Jornal do Brasil

Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Cultura

'Arquitetura da destruição' destaca crítica sobre 'Safári'

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, especial para o JB

Despido de sua abordagem irônica, fracionado ao limite de uma única imagem capaz de sintetizar sua abrasividade, “Safári” resume-se a um plano (recorrente, ainda que com rostos diferentes) de pessoas que posam para a câmera diante de uma parede de bichos empalhados. São cabeças de espécies diferentes que, para o ego de seus caçadores, simbolizam troféus, e, para o ethos enojado do novo filme de Ulrich Seidl, representam estandartes da bestialidade humana. Vemos, vez ou outra, um africano negro alinhado na frente daquele relicário de horrores: é o modo de o diretor austríaco expor a resignação servil que rege o neocolonialismo dos europeus (e dos EUA) na África. Antes, eram os escravos; hoje, os servos. A exploração é a mesma. A diferença é que antes havia a elite branca, a aristocracia colonial; no documentário  de Seidl existe uma classe média obesa, autoindulgente... e ainda branca. Não é um filme sobre caça. É um filme sobre bestas: as feras germânicas endinheiradas que pagam pelo prazer de matar. Não estamos diante da indústria do tráfico de animais: é um filme sobre crimes individuais. Rimos delas e rimos com elas, o que não é lá a mais ética das reações, mas é o dispositivo com que Seidl opera. 

Troféus da bestialidade em “Safári”

Prestigiado por cults como “Paradise: Love” (2012), o realizador de 65 anos ultrapassa as CNTPs do cinema europeu ao desafiar o limite entre o sacarsmo e o abuso. É difícil não sentir um certo tom de caricatura na maneira como ele enquadra quem lhe dá depoimento. Mas essa caricaturização é parte de uma filosofia de mundo que desconfia dos valores morais e atinge o limite da perversidade. Seu sistema de pensamento é de uma abrasividade que só se encontrava nas telas, antes dele, no polonês Krzysztof Kieslowski (sobretudo em “Não amarás”) e no brasileiro Sergio Bianchi (“Cronicamente inviável”). É um cinema pautado na patologia do insustentável.  

*Rodrigo Fonseca é presidente da ACCRJ

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SAFÁRI: *** (Bom)

Cotaçõeso Péssimo; * Ruim; ** Regular; *** Bom; **** Muito Bom

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Tags: cinema, crítica, filme, safári, seidl

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