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Sexta-feira, 20 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

'Dogman' figura entre os filmes mais vistos atualmente na Itália

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*, especial para o JB

Dominadas neste momento por blockbusters hollywoodianos como o novo “Jurassic World” e “Vingadores: Guerra infinita”, as bilheterias da Itália preservam, há cerca de dois meses, uma única produção “da casa” entre os filmes mais vistos atualmente em cartaz: “Dogman”, uma espécie de faroeste contemporâneo, com cachorros ferozes em vez de pistolas. Foram cerca de 340 mil pagantes (€2,4 milhões) em sete semanas, número expressivo diante da população cinéfila da terra de Fellini. 

Laureado com o prêmio de melhor ator (dado a Marcello Fonte) no último Festival de Cannes, onde virou uma sensação por sua precisão narrativa, o novo filme de Matteo Garrone briga com os heróis da Marvel e os dinossauros da Universal Pictures com as armas da autoralidade. Há uma crítica política disfarçada de crônica de costumes no modo como o longa-metragem expõe o descaso do Estado com as periferias. O cineasta romano saiu duas vezes de Cannes com o Grande Prêmio do Júri (a láurea mais valiosa depois da Palma de Ouro): em 2008, com “Gomorra” e, em 2012, com “Reality”. Há quem diga que, em 2019, ele será o candidato da Itália ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. 

“Existem limites morais que não podem ser transpostos: a confiança é um deles”, disse Garrone ao JB ao Cannes. “A metáfora dos cães entra aqui como simbolismo da fidelidade”. 

Sensação em Cannes, ‘Dogman’ se torna o maior sucesso autoral da Itália, já de olho no Oscar

Filmado em Villaggio Coppola, com base em fatos reais, este western ambientado nos dias de hoje foi esboçado há uns 13 anos, sob o título de “O amigo do homem”, tendo em mente o ator Roberto Benigni (de “A vida é bela”) como protagonista. Em “Dogman”, Fonte interpreta um tratador de cães, também chamado Marcello, devotado aos animais, à sua filha e aos amigos da periferia miserável onde vive. Um deles é seu ponto fraco: o agressivo Simoncino (Edoarso Pesce), um viciado grandalhão que arrasta o amigo para as mais variadas confusões, inclusive assaltos. Covarde, Marcello tem medo da força dele. Porém, mais do que medo, ele tem uma fidelidade... canina... ao sujeito. Chega a ir preso para salvá-lo. Mas, uma hora a confiança dele na amizade de Simoncino é rompida. É hora de dar o troco... 

“Fiquei imaginando o que levou Garrone a apostar em mim, uma vez que não tenho o talento cômico de Benigni, capaz de se adequar a um ambiente trágico como este. Talvez a escolhe fosse determinada pela minha expressão de gente comum. Mas, seja qual for a razão, entrei no projeto disposto a ir aos meus limites”, disse Fonte. 

Além do longa de Garrone, um drama chamado “Figlia mia”, de Laura Bispuri, também vem mexendo com o imaginário dos espectadores da Itália. Indicada ao Urso de Ouro da Berlinale, em fevereiro, este melodrama narra o conflito entre duas mulheres pela maternidade de uma menina. 

Entre os dias 2 e 8 de agosto, “Dogman” será exibido no Rio de Janeiro, em São Paulo e mais algumas cidades brasileiras na edição 2018 da mostra anual 8 ½ Festa do Cinema Italiano. O evento trata ainda festejadas atrações vindas de Roma, Milão e arredores como “Fortunata”, de Sergio Castelitto, e “Nico, 1988”, de Susanna Nicchiarelli. 

*Roteirista e presidente da ACCRJ



Tags: cinema, crítica, dogman, filme, itália

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