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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Tom Wolfe, 88, jornalista e escritor

Jornal do Brasil ANDRÉ DUCHIADE, andre.duchiade@jb.com.br

Dos sonhos e contradições dos hippies em 1968 à elite arrivista, frenética e racista da Nova York oitentista, dos primeiros astronautas à massi ?cação do sexo oral na virada do milênio, dos limites éticos do jornalismo a uma crítica de Charles Darwin e Noam Chomsky, por quase 60 anos o jornalista, ensaísta e autor best-seller Tom Wolfe narrou, descreveu e romanceou a vida norte-americana, em reportagens, artigos e obras de ?cção. O escritor foi uma das ?guras centrais do Novo Jornalismo, movimento que incorpora técnicas literárias como ambientações minuciosas, foco na subjetividade dos personagens e associação livre em reportagens. Hospitalizado em Nova York devido a uma infecção, ele morreu na segunda-feira, aos 88 anos, informou à imprensa sua agente, Lynn Nesbit.

Wolfe, um personagem ele mesmo, com roupas de dândi e erudição de doutor de universidade Ivy League, nasceu em Richmond, na Virgínia, em 1931. Segundo o próprio escritor, em entrevista para o “Paris Review of Books”, sua inclinação para a escrita se manifestou cedo, observando o pai, um agrônomo, editar publicações sobre fazendas. “Ao vê-lo trabalhar em sua mesa, eu entendia que era aquilo que iria fazer – escrever”, disse. Wolfe acreditava que esta convicção precoce lhe rendeu “uma enorme vantagem, porque, uma vez que se tem – erroneamente ou não – a impressão de que há uma vocação, você pode começar a direcionar todas as suas energias rumo àquela meta”.

A carreira de repórter começou em Massachusetts em 1957, mesmo ano que concluiu – após ter sido inicialmente rejeitada – a tese de doutorado em Literatura em Yale, sobre a atividade comunista entre escritores americanos de 1929 a 1942. Após uma passagem pelo “Washington Post”, seguiu em 1962 para Nova York, cidade onde começou trabalhando no “New York Herald Tribune”. Nos dois jornais, escrevia sobre temas exóticos, como torneios de pingue-pongue soviéticos, pequenos crimes e reuniões urbanísticas; ainda assim, diria que “o jornal diário é muito ruim para o estilo da prosa de alguém (...) Trabalhando em jornais, você escreve obras de tamanho determinado, muitas vezes muito curtos; tende-se a preferir formas fáceis de humor, como ‘mulheres não sabem dirigir’, essas coisas”.

A grande mudança viria em 1962. Durante uma greve de jornalistas, Wolfe ofereceu à revista “Esquire” um artigo sobre a cultura de carros personalizados no Sul da Califórnia. Após procrastinar até a véspera do encerramento do prazo, Wolfe escreveu um memorando para seu editor, Byron Dobell, descrevendo a matéria que gostaria de fazer, sem prestar atenção a convenções. 

Tom Wolfe, autor de “A fogueira das vaidades”

Em um texto escrito mais tarde, ele diria que “o artigo não procurava de modo algum ser uma história, apesar de usar cenas e diálogos (...) era como uma venda de garagem: vinhetas, erupções de erudição, trechos de memórias, explosões de sociologia, apóstrofes, epítetos, gemidos, gargalhadas, qualquer coisa que viesse à minha cabeça, em grande parte jogada de forma bruta e desajeitada”.

Publicado na íntegra em 1963, o artigo – “Lá vai (Vrum! Vrum!) o carrão-bebê cor de bala de tangerina”, em tradução livre – teve repercussão enorme, recebendo tanto elogios quanto críticas. A prioridade máxima era transportar o leitor para a cena dos acontecimentos – ambição totalmente distante da frieza e neutralidade jornalística tradicional. Para isso, Wolfe valia-se de um estilo descrito por alguns críticos como “pirotécnico”, empregando pontos de exclamação em abundância, palavras estendidas, a criação de onomatopeias e a exploração do espaço físico da página. Os traços se manteriam ao longo do resto da obra, o que, por vezes, lhe renderia a acusação de afetação.

Tão importante quanto o estilo seria seu interesse por subculturas. Wolfe entendia que o país onde crescera se transformava, que estilos e atitudes remodelavam-se em ritmo acelerado, gerando excentricidades do topo da pirâmide social à base. Isso o levou a prestar atenção em grupos praticamente invisíveis para o resto da sociedade, em todos os seus estratos, de comunidades de usuários de LSD a magnatas de Las Vegas, dos Hell’s Angels a esquerdistas ricos admiradores dos Panteras Negras.

Em 1987, ele publicaria o primeiro romance, “A fogueira das vaidades”. Descrito como “o livro essencial dos anos 1980”, o livro aborda como política, raça, classe social, dinheiro e ambição se conectam na Nova York dos anos 1980. A obra teve grande sucesso de público e recebeu críticas positivas, a despeito de acusações de comercialismo e super?cialidade. Em 1990, a obra foi adaptada para o cinema, em ?lme estrelado por Tom Hanks.

No Brasil, sete livros de Tom Wolfe estão em catálogo: “A palavra pintada”, “Eu sou Charlotte Simmons”, “Ficar ou não ?car”, “O Reino da Fala”, “Sangue nas veias” e “Um homem por inteiro”, pela Rocco, e “Emboscada no Forte Bragg”, pela L&PM Pocket. Editados pela Rocco, outros quatro de seus maiores sucessos – “Radical Chique & o Terror dos RPs” e “O teste do ácido do refresco elétrico”, “Da Bauhaus ao nosso caos” e “A fogueira das vaidades” – estão fora de catálogo desde a década de 1990, assim como “Décadas púrpuras”, da LPM.



Tags: cinema, morte, obituario, romance, wolfe

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