Jornal do Brasil

Quarta-feira, 20 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Patrícia Selonk interpreta um Hamlet frágil, apaixonado, na versão da Armazém Companhia de Teatro

Jornal do Brasil CLAUDIA CHAVES *

Desde que a tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca, intimamente chamada de “Hamlet”,  foi encenada, pela primeira vez, no The Globe Theatre, em torno de 1602,  foi criado o maior desafio da dramaturgia: como simular a loucura que não é loucura? Como encenar o assassinato da mãe? Como  interpretar o maior solilóquio de toda a dramaturgia, o dilema do Ser ou Não ser? Como resolver o papel mais almejado por  todo e qualquer ator? Como reinventar o príncipe depois de Lawrence Olivier? 

Em “Hamlet”, na versão da Armazém Companhia de Teatro, a direção de Paulo Moraes encontra a justa medida entre o dilema, que é o eixo condutor da peça. Antes de o herói romântico explodir  no mundo, com a sua divisão entre o bem e o mal, entre amar e odiar, viver e morrer, Shakespeare já anuncia esse novo homem, afastado da moral religiosa, e mergulhado na sua interioridade, no dilaceramento de sua origem. E mais grave ainda: o herói que se propõe a seguir a trajetória mais cruel de todas – vingar o pai matando a mãe. 

O primeiro acerto é a coragem de construir um cenário e um figurino que  não demarcam o tempo. Apenas indicam que existe uma contemporaneidade nas músicas, nas roupas, na mistura entre o texto clássico e inserções  que permitem gírias, palavrões para  mostrar que o desespero está bem aí em nosso cotidiano. Caracterizam aquilo que interessa: cada personagem tem o seu próprio ambiente e sua própria roupa. O terno de Claudius, o tio usurpador;  o vestido de rainha de Gertrudes, os looks naite de Ofélia dizem muito do jogo que se encena, traduzidos no  premiado trabalho de Carol Lobato e João Marcelino.

 Importante também foi o recurso de o fantasma do rei assassino deixar de ser uma voz  na cabeça de Hamlet , um espectro e tornar-se corporificado com a presença forte de Adriano Garib no telão. Além da qualidade do vídeo, o close up em Adriano, cria um diálogo entre o ódio de Hamlet, o incitamento a cumprir a vingança que, em último instância, não é do jovem  príncipe. Mas é o jogo de um homem que perde o poder, a mulher, o ressentimento de quem usa o próprio filho, não importa o que aconteça com o herdeiro, contanto que aquilo que lhe tirou a potencia seja esmagado. 

Patrícia Selonk interpreta um Hamlet frágil, apaixonado

E aí para deixar bem claro que o  que conduz e, por isso a eterna atualidade, da trajetória  de Hamlet é a luta entre um homem que foi castrado  em todos os seus aspectos e a sua forma de obter a potencia via  as ações de seu herdeiro, Paulo Moraes coloca uma mulher para fazer o Hamlet. Patrícia Selonk interpreta sem qualquer trejeito masculino. Mas também não tem qualquer exagero do que chamaríamos feminilidade. É mesmo um jovem, um Hamlet frágil, apaixonado, teleguiado e que , cônscio de sua missão, a coloca acima de qualquer coisa. A atuação de Patrícia dignifica  o personagem. É apenas alguém que tem uma missão a cumprir. Lamenta suas perdas – sua despedida de Ofélia e bastante real – mas é Hamlet, é nobre. Essa nobreza delicada é o que faz de Hamlet o Hamlet  a ser visto. 

Um Hamlet interpretado por uma mulher é uma oportunidade rara de se apreciar que o teatro  é o campo de  catarse entre os que vivem os personagens e nós que estamos lá vendo. E que para se ter emoção o que é fundamental é a  boa direção aliada ao talento e a capacidade de se interpretar com emoção o personagem. E, nesse contexto,  a versão de Hamlet  do Armazém Companhia de Teatro  é marco. 

* Professora do Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras

Serviço 

HAMLET, da obra de William Shakespeare 

Montagem da Armazém Companhia de Teatro, com Patrícia Selonk, Ricardo Martins, Marcos Martins, Lisa Eiras, Jopa Moraes, Isabel Pacheco e Luiz Felipe Leprevost 

Direção: Paulo de Moraes 

Tradução: Maurício Arruda Mendonça 

Centro Cultural João Nogueira/ Imperator (R. Dias da Cruz, 170 - Méier;  Tel.: 2597-3897) 

Sex. e sáb., às 19h30 

R$ 40 e R$ 20 

Classificação: 16 anos

Duração: 140 minutos (com intervalo)



Tags: critica, hamlet, jb, jornal do brasil, shakespeare

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