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Terça-feira, 14 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Dramédia “Antes que eu me esqueça” leva às telas luta contra Alzheimer

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*, especial para o JB

Encarregado de representar o cinema brasileiro no Festival de Xangai, um dos mais prestigiados da Ásia, “Antes que eu me esqueça”, uma comédia de tintas dramáticas prevista para estrear nesta quinta-feira, vem participando de mostras internacionais classe AA, onde nem filmes latino-americanos de cacife autoral têm vez. Elementos recorrentes nas ficções nacionais exibidas lá fora (como tensões da nova classe média, guerra de tráfico em favela, Era Lula, política indigenista ou mazelas sertanejas) passam longe da trama dirigida pelo estreante em longas-metragens Tiago Arikilian. Apesar disso, seu roteiro, sobre um juiz, o severo Polidoro (José de Abreu), que compra um bordel falido, atraiu a simpatia de Carlos Saldanha, animador indicado ao Oscar que dirigiu sucessos como “A era do gelo” e “Touro Ferdinando” - ele gostou tanto do script que resolveu ser seu produtor-executivo e consultor. 

José de Abreu interpreta Polidoro, que tenta se reaproximar do filho

O ímã que atrai olhares e elogios para esta (bela) dramédia é a relação pai e filho. Relação vista pelo prisma da memória e de seu inimigo, o Alzheimer. “É um filme sobre lucidez e as novas formas que as famílias buscam para lidar com os parentes que estão perdendo o controle da própria memória”, diz Arakilian, paulista de 40 anos, que divide o protagonismo de seu filme entre José de Abreu e Danton Melllo. 

De um lado, há um pai juiz que resolve investir suas rendas em um bordel; do outro, um filho pianista clássico que rompeu laços com a figura paterna. Uma reaproximação entre eles começa quando Polidoro entra de sócio em um prostíbulo falido, que ele repagina, transformando num piano-bar para a Terceira Idade. 

Dedé Santana, ao centro, é o aposentado Gregório, que frequenta o bordel decadente

“Tem uma frase no roteiro em que o Polidoro reclama do quanto é duro ter a consciência de perder a própria memória. Essa discussão vem da minha infância: quando eu era garoto, minha mãe tinha uma casa de repouso em São Paulo, onde eu jogava xadrez com pessoas bem mais velhas. Um deles lutou a Segunda Guerra e me contava sempre a mesma história. Essa repetição vem da perda da lucidez”, diz Arakilian, que arranca uma divertida atuação de Guta Stresser como a garota de programa Joelma. 

Entre os frequentadores do bordel de Polidoro, há um aposentado danadinho, Gregório, papel confiado ao eterno trapalhão Dedé Santana. A presença do comediante tem sido um dos chamarizes de “Antes que eu me esqueça” em mostras no Brasil. “Eu passava as férias da infância à espera dos filmes dos Trapalhões estrearem. Logo você imagina o prazer que foi dirigir ruas de Copacabana, onde filmamos, em 2016, as pessoas cumprimentavam ele como se o conhecessem e Dedé era sempre muito carinhoso”, diz Arakilian, que contou com o aporte da Fox, megaestúdio de Hollywood, para distribuir seu filme graças à ajuda de Saldanha, interessado hoje também em projetos sem animação. 

“Minha roteirista, Luisa Parnes, que mora nos Estados Unidos, o procurou com o projeto e ele ficou emocionado. Saldanha trouxe a Fox, levou o montador Quito Ribeiro para a edição e viu vários cortes que montei. A ideia era falar da memória pelo afeto”. 

*Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)



Tags: alzheimer, cinema brasileiro, cultura, festival, filme

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