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Segunda-feira, 23 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Wesley Rodrigues firma-se como um dos maiores diretores da animação no país

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*, Especial para o JB

Goiânia vem se firmando como um polo nobre no planisfério da animação mundial à força de experiências narrativas entre o sonho, a poesia e o regionalismo que marcam a obra do diretor Wesley Rodrigues, laureado com cerca de 20 prêmios por filmes como “Violeiro Fantasma” e “Viagem na chuva”. Capazes de encantar crianças, mas aptos a fascinarem adultos pela delicadeza de seus traços e pela riqueza de sua investigação psicanalítica, esses dois curtas vão integrar uma retrospectiva que a maior maratona animada da América Latina dedicou a este cineasta e ilustrador goiano de 34 anos. Ele é o homenageado nacional do Anima Mundi 2018.

Wesley Rodrigues foi premiado por filmes como “Violeiro Fantasma” e “Viagem na chuva”

A 26ª edição do festival aporta no Rio de Janeiro de 21 a 29 de julho e, em São Paulo, de 1º a 5 de agosto. Em solo carioca, o evento vai ocupar o Cine Odeon, o Centro Cultural Justiça Federal, o Centro Cultural dos Correios, a Praça dos Correios, a Casa França-Brasil e o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), espalhando a obra de Wesley pela cidade, a partir de filmes de verve autoral como “Faroeste – Um autêntico western”, premiado em mostra no Japão. De quebra, ele - que trabalha com animação desde os 19 anos - foi escolhido para ilustrar o cartaz e a arte da 9ª edição do Animage, festival que acontecerá entre 12 e 21 de outubro no Recife. 

“Wesley é um ilustrador de primeira, dono de um trabalho maravilhoso. E quando resolveu colocar esse talento na animação, foi uma soma explosiva”, elogia Aída Queiroz, uma das diretoras do Anima Mundi. “Desde então, ele tem produzidos curtas incríveis. Sua produção não para: ele dirige seus próprios curtas e ainda anima para outros diretores”. 

Na entrevista a seguir, Wesley – que, atualmente, mora parte do tempo em Tilcara, um povoado no meio das montanhas no Norte da Argentina, e outra parte em Aparecida de Goiânia, em Goiás - explica a gênese de seu cinema e comenta suas inquietações.

“Viagem na chuva”

JB: Qual é a tônica central da sua obra animada? 

Wesley Rodrigues: As pessoas sempre associaram animação a um tipo de entretenimento voltado para as crianças, mas, desde que me recordo, meu pensamento ia na direção contrária a esse conceito. Sempre achei que animação não tinha apenas este aspecto. Vi na animação um meio de expressar minhas ideias e sentimentos mais profundos, com um toque lúdico e de fantasia. Considero que meu trabalho carrega a substância de que os sonhos são feitos e busco agregar algo de poesia na hora de criar as imagens que serão parte de meus filmes. Fazer filmes animados é apenas um pretexto para o autoconhecimento, porque em cada filme tento mergulhar profundamente dentro da minha alma. É uma oportunidade que me dou de olhar em um espelho para refletir quem sou eu de verdade.

O que há de goiano nos seus filmes? 

Tento buscar referencias que estão além dos limites de região, de lugar ou mesmo de época. Como nasci e cresci no Brasil, é natural que aquilo que eu expresso nos desenhos tenha algo a ver com essas raízes. Se eu desenhar um samurai, seguramente, ele terá algo de cangaceiro, porque a história do cangaceiro está mais perto de mim do que a dos samurais. Mas eu também tenho a consciência de que, se desenhar um samurai comendo pequi, talvez no Japão não saibam do que se trata, pois os japoneses conhecem um samurai, mas não sabem o que é pequi. Uma vez, pediram para que eu desenhasse um cenário que tivesse umas casinhas do subúrbio dos Estados Unidos. Fiz o desenho e mostrei a um amigo. Ele disse, contente: “Essa rua lembra a rua que a gente brincava quando éramos crianças e me faz lembrar um pouco de Pirenópolis também”. Era para ser o subúrbio dos Estados Unidos, mas saiu uma mistura de imagens do Google, com o seriado “Todo mundo odeia o Chris” e com o clima das ruazinhas de pedra de Pirenópolis. Isso aconteceu porque, mesmo que eu tivesse uma ideia de como era essa imagem dos Estados Unidos, através da internet, da TV ou dos filmes. eu nunca fui lá. Não tenho isso interiorizado. Outra vez, tentei fazer um filme de caubói, o resultado foi meu filme “Faroeste - Um autêntico western”. Então, o Brasil e Goiás estão presentes em tudo que faço simplesmente porque é o natural, é o que conheço e é de onde tiro a maior parte das minhas referências.

Como você avalia a atual realidade da animação no Brasil? Onde Goiás se encaixa nela?

Penso que o Brasil é um lugar onde existe muita diversidade e isso pode ser visto nas produções que estão saindo daqui. Estamos produzindo muito mais do que em anos anteriores. E vejo que a qualidade e a quantidade de profissionais estão aumentando cada vez mais. Ainda hoje o nosso potencial está muito focado no autor, mesmo que mais estúdios estejam sendo criados para dar conta da demanda por séries de TV, comerciais, cinema e games. Mesmo não tendo a quantidade produções que vemos em outros estados, como Rio e São Paulo, Goiás produz muito, e com uma qualidade que não deixa a desejar, se comparada com a produção de locais que já tem mais tradição, ao menos se comparado com a época em que comecei, em 2004.

Qual seria o lugar e o limite da fantasia em seu cinema? 

Acho que a animação é a arte da fantasia por excelência. Penso que todos que decidem fazer animação se lançam nesse caminho sem volta porque a realidade em que vivem despertos já não basta mais. Uma vez li uma frase que dizia que nada grande pode ser feito com a tristeza. Através da animação, busco agregar algo mágico e luminoso em um ambiente que lança mão de todos os tipos de artifícios para te entristecer. Compartilhar essa dose de fantasia e de alegria com as pessoas que assistem a meus filmes é minha meta final.

Você é famoso no cinema por ser prolífico em sua produção. O que está produzindo agora? 

Atualmente, estou preparando o lançamento de um livro em quadrinhos, meu, chamado “Imaginário coletivo”. O livro será lançado este ano no Anima Mundi pela editora Darkside. Estou desenvolvendo atualmente meu primeiro longa-metragem, “O reino dos pássaros”, e estou produzindo dois novos curtas, “O astronauta de papel” e “O sonho de Alice”, que pretendo lançar no ano que vem. 

*Roteirista e presidente da Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ)



Tags: animação, cinema, entrevista, filme, jb

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