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Cultura

Protagonista da franquia de vampiros, Robert Pattinson aposta em filmes de risco

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*, especial para o JB

Ícone romântico de quem adolesceu nos anos 2000, tendo a franquia “A saga crepúsculo” como referência afetiva, o inglês Robert Pattinson vai passar o fim de semana fazendo o público americano suspirar de novo, mas não do jeito galante como encarnava o vampiro Edward, e sim como um atrapalhado caubói, sempre com um banjo a tiracolo, em “Damsel”. Indicada ao Urso de Ouro do Festival de Berlim, em fevereiro, e aplaudida por críticos em Sundance, em janeiro, o bangue-bangue cômico dirigido pelos irmãos David e Nathan Zellner chegou ontem aos cinemas dos EUA (a estreia brasileira ainda não foi anunciada) espatifando o perfil de galã do astro. 

Faz tempo que ele embarcou nessa, desde “Cosmópolis” (2012), onde selou parceria com o diretor David Cronenberg, repetida em “Mapas para as estrelas” (2014). Mas agora, o jogo virou de vez, e a seu favor: dois dos filmes pautados por ambições estéticos mais esperados pelo circuito dos grandes festivais deste ano tem Pattinson no elenco. De um lado vem a ficção científica “High life”, da francesa Claire Denis (de “Minha terra, África”), do outro, vem o terror de DNA brasileiro “The lighthouse”, de Robert Eggers (de “A bruxa”), cujo produtor é o carioca radicado em São Paulo Rodrigo Teixeira.  

Denis põe Pattinson no espaço, num ensaio poético sobre isolamento. Eggers leva o ator a um farol assombrado. Ambos os projetos podem fazer bonito nas bilheterias. “Damsel” também. Mas o foco deles está mais nas experimentação das fronteiras narrativas das cartilhas de gênero e não em cifras astronômicas. 

Mia Wasikowska e Pattinson em cena de “Damsel”

“Eu atuo para perseverar, não para permanecer no mesmo lugar, no conforto de um papel que dá certo”, disse Pattinson ao JB, em Berlim. “Uma vez, na época de ‘Crepúsculo’, o elenco foi fazer a promoção de um dos filmes da saga em um estádio lotado. Quando percebi, estava rodeado por 15 mil pessoas, todas de pé, a aplaudir a gente. Era uma coisa digna dos Beatles ou de seleção nacional de futebol que vence a Copa do Mundo. Aquilo foi uma manifestação de carinho, mas me assustou. Hoje, os filmes que eu busco fazer já não lotam estádios... Não passam nem perto disso. Mas as pessoas que pagam ingresso para vê-los me olham no olho e enxergam a minha arte”.

Em “Damsel”, a arte de Pattinson é a ironia. No Oeste digno de chanchada dos manos Zellner, ele vive um apaixonado contumaz que sofre toda a sorte de esnobada enquanto a noiva de seus sonhos, Penelope (Mia Wasikowska), empodera-se. A faceta apolínea de herói romântica que construiu em “Crepúsculo” vai pro brejo.  “Se você pensa que o faroeste é um dos gêneros mais sólidos da história do cinema, tendo sustentando a indústria durante anos, dá ainda mais prazer em poder voltar a ele nos dias de hoje, e de maneira subversiva. É uma coisa parecida com a que Robert Altman fez em “Onde os homens são homens”, diz Pattinson, que em 2017 ganhou aplausos no mundo todo na pele de um ladrão de bom coração em “Bom comportamento”. “Saber surpreender é uma arte. É bom rir onde se espera brutalidade. Gosto de roteiros que surpreendem principalmente quando nos botam diante as convenções de gênero”.

Este ano, ele ainda filma com o australiano David Michôd (de “The rover – A caçada”) um projeto chamado “The king”, sobre o rei Henrique V, e com o americano Antonio Campos, filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes. Realizador de cults como “Simon killer” (2011), Campos escalou Pattinson para “The Devil all the time”, baseado na prosa do escritor Donald Roy Pollock sobre ex-veteranos da II Guerra na zona rural dos EUA dos anos 1960.“Não gosto da inércia. Aprendi com Cronenberg a evitar o óbvio. Daí apostar em papéis incomuns e em dramaturgia boa”, diz Pattinson. “O gosto de atuar vem do risco”. 

*Presidente da Associação de Críticos do Rio (ACCRJ)



Tags: ator, caderno b, cinema, cultura, filme, pattinson

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