Jornal do Brasil

Sexta-feira, 20 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Felizes horas do choro: Casa resiste, atrai público fiel e promove festival

Jornal do Brasil JOÃO PEQUENO, joao.pequeno@jb.com.br

Quando, em 2016, a Prefeitura do Rio inverteu o sentido do tráfego na Rua da Carioca, os produtores de um centro cultural já ousavam desafiar a crise e trilhar a contramão, na via histórica que se tornava um símbolo da recessão, ao ver calçadas inteiras fecharem suas lojas. 

Inaugurada em abril de 2015, em meio ao 6º Festival Nacional do Choro, a Casa do Choro atravessou esses três anos sem um mar de lágrimas. Ao contrário, com preços módicos e um horário de shows (19h) que favorece a saída do trabalho nos dias de semana, conquistou um público que “vem se fidelizando”, segundo a cavaquinista Luciana Rabello, presidente do instituto que administra o centro – composto por músicos e que também funciona como escola de música.

Inaugurada em 2015, a Casa do Choro oferece um cardápio musical de qualidade no Centro

Construída em um prédio de 1902, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural e cedido pelo governo, mas que estava em ruínas, a Casa do Choro nasceu na Rua da Carioca, mas foi gestada na Escola Portátil de Música, fundada em 2000, por professores que integram o mesmo instituto, como o letrista Paulo César Pinheiro, marido de Luciana, e o violonista Maurício Carrilho, filho do flautista Álvaro Carrilho e sobrinho do também flautista Altamiro Carrilho (1924-2012) – um dos maiores expoentes do instrumento no Brasil.

Em 18 anos, ela conta, foram “mais de 15 mil alunos” que passaram pelos cursos de violão, cavaquinho, bandolim, flauta, bateria, percussão, pandeiro, saxofone, clarinete, trombone, trompete, contrabaixo, piano, canto (solo), canto coral, prática de conjunto e as aulas teóricas, como de arranjo e composição.

“A ideia começou a surgir já na nossa adolescência”, conta Luciana, que, na década de 1970, aos 15 anos, fundou o grupo Os Carioquinhas, com o irmão, o violonista Raphael Rabello (1962-1995), e outros instrumentistas. 

“Eu queria estudar música na faculdade, mas não foi possível porque não havia uma escola de música brasileira. Ou você escolhia música erudita ou jazz. Eu gosto de jazz, mas não é esta a minha vocação. Então, a gente pensava ‘Por que não fazer uma escola com base na música brasileira?’”, lembra Luciana, hoje com 57 anos. 

Além de tocar e ensinar cavaquinho, Luciana Rabello dirige o centro cultural

Os frutos do trabalho são contados na própria proporção de mestres formados pela Casa do Choro e pela Escola Portátil. “Dos 37 professores, uns 18 ou 20, metade foi aluno nosso”, conta a cavaquinista, que calcula cerca de 200 alunos na Casa do Choro e “de 900 a mil” na Escola Portátil, na Urca. 

É das aulas, segundo ela, que sai a maior parte do dinheiro para bancar o centro cultural, “ainda assim a um preço módico, de R$ 520 por semestre [cerca de R$ 86/mês], para não elitizar, porque, assim, não iríamos cumprir nosso objetivo, de levar manter o choro e a música brasileira, em geral, como popular, passando por este aprendizado”. 

Roda de choro, uma das atividades da prática de conjunto que faz parte das aulas no centro cultural

FESTIVAL RECEBE INSCRIÇÕES

Pioneirismo 

Ensinar música está na própria origem do choro, defendido por ela como o primeiro gênero de música brasileira. “Tudo começa com a vinda da Corte [em 1808]. Para ter música no Brasil, a família real trouxe partituras, que era a maneira de transmitir a música – não havia gravação, afinal. Também trouxe professores e, assim, em seguida, começou a se formar uma classe musical brasileira, com instrumentistas que já eram nascidos no Brasil – e não mais portugueses, nem africanos. Eles receberam aquelas partituras de músicas europeias de dança, como as polcas, mas as tocavam com seu ‘sotaque’, com influências europeias, tal como de músicas africanas, como os lundus, mas que já tinham um formato brasileiro”, conta Luciana Rabello. 

Maurício Carrilho tocará as músicas que compôs – uma por dia - no ano passado

As composições originais e o padrão dos arranjos consolidam o gênero. “Pixinguinha [Alfredo da Rocha Vianna Filho, 1897-1973] formatou o choro. Trouxe uma formatação que é usada há muito tempo e ainda vai ser usada sempre, pela riqueza, beleza e pela influência da sua obra. A gente faz uma escola de música no Brasil a partir da obra dele. Não tem a ver com sucesso, simplesmente, mas clássicos”, explica Luciana. Não por acaso, o Dia do Choro é comemorado no aniversário de Pixinguinha, dia 23 de abril.

Copa do Mundo de músicos 

Até amanhã, a Casa do Choro recebe inscrições para seu evento anual mais concorrido entre os músicos. Com a Escola Portátil, realizará o oitavo festival – o primeiro de inverno –, com atividades entre os dias 19 e 28 e a presença considerável de estrangeiros. 

Julieta Brandão interpretará canções de Volta Seca

Nesse período, os músicos inscritos, que podem chegar a uma centena de pessoas, montam conjuntos nas aulas e têm de aprender a tocar juntos. “Isso é choro. Tocar junto, em uma música coletiva. Dividir espaço, talento”, ressalta Luciana Rabello, contando que,  “de 8% a 10% dos alunos são estrangeiros – franceses, colombianos, americanos, argentinos, japoneses… Para o festival, ainda vêm outros. A diferença é que, nele, não temos iniciantes, pelo grau de dificuldade, são músicos de alto nível”, afirma. 

Outra atração do festival é o show “Anuário do choro”, de Maurício Carrilho, no dia 27. Ele se dá a missão de compor uma música por dia, durante um ano, com os integrantes da plateia enviando as composições para ele tocar, a partir da data. “Ele pega a partitura relativa àquele dia e tem que tocar”, diz Luciana, que o acompanha ao cavaquinho. “É um desafio também para quem vai tocar, pegar uma música que nunca ouviu”, ressalta.

Zé Paulo Becker lançará o DVD ‘Violão, amigos e canções’ na próxima sexta

Além de apoio financeiro do BNDES – inclusive, para a reforma do imóvel –, a Casa do Choro tem patrocínio da Petrobras para os shows regulares do meio da semana. Hoje, a cantora Julieta Brandão e conjunto interpretam canções do cangaceiro Volta Seca, que fez parte do bando de Lampião e cujo centenário de nascimento foi em março. 

Amanhã, é a vez do duo de violonistas Alexandre Gismonti e Jean Charnaux, com músicas de Garoto e Pixinguinha, entre outros. Na sexta, o violonista Zé Paulo Becker lança o DVD “Violão, amigos e canções”: “Cobramos também um preço acessível e um horário bom para a saída do trabalho, para que não se volte para casa muito tarde”, explica Luciana. 

Alexandre Gismonti e Jean Charnaux apresentarão o seu ‘Duo a zero’ amanhã

“O mais importante é que, nesse tempo, a gente vem conseguindo formar um público fiel, que ainda confirma nossa tese. As pessoas gostam de coisa boa”, comemora. “Em uma rua com 26 lojas fechadas, vamos firme e seguimos adiante”, garante.

_________

Serviço 

CASA DO CHORO Rua da Carioca, 38 - Centro. Tel.: 2242-9947. Shows sempre às 19h, no Auditório Radamés Gnatalli (120 lugares). Ingressos a R$ 40 e R$ 20,  pelo site  www.ticketplanet.com.br ou no local, a partir das 17h30. 

Hoje: ‘100 anos de Volta Seca’, com Julieta Brandão.  

Amanhã: ‘Duo a zero’, com Alexandre Gismonti e Jean Charnaux.  

Sexta-feira: Zé Paulo Becker, lançando o DVD ‘Violão,  amigos e canções’. 

Programação do festival em www.casadochoro.com.br/ portal/view/festival.



Tags: agenda, apresentação, inscrições, música, músicos, programação

Compartilhe: