto: histórico: “após um divórcio e o sumiço da mãe, Maria Alice se torna obcecada com um blog de lugares abandonados e se convence de que a mãe o escrevia para ela. Ao longo da narrativa, Maria Alice parte para a Irlanda, onde um dos posts do blog anunciava que a autora estaria fotografando algo. Mora com estudantes por falta de dinheiro, mudando ocasionalmente de apartamento, o que também causa pequenos dramas”. 

A viagem por dentro de uma Dublin que só conhece quem efetivamente mora em seus abandonos internos e metafóricos (como a própria autora) é também um dos veios do romance, em zonas onde os personagens navegam (naufragam) sem eira: “A zona interminável de ventos e lixo me anima. Há dias em que passo de duas a seis horas a vagar, longe do contato humano. (...) Quando acho o lugar apropriado, sento na grama ao lado da cerca e olho a placa de KEEP OUT que já enferruja. Gosto de me perder. Quando o sol começar a se pôr, eu tentarei repetir o rumo para o ponto de ônibus e me perder”.

Seria óbvio dizer que a ideia é exatamente esta: perder-se. Não encontrar um fio por onde puxar a meada e repetir o vagar dos personagens. Palmilhar ao lado de Maria Alice seu gosto pelas ocupações urbanas e dividir a calçada com tantos imigrantes que, como ela, compõem o mosaico que se tornou a Europa. “Mais do que posts de blog indicando lugares e sugerindo possibilidades de onde ela esteja (‘eu não consegui salvá-la’), há espaços abandonados em cada esquina da Irlanda. Talvez não em cada esquina da Irlanda, mas em cada esquina de Dublin. É um país de emigrantes, de casas e fábricas deixadas para trás, de uma economia frágil, que se recuperou, mas só um pouco, as fábricas. Portanto, há uma série de lugares sem pessoas habitando e uma série de pessoas morando nas ruas. Você só precisa prestar muita atenção nos arredores”. 

O texto risca os espaços do caderno em branco com as possibilidades de um romance-mosaico, assim como o mundo-imigrante. “De espaços abandonados” é também um jogo que pode funcionar como uma brincadeira de montar ficção – tentar responder às questões propostas nos “convites” à criatividade ao longo do livro talvez seja divertido. 

Escrever, vale a metáfora, é a ocupação de vazios.

---------

Serviço 

De espaços abandonados 

(Alfaguara, 412 págs.) De Luisa Geisler R$ 59,90

------

*Jornalista e escritora



Tags: caderno b, cultura, espaços abandonados, literatura, livros

Compartilhe: