Jornal do Brasil

Sexta-feira, 22 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Cultura

[CRÍTICA] CérebroCoração: O dom do copo d’água

Jornal do Brasil CLAUDIA CHAVES *

Uma atriz/autora/ encenadora em um monólogo dentro de um cenário que lembra a instalação “Espaços virtuais”, de Cildo Meirelles, que intenciona abrir o coração com uma aula-performance sobre o funcionamento do cérebro, é a proposta de Mariana Lima em “CérebroCoração”, em cartaz no Teatro Oi Futuro. Em 70 minutos, Mariana fala, pergunta, dialoga com a plateia para entender, ela mesma, em um exercício que mistura memórias, citações, reflexões, o que se passa na cabeça das pessoas e como se resolve o impasse entre a razão cerebral e a emoção do coração. 

A palavra coração tem o mesmo radical de recordar, decorar. Saber de cor é tradução do francês “savoir de coeur”. Mas no texto – lembranças da médica-personagem que está em cena – o fluxo de lembrar, do coração, é construído a partir de uma aula sobre o funcionamento físico-químico do cérebro. Mariana começa falando que podemos iniciar pelo sim, pelo não, tanto faz. A aula mistura projeções através de aparelhos em desuso como retroprojetor, pois é de passado que se quer falar. 

O eixo narrativo da peça é a recordação da médica, interpretada por Mariana Lima

O eixo narrativo é a recordação da médica. Ela rememora uma cirurgia de remoção de um edema em um menino atropelado. A jovem médica está na sala de cirurgia da qual os médicos se retiram após deixarem a cabeça aberta. A partir dessa metáfora da cabeça aberta, Marina/Médica tece um texto que é uma observação pessoal que se mistura ao discurso científico. Retorno importante ao dilema da Modernidade: o que vale é o discurso da ciência ou a narrativa da arte? 

Inspirada no artista Leonilson, pintor, desenhista, escultor, com uma obra fortemente biográfica, Mariana constrói o episódio emblema da peça: projeta uma imagem de um senhor, o chama de Proust e aí conta o seu dom da madeleine. O fato que a faz desencadear as lembranças. Ela envolve um copo d’água e diz que cada vez que realiza esse gesto, toda a sua relação com avô reaparece. O avô sofria de grave depressão, mas era próximo de Mariana, também paciente de depressão. 

A versão final do texto foi construída no período de ensaios, com a colaboração de Enrique Diaz e Renato Linhares, que assumem a direção. A visão da direção não se esgota em realizar um monólogo, promove a performance no diálogo com o cenário-instalação. A abordagem leva a  personagem a alterar o corpo e a voz quando os dados da ciência se transformam em emoção.

A consultoria em arte contemporânea de Luisa Duarte radicaliza o sentido de se fazer de “CérebroCoração” uma obra completa, na qual a atriz se transmute em performer e conduza a narrativa nas margens das palavras, na movimentação da instalação e nas projeções que se misturam à contemporaneidade.

O figurino tem algo de passado na saia, algo de hoje no tênis, muito do tempo que permanece na blusa branca, o amanhã na camiseta. Mariana/performer encarna, de forma eficiente, o embate que todas as pessoas enfrentam: o que penso versus o que sinto. Um cérebro que fica aberto esperando a solução de alguém. Entre a vida e a morte. Entre o ontem e o hoje. E nas lembranças, no dom do copo d’água, nos desperta para que é preciso saber de cor onde começou a nossa dor.

Serviço 

CérebroCoração - Oi Futuro Flamengo (Rua Dois de Dezembro, 63 - Flamengo. Tel.: 3131-3060) • Quinta a domingo  às 20h  • R$ 30 • Duração: 70 minutos • Classificação Indicativa: 14 anos

* Professora do Depto de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras



Tags: cerebrocoracao, critica, espetaculo, jb, jornal do brasil, teatro

Compartilhe: