Jornal do Brasil

Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Radiohead explora estranheza e assimetria e ainda mantém apelo popular

Jornal do Brasil MARCO ANTONIO BARBOSA, Especial para o JB

Nove anos depois de sua primeira passagem pelo Brasil, o Radiohead – que se apresentou na sexta-feira na Jeunesse Arena, fechando o festival Soundhearts – provou que ainda merece o status de banda mais inquieta do mainstream roqueiro mundial. Sua capacidade de explorar a estranheza e a assimetria e, mesmo assim, manter um inegável apelo popular é única. 

Isso fica ainda mais evidente ao vivo, quando canções de (quase) todas as fases da banda são interpretadas em meio a um impressionante aparato de luz e efeitos visuais. A plateia carioca, que compareceu em bom número e praticamente lotou a pista da Arena, assumiu uma atmosfera quase de culto diante do espetáculo; mesmo nas passagens mais dançantes (e houve várias), a reverência e o encantamento diante do quinteto eram nítidos. 

Radiohead prova que ainda merece o status de banda mais inquieta do mainstream roqueiro mundial

É preciso notar que explorar a estranheza e a assimetria e, mesmo assim, manter um inegável apelo popular é única. O repertório é baseado no último disco, “A moon shaped pool” (2016), e só dá espaço eventual às músicas mais populares do grupo. Quem quis ouvir “Paranoid android” e “Karma police”, dois dos hits do álbum mais importante da banda (“OK computer”, 1997) teve de esperar até o fim do segundo bis. Outras canções mais conhecidas, como “No surprises” e “Let down” apareceram aqui e ali. Mas definitivamente o Radiohead de hoje está longe dessa estética mais convencional, baseada em refrões e guitarras, e abraça ritmos quebrados, interferências eletrônicas, melodias dissonantes. É o que se ouve em boa parte do show. Para a plateia, não fez diferença: os hits foram recebidos de forma mais calorosa, mas todo mundo cantou as músicas mais novas também. 

Em comparação com o show de 2009, o Radiohead parece mais solto. Algumas versões soam mais esticadas, viajantes, como as recriações de “Everything in its right place” e “Bodysnatchers”. Thom Yorke, com a poderosa voz ainda intacta, dança de forma desengonçada, se alterna entre guitarra, teclados e maracas, e o público adora. No background, Jonny Greenwood (guitarra, teclados, percussão), Philip Selway (bateria), Ed O’Brien (guitarra), Colin Greenwood (baixo) e o baterista convidado  Clive Deamer se esmeram para recriar os arranjos e timbres originais com perfeição – mesmo que para isso os roadies tenham de trabalhar um bocado, trocando instrumentos a cada música. 

Para encerrar, não teve “Creep”, primeiríssimo sucesso de 1993, mas teve uma dobradinha poderosa de “The National Anthem” e “Idioteque” e uma “True love waits” (velha conhecida do público, mas só gravada em estúdio no último álbum) em versão acústica, precedendo os supracitados sucessos de “Ok computer”. 

As outras atrações do festival tiveram uma vida mais difícil, diante de um público claramente ansioso pela atração principal. A abertura com o grupo Junun, que mistura influências indianas e do Oriente Médio em arranjos com muita percussão, foi vista por poucos. Já a apresentação do produtor Flying Lotus contou a pista cheia, mas os cariocas não se empolgaram com seu som. Pena: foi um impactante set de música eletrônica complexa, nem sempre dançante, indo do hip hop abstrato ao glitch mais radical e misturando batidas quebradas a samples por vezes reconhecíveis (juntou, por exemplo, o plácido tema da série “Twin Peaks” com um furioso beat de hip hop). Merecia um palco mais adequado e um público mais atento.

http://medium.com/telhado-de-vidro 



Tags: apresentação, crítica, espetáculo, música, show

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