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Cultura

Lucas Nobile lança 'Raphael Rabello – o violão em erupção'

Jornal do Brasil JOÃO PEQUENO, joao.pequeno@jb.com.br

Quando, em 27 de abril de 1995, uma parada cardiorrespiratória encerrou a caminhada de Raphael Rabello, esta nota final selou uma temporada de tragédia pessoal, que parecia soar estranha à história do virtuoso violonista. Desde criança, ele estava habituado a traçar e seguir os caminhos que decidia para a sua vida e a sua carreira.

Ao mesmo tempo, sua morte, meses antes de chegar aos 33 anos, foi mais um caso de precocidade do músico nascido em 1962, em Petrópolis, e que sua trajetória detalhadas no livro “Raphael Rabello – o violão em erupção” (Editora 34), biografia que o jornalista Lucas Nobile lança hoje, às 19h, na Livraria da Travessa do Leblon.

Raphael Rabello no antológico show “À flor da pele”, que fez ao lado de Ney Matogrosso

Foi na cidade da Região Serrana do Rio de Janeiro que, em 1970, o garoto de oito anos incompletos reuniu, de surpresa, a família para o que seria seu primeiro recital informal. No violão do avô, tocou “Brejeiro”, música instrumental de Ernesto Nazareth (1863-1934) que ele aprendera sozinho, escondido dos pais, para só mostrá-los quando já estivesse dominando suficientemente o instrumento para se apresentar.

A independência e o talento prematuro eram prodigiosos até para uma família de tradição musical, que o influenciou nos antigos LPs com gravações de mestres do choro, como Jacob do Bandolim e o flautista Altamiro Carrilho, entre outros. Além de ouvir os temas e solos, o menino lia com atenção todos os encartes com as fichas técnicas dos álbuns, demonstrando interesse especial pelos violões de Horondino José da Silva, o Dino Sete Cordas; e Jayme Florence, o Meira, que viria a ser seu professor e influência. Mais do que um discípulo, entretanto, Raphael Rabello se notabilizou por sempre ir além, revolucionando o violão de sete cordas em um instrumento de solo, tocando “para roqueiro”, como chegou a declarar em entrevista. 

“Podemos dizer que o violão popular brasileiro se divide em antes e depois dele”, avalia o autor da biografia. “Até então, o violão era usado basicamente como um instrumento de acompanhamento no choro; o de sete cordas, especificamente, por fazer a ‘baixaria’ [correspondente ao contrabaixo] com as notas mais graves. O Raphael o colocou no centro da música, na frente, o fixou como um instrumento solista”, acrescenta Lucas Nobile, comparando o frisson causado por Raphael Rabello entre as décadas de 1970 e 1980 com o que posteriormente viria a consagrar Yamandu Costa, o violonista virtuoso mais conhecido atualmente no Brasil. 

Com o colega de cordas Paco de Lucia, em 1985

Nobile começou a pesquisar para o que viria a ser “O violão em erupção” a partir de outubro de 2012, quando trabalhava para a “Folha de S.Paulo” e escrevia uma matéria sobre o álbum “Um abraço no Raphael Rabello”, gravado por diversos músicos consagrados, como o próprio Yamandu e o bandolinista Hamilton de Holanda, em homenagem aos 50 anos de nascimento de Raphael.

“Vi que havia pouquíssima coisa escrita sobre a obra dele; a maioria espalhada pela internet, com muita informação errada. Percebi, então, que minha pesquisa não iria se restringir àquela reportagem, que havia um campo muito mais amplo a se pesquisar”, relembra Nobile.

A exploração começou por um baú em que o músico guardava lembranças e registros, como fotos e escritos, aberto para o jornalista pela cavaquinista Luciana Rabello, irmã um ano e nove meses mais velha de Raphael e que integrou com ele o primeiro grupo, Os Carioquinhas, nos anos 1970, na adolescência.

Foi a mesma ousadia do irmão caçula, aliás, que levou Luciana ao cavaquinho, em 1976, às vésperas do primeiro show de Os Carioquinhas. Diante da pergunta sobre quem tocaria o instrumento – até então sem dono – no conjunto, não titubeou e respondeu “Ela!” – apontando para a irmã, que precisou aprender a dominar o cavaquinho em um período mínimo, de alguns poucos dias.

Capa do livro

O próprio Raphael Rabello fez sua primeira gravação com o violão de sete cordas, com os Carioquinhas, poucos meses depois de tocar inicialmente o instrumento nesse modelo específico. Dos sete aos 13 anos,  tentava reproduzir as “baixarias” afinando mais grave as seis cordas do violão do avô – até pegar emprestado o violão de sete cordas de um colega. 

A facilidade para aprender e ir além nos solos e arranjos acabou levando Raphael a entender que nem sempre poderia exigir a mesma rapidez de pensamento e realização de todos os outros profissionais com quem trabalharia – não sem antes até “chamar para a porrada” o produtor João Augusto, que teimava em interferir em suas orientações aos músicos com quem trabalhava no início da carreira como arranjador, já aos 18 anos.

Nas mais de 300 páginas do livro, Nobile não se esquiva de contar detalhes impressionantes, como o do diretor de um colégio que não só perdoava suas escapadas para treinar violão às escondidas da família, como ainda ia para um bar “conversar sobre a vida e tomar chope” com o garoto, então de meros 11 anos. O autor também narra a decadência dos últimos três anos do músico, tomado pela  dependência crescente de drogas – notadamente álcool e cocaína – e endividamento descontrolado, especialmente depois do choque de ter sido diagnosticado com HIV positivo.

Um dos pontos destacados pelo autor, porém, foi o de desfazer alguns mitos que ainda perduravam, entre eles o de que o músico teria morrido de Aids – o livro deixa claro que, apesar do contágio e do desespero a que levou sua descoberta, o vírus jamais chegou a manifestar seus efeitos no violonista. Uma outra versão derrubada foi a de que Raphael Rabello não saberia ler partituras. “O Meira, desde as primeiras aulas, o obrigou a aprender leitura musical, sem a qual, inclusive, ele não poderia ter feito muitos de seus trabalhos, como músico e arranjador. Só se ele fosse um extraterrestre”, brinca Lucas Nobile.

Além da sessão de autógrafos, o autor recebe hoje, na Livraria da Travessa, os violonistas Luís Filipe de Lima e Turibio Santos e o cantor Ney Matogrosso – os dois últimos, importantes parceiros de Raphael Rabello em diferentes momentos de sua carreira, assim como o maestro Radamés Gnatalli (1906-1988) e o clarinetista Paulo Moura (1932-2010).

Já consagrado, Turibio o incluiu em seu show “Choros do Brasil” após ouvi-lo com 15 anos, em 1977, em uma audição particular em seu apartamento, após recomendação do compositor Hermínio Bello de Carvalho. “Hermínio, o cara é genial, é um monstro do violão! Esse garoto tem um futuro bárbaro, espetacular”, respondeu Turíbio, entusiasmado, ao telefone, conforme descrito no livro.

Já nesse futuro bárbaro e espetacular, Raphael Rabello acompanhou Ney Matogrosso no consagrado show de voz e violão “À flor da pele”, lançado em disco em 1990, pela Som Livre.

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Serviço 

Raphael Rabello – O violão em erupção

Lucas Nobile 

Editora 34

349 páginas (R$ 64)

Livraria da Travessa do Leblon (Av. Afrânio de Mello Franco, 290, loja 205A - Leblon; Tel.: 3138-9600)



Tags: caderno b, cultura, raphael rabello, rio, violão

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