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Cultura

Nova edição do Rio Mapping Festival tem projeções em prédios que contam história carioca

Jornal do Brasil JOÃO PEQUENO, joao.pequeno@jb.combr

Imaginar, ampliar e refazer construções históricas do Rio de Janeiro sem quebrar uma pedra nem mexer em uma viga. À luz dos olhos, a criatividade dos artistas e a tecnologia produzem, em minutos, reconstruções visuais em terceira dimensão de fachadas icônicas da cidade. Sob o conceito de projeção difundido nesta década, o Rio Mapping Festival vai até o final de semana, em quinta edição, a primeira, com tema livre.

A entrada principal e as escadarias do Palácio Pedro Ernesto, sede da Câmara dos Vereadores, recebe amanhã a próxima projeção, com visualizadores de Petrópolis, de Curitiba e até da Europa. No sábado, é a vez da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, em frente ao CCBB. “Resolvemos fazer o festival sem tema neste ano para deixar o pessoal mais livre”, explica ao JB Paulinho Sacramento, produtor e idealizador do Rio Mapping, durante projeção, na Igreja da Penha, de seu grupo, o coletivo BPM, que integra com Ricardo Brizio e Leandro Malaquias e que volta a projetar amanhã, na Cinelândia.

Imagens com cores verde-e-rosa e azul-e-branco foram citadas como supostas homenagens a escolas de samba, como Mangueira e Portela, pelo padre que narrava a projeção – “Só uma coincidência”, segundo Paulinho, que, no entanto, tinha na mira o subúrbio carioca, lar da maioria das agremiações. “Escolhi fazer esse video mapping aqui na igreja muito porque tenho família na Penha, sou nascido aqui perto, no pé do Morro do Adeus, em Bonsucesso, criado em Higienópolis. A Igreja da Penha é um lugar onde a galera da minha geração veio muito para festas. É a primeira vez em que fazemos o festival aqui em cima, um lugar onde a gente vê quase toda a Zona Norte, de onde se tem visão do aeroporto, da Ponte Rio-Niterói, do Arco Metropolitano [já na Baixada Fluminense]”, ressalta o idealizador do festival.

Projeção descontruiu e refez visual da fachada da igreja, além de jogar cores

Para a projeção na Penha, Paulinho detalha que o BPM trabalhou sobre a fachada da igreja, com a sua marca registrada de desconstrução e desconstrução da arquitetura. “Em sete minutos, traçamos o caminho de pegar pedaços da fachada, soltar esses pedaços; depois, fazer com que eles se unam novamente. Esse é um pouco da busca do coletivo, em todos os projetos que a gente realizou: fazer com que a fachada se desmonte e monte novamente em cada apresentação que a gente faz. Pensamos mais ou menos assim: ‘com 15 segundos, vamos tirar a janela, vamos virar, vamos explodir’”, explica.

Com os video mappings tendo se difundido em festas, a trilha sonora também serve de roteiro para trabalhos dos artistas, inicialmente chamados de VJs (video jockeys) – ainda que hoje, muitos deles trabalhem sem música. “Com o BPM, tem a coisa da cor, com a saturação bem forte, mas tudo começa no áudio, pela trilha sonora – depois as imagens”, Há artistas que trabalham sem música, o silêncio é um elemento interessante também, mas nossa marca é esta”, pontua Paulinho Sacramento.

VJ foi o termo dado ao maior veterano das câmeras entre os artistas nacionais que trabalham com video mapping quando ele passou a fazer projeções. Aos 62 anos, Jodele Larcher tornou-se nome recorrente nas raves quando já tinha longa estrada em programas musicais da Rede Globo e hoje integra a cena carioca das projeções, com todo o pessoal cerca de três décadas mais jovem.

“Sou diretor de dramaturgia, comecei como operador de VT e sempre tive ligação com a música. Nos anos 1980, comecei a dirigir os clipes do ‘Fantástico’ e fiquei parceiro dos músicos. Em 1997, o Lulu [Santos] me chamou para fazer os visuais do show dele”, explica o artista. 

Aí então, vieram as descrições para profissionais de novos tipos de projeções visuais. “Depois, que descobri que era VJ”, brinca. “Comecei e fazer Gilberto Gil, Netinho – o da Bahia – e pedi ao [Roberto] Talma [diretor da Globo] para ser VJ do Rei, lembra Jodele, que passou a fazer projeções – ainda diferentes da técnica do video mapping – nos especiais de fim de ano de Roberto Carlos.

Quanto ao video mapping, que consiste basicamente em exibições sobre prédios, ele recorda: “No início, o que a gente fazia nem tinha um nome definido. Chamavam, por exemplo de vídeo-fachada, projeção arquitetural até encontrarem o termo video mapping”. 

A tecnologia também ajudou os artistas a sofisticarem seus trabalhos, seguindo suas ideias e chegando ao 3D e a múltiplas projeções por computador. “Antigamente, usávamos máquinas de slide, com imagens estáticas. Depois, vieram projetores de vídeo, mas ainda havia toda a complexidade de você ter que ajustar as imagens a partir do projetor: chegava ele para a frente, para trás, pegava umas máscaras para projetar naquele lugar... Agora, os projetores ficaram mais baratos e os softwares, programas de mapear, mais disponíveis e com eles você consegue trabalhar com perspectiva”, descreve Jodele, que, na busca de um nome que englobe seu ramo profissional de forma geral, define a si e aos colegas como “visualizadores” – termo já aprovado e adotado nesta reportagem.

A denominação de “projeção arquitetural”, por sua vez, seguia bem a linha do caminho traçado no video mapping. “São projeções arquiteturais. Então, o trabalho acompanha a arquitetura e ‘veste’ o objeto, ou o edifício, mas vai desde coisas pequenas. Você pode mapear desde plantas e árvores até prédios enormes. No ano passado, fizemos no Copacabana Palace, outros já fizeram no Empire State, em Nova York; no Hoover Damp, uma represa enorme em Nevada”, enumera Jodele, que, com seu parceiro Vini Fabretti, expôs na Igreja da Penha na mesma noite que o BPM.

Paulinho Sacramento avalia que “o video mapping é o contrário do audiovisual tradicional, em que o diretor ou o roteirista têm primeiro um filme na cabeça e depois manda para cinema, TV ou um celular e você pode assistir a esse produto em qualquer lugar. No video mapping é o oposto: primeiro, você define a fachada – geralmente, locais com uma história envolvida – para modificar, momentaneamente, a arquitetura da cidade. Então, a gente faz ‘ao contrário’: inicia pela busca da arquitetura – e depois cria em cima dela”.

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Serviço 

5º RIO MAPPING FESTIVAL 

PRÓXIMAS PROJEÇÕES 

Amanhã (21/6), de 18h às 23h: Palácio Pedro Ernesto (Câmara Municipal). Praça Floriano, s/n - Cinelândia. BPM Mapping (Rio), Marcus Vinícius (Petrópolis), Urutau Visual (Curitiba) Jeremy Oury (França), Telenoika (Espanha). Festa convidada: Baile do Shackal. Sábado: (23/6), de 18h às 23h: Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rua da Alfândega, 5 - Candelária. Trabalho final da pequisa de artes digitais e integradas da oficina Mapeando, ministrada por artistas do festival. 



Tags: arquitetura, cidade, construções históricas, cultura, festival, rio

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