Jornal do Brasil

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Cultura

O sonho possível do cinema brasileiro: Nelson deixa grandes obras

Um dos precursores do Cinema Novo deu ao movimento um de seus mais belos títulos

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Morreu ontem no Rio, aos 89 anos, o cineasta Nelson Pereira dos Santos, um dos precursores do Cinema Novo, em consequência de um câncer de fígado diagnosticado há 40 dias. Ele estava internado havia uma semana no Hospital Samaritano, na Zona Sul. Diretor de filmes fundamentais da história do cinema brasileiro,  realizou os últimos longas em 2012, os documentários musicais “A música segundo Tom Jobim” e “A luz do Tom”. Além de dirigir, era também roteirista de seus filmes. 

Nascido em  22 de outubro de 1928, em São Paulo, formou-se em Direito em 1952. A partir dos anos 1940, trabalhou como revisor e repórter de jornais como o “Diário da Noite” e “O Tempo”, em São Paulo, e, nos anos 1950, no Rio de Janeiro, trabalhou no “Diário Carioca” e no “Jornal do Brasil”. Mais tarde, foi professor da Universidade Federal Fluminense, sendo fundador do curso de graduação em Cinema. 

Precocemente transformado em ícone, Nelson foi um dos pais do Cinema Novo

“Estou comemorando e brindando a vida do meu pai, uma vida plena. Ele conseguiu realizar uma obra fantástica. Tinha uma paixão imensa pelo Brasil”, declarou seu filho Ney Sant’anna Pereira dos Santos. “Ele estava ótimo, não estava doente. Foi internado com uma pneumonia, na semana passada, que cedeu. Estava lúcido, mas cansado. Morreu sem dor, uma morte tranquila, com toda a família reunida”, disse a publicitária Mila Chaseliov, sua neta. Nelson teve quatro filhos e cinco netos. 

“Foi um avô muito presente. A gente tinha muitas discussões intelectuais. Foi quem me ensinou a tomar uísque, num show, aos 19 anos. Eu me senti muita adulta na hora”, contou. O cineasta participou da formação intelectual dos netos, lembrou Mila. “Eu descobri como ele era importante ainda na escola. Todo mundo que eu encontro, quando descobre que sou neta do Nelson, fala do quanto ele é incrível.” 

>> Corpo de Nelson Pereira dos Santos será velado na ABL nesta segunda

Depois de iniciar carreira no jornalismo, Nelson foi para a França estagiar no Idhec , o Instituto dos Altos Estudos Cinematográficos, a Meca de jovens de todo o mundo nos anos 1950, além do Centro de Cinema Experimental, em Roma. Foi quando conheceu o artista plástico Carlos Scliar (1920-2001), que se tornou um grande amigo, diz Cristina Ventura, diretora do Instituto Carlos Scliar, em Cabo Frio. 

“O Nelson era amigo do Scliar antes de se tornar cineasta. Na inauguração da sala batizada com o nome dele, Nelson contou que Scliar deu a ele uma lista de filmes para que ele assistisse para ajudar em sua formação como diretor. Foi  com muita alegria que ele viu a inauguração da sala dele”. 

Dois importantes livros sobre a trajetória do cineasta foram lançados: “Nelson Pereira dos Santos - o sonho possível do cinema brasileiro” (1987), de Helena Salem, e “Meu compadre cinema - Sonhos, saudades e sucessos de Nelson Pereira dos Santos” (2005), de Rodrigo Fonseca. 

De volta da Europa e impregnado pelo neorrealismo italiano, Nelson Pereira dos Santos criou, através de dois filmes sucessivos - “Rio 40 graus” (1955)e “Rio Zona Norte” (1957) - uma alternativa para a chanchada da Atlântida e o tipo de cinema industrializado que a Vera Cruz tentava impor em São Paulo. 

Nelson foi o farol para uma geração que queria colocar o Brasil na tela

Precocemente transformado em ícone, farol para uma geração que queria colocar o Brasil na tela, Nelson foi um dos pais do Cinema Novo, ao qual deu um de seus mais belos títulos - “Vidas secas” (1963), adaptado do romance de Graciliano Ramos. Conta a lenda que Nelson nem chegou a elaborar um roteiro. Filmava do próprio livro. 

O mundo inteiro estava mudando nos anos 1960. Na trilha aberta pelo neorrealismo e pela Nouvelle Vague, pipocavam os cinemas nacionais. A ambição de Nelson e seus amigos - Glauber Rocha, Cacá Diegues, Leon Hirszman, Ruy Guerra, etc. - não era pequena. Queriam mudar o cinema, e o mundo. 

Boa parte da obra de Nelson Pereira dos Santos é feita de adaptações. Nelson Rodrigues, Graciliano, Guilherme de Figueiredo, Machado  de Assis, Jorge Amado. Foi, com “Vidas secas”, um dos definidores da estética da fome. Com “Fome de amor” (1967), realizou seu filme mais experimental. Com “O amuleto de Ogum” (1974), deu talvez a sua mais bela contribuição a um cinema nacional e popular. 

Com “Memórias do cárcere” (1984), voltou a Graciliano e assinou outra obra-prima. Com “A estrada da vida” (1981), filmando Milionário e Zé Rico, fez um filme adiante de sua época. O artista como trabalhador. Nelson continuou adaptando - “Casa Grande e Senzala” , “Raízes do Brasil” . Documentou Zé Keti e Antônio Carlos Jobim, o Tom. 

O poeta Marco Lucchesi, presidente da Academia Brasileira de Letras, lembrou o engajamento de Nelson Pereira dos Santos no dia a dia da Casa de Machado. Foi o primeiro cineasta a ingressar na instituição, eleito em 2006. Nelson fazia também a curadoria do projeto “Cinema na ABL”, que exibia filmes todas as sextas-feiras no teatro do prédio anexo.As sessões tinham entrada gratuita e eram abertas para o público em geral. Em 2009, Nelson filmou o documentário “Português, a língua do Brasil”, para o qual foram ouvidos acadêmicos. 

“Era uma pessoa absolutamente adorável no convívio. Um dos acadêmicos mais assíduos. Distribuía seu luminoso bom humor na casa”, contou Lucchesi. Segundo ele, Nelson estava presente nos chás das quintas-feiras e em eventos. “Ele manejava uma caneta de luz, escrevia assim sua poesia sobre o Rio e o Brasil. Em ‘Rio, 40 graus’, temos ali um Visconti dos espaços, um Rossellini, não devia nada a eles”. Para Lucchesi, o modo de Nelson pensar o País enriqueceu os debates da ABL. “Ele sempre pensou grande, de uma perspectiva continental, e com leveza, intensidade. Estamos perdendo intérpretes do Brasil. Será uma grande saudade”.

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Depoimentos 

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LUIZ CARLOS BARRETO 

“Todo o cinema brasileiro perpassa pela sabedoria e pelo saber do Nelson. Seu pensamento e visão de mundo são o maior legado de sua obra”.

RUY GUERRA 

“Tô muito abalado só lamento a perda de um grande amigo e um grande cineasta”.

RODRIGO FONSECA - PRESIDENTE ACCRJ 

“Nelson foi o marco zero do cinema moderno no Brasil, pois, a partir dele, nossa produção audiovisual passou a se enxergar como ferramenta de transformação social, atualizando para o contexto nacional dos anos 1950 o espírito do neorrealismo de Rossellini. Seu “Roma Cidade Aberta” foi “Rio, 40 Graus”, um ensaio cartográfico sobre a exclusão carioca. Saí dali com prestígio de cronista de nossas desigualdades, caindo de cara no poema-processo “Rio Zona Norte” (1957), com Angela Maria cantando “Malvadeza Durão” num duo com Grande Othelo. Dali para diante entrou numa ciranda de experimentação de gêneros - indo do bangue-bangue “Mandacaru Vermelho” à ficção científica “Quem é Beta” - sempre dialogando com elementos da cultura popular. Falou da fé nos orixás em “O Amuleto de Ogum” e da música sertaneja em “A Estrada da Vida”, com Milionário e José Rico.

ANA MARIA MAGALHÃES 

“Nelson mudou o paradigma do cinema brasileiro quando fez “Rio, 40 Graus” ao seguir os princípios do neorrealismo italiano, em meados dos anos 1950. Ele também formou muitos cineastas, nas equipes que montava. Fui filmar com ele aos 19 anos “Asilo Muito Louco”, era obra aberta, filme muito especial, com Luiz Carlos Lacerda, Arduíno Colassanti, Leila Diniz.  Formamos um grupo muito unido, quase uma trupe de circo, era um prazer filmar. Lembro que ele ficou fascinado quando levei “A história da loucura”, de Foucault, que eu estava lendo em francês. O pensamento dele era muito bem fundamentado, sob a ótica humanista. Tinha paixão que contagiava as pessoas. Nelson internacionalizou o cinema brasileiro.

SÍLVIO TENDLER 

“Muito triste perder esse mestre querido, era um amigo, me ensinou, criou gerações de cineastas brasileiros, mostrou o caminho. Era uma pessoa de bem com a vida, vai deixar muita saudade. Convivi muito com o Nelson, fomos  representantes do Brasil no comitê de cineastas da América Latina e viajamos bastante juntos. Era muito querido no mundo inteiro. Por onde passava era amado”.

RICARDO CRAVO ALBIN 

“Sempre foi muito meu amigo. Nós nos conhecemos desde o Museu da Imagem e do Som, do qual fui fundador e diretorpresidente, ficamos muito ligados. Logo depois, fui presidente do Instituto Nacional de Cinema e da Embrafilme, acumulando as duas funções, e o Nelson sempre esteve próximo. Havia um círculo próximo, formado por nós David Neves, Leon Hirszman e Luiz Carlos Barreto. Pela Embrafilme levei o Nelson com “Rio, 40 Graus” para o Festival de Cannes e foi um sucesso, havia sido proibidíssimo no Brasil, pelo nu masculino frontal. Foi uma grande vitória. Depois cedi na instalação do curso de cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF), que o Nelson foi encarregado de implantar. Pedi todo o equipamento pela Embrafilme para ele montar a escola de cinema e ele sempre lembrava disso com muita gratidão”.

RENATO ARAGÃO 

“Nelson marcou época num período em que o nosso cinema precisava ser divulgado pro mundo. Ele representa um cinema de preocupação social. Uma grande perda pro Brasil”.



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