Jornal do Brasil

Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Cultura

Em breve numa livraria perto de você

Marçal Aquino volta à literatura, depois de 13 anos, com ‘A felicidade genital’

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA, Especial para o JB

Enfim, após um hiato estimado em 13 anos, vai ter Marçal Aquino novo, de novo, nas livrarias, local onde este paulista de Amparo, recém-chegado à casa dos sexagenários, alcançou uma das melhores reputações da literatura brasileira contemporânea. Até dezembro, o autor de “O amor e outros objetos pontiagudos” (vencedor do Prêmio Jabuti de contos) - que, desde 2009, cultiva um frutífero casamento com a televisão, como roteirista - lança “A felicidade genital”, uma farsa ambientada no Brasil Colônia, perfumada de erotismo. O livro chega num momento de dupla realização dele no audiovisual, lugar onde Marçal tornou-se uma referência nacional quando o assunto é roteiro, a partir de sua parceria com o cineasta Beto Brant (“Os matadores”) e suas sazonais trocas com outros diretores como Heitor Dhalia - para quem escreveu o cult “O cheiro do ralo” (2006) - e José Alvarenga Jr. - para quem delineou seriados de TV como “Força-tarefa” (2009-2011), “O Caçador” (2014) e “Supermax” (2015). 

O diretor Marçal de Aquino

Nesta quinta-feira, às 22h29, estreia na TV Globo a série “Carcereiros”, um mergulho no universo prisional do país, premiado em 2017 em Cannes, no MIP TV, um dos maiores fóruns mundiais sobre linguagem televisiva. Rodrigo Lombardi encarna o agente penitenciário Adriano, que, a cada episódio, está às voltas com a criminalidade das celas de São Paulo, na produção dirigida por José Eduardo Belmonte (de “Gorila” e “Alemão”) e Fernando Grostein (“Coração vagabundo”), com base no texto escrito por Marçal em parceria com Fernando Bonassi, Dennison Ramalho e Marcelo Starobinas, a partir do livro homônimo de Drauzio Varella.   

Em paralelo, agora em 10 de maio, chega às telas o filme “Tungstênio”, um thriller baiano com José Dumont e Fabrício Boliveira, adaptado por Heitor Dhalia do quadrinho de mesmo nome, que fez de Marcello Quintanilha o quadrinista nacional hoje mais aclamado entre editoras e livreiros da França. A trama cria uma espécie de caleidoscópio moral de Salvador a partir de uma colisão, direta ou indireta, entre núcleos que envolvem um sargento do Exército aposentado; um policial e sua esposa; um traficante. De longe, é difícil encontrar algo em comum entre eles. Mas essas pessoas vão se unir em uma escalada de tensão regada a violência, física ou afetiva.

Na entrevista a seguir, Marçal fala da arte de escrever, nas mais variadas mídias:

Qual é o lugar de “Carcereiros” dentro do imaginário criminal da ficção brasileira e que heroísmo cabe ali?  

Marçal Aquino: Quando criamos o seriado, Fernando Bonassi, Dennison Ramalho e eu estabelecemos de saída que o protagonista, Adriano, seria um personagem que retomaria as características do herói clássico, ou seja, um homem movido por ideais, sem nada do anti-heroísmo que, de certo modo, predomina nos personagens de boa parte dos seriados contemporâneos. Claro, Adriano tem defeitos, angústias e hesitações, porém nunca no plano moral. Mas acho que o aspecto mais relevante tem a ver com a originalidade do personagem, que não é tratado nem pela TV, nem pelo cinema na dramaturgia do cárcere. Pela natureza da ocupação profissional dele pudemos abordar tramas e dramas que se passam dentro e fora da cadeia, o que ampliou bastante as possibilidades da criação.

Que desafios a literatura sobre crime e polícia ainda tem pela frente diante de uma realidade coalhada de corrupção?  

Ainda não enxergo na ficção policial produzida no Brasil, salvo os exemplos pontuais, um interesse em tramas vinculadas aos políticos e à corrupção. Talvez seja um pouco cedo. Imagino que tenha a ver com o fato de que, no plano real, trata-se de processos ainda em andamento, sem um ponto final, um desfecho. Acredito que, em algum tempo, esses temas ganharão mais espaço na ficção. Há um público ávido por essa literatura, a julgarmos pelo ruído que o filme e a série sobre o tema provocaram.

Depois de anos na TV, o que você prepara para as livrarias? Que livro é e do que trata? Sai quando?  

Depois de abandonar dois livros em andamento – um deles uma novela sobre um anão –, eu me senti desafiado por uma história muito diferente do que escrevi até hoje. É o que tem me ocupado nos últimos cinco anos. É uma farsa erótica e satírica passada em momento indefinido do Brasil colonial. Chama-se “A felicidade genital” e, se tudo correr como planejado, deve sair ainda neste ano.

Como foi a experiência de verter os quadrinhos de Marcello Quintanilha para as telas no filme “Tungstênio”? O que esse exercício de adaptação te ensinou sobre a linguagem das HQs? 

Foi um dos projetos mais prazerosos em que já me envolvi na vida. Acompanho o trabalho do Marcello Quintanilha com atenção há muito tempo e sempre fui um fã entusiasmado de “Tungstênio”. Tanto que tinha apresentado a graphic novel dele pra muita gente na TV. Bem, naquele momento, para quem se liga em sincronismos, o Heitor Dhalia, meu parceiro em “Nina” e “O cheiro do ralo”, me contou que estava iniciando a adaptação da HQ. Embarcamos, eu e o Bonassi, no ato. Quer saber? Ao trabalhar na adaptação, descobri camadas narrativas que não tinha percebido nas várias leituras que fiz do quadrinho. Já assisti ao filme. Acho que é o melhor trabalho do Heitor, um diálogo fino com a linguagem dos quadrinhos e com essa obra-prima do Quintanilha.

Seu filme mais famoso, “O invasor”, foi premiado no Festival de Sundance, nos EUA, em 2002, num momento em que explodia a literatura de blogs. Que saldo ficou da literatura originária doa blogs dos anos 2000? Algum bom projeto de literatura ou algum bom autor se fez dali? 

Se é certo que houve alguns resultados interessantes, até em termos de vendagem, confesso que esperava mais no que diz respeito à renovação da linguagem.

Que novo autor brasileiro você considera imperdível hoje? 

Olívia Maia. Produz policiais de talento, o que é muito saudável e estimulante num universo de predomínio masculino.

* Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)

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Radiografia de um ‘depósito de pobres’

Ao avaliar o universo retratado em “Carcereiros”, cuja ficção dialoga com a prosa de Drauzio Varella e com imagens documentais filmadas por Pedro Bial e Fernando Grostein, Marçal Aquino enxerga nas prisões um 3x4 fiel do Brasil, pelo fato de elas traduzirem nossos “apartheids, mazelas e profundos abismos sociais”. Ao lado do escritor de “Faroestes” (2011) e “Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios” (2005), nesse mergulho da teledramaturgia no submundo, estão nomes como o dramaturgo Fernando Bonassi, cujo romance “Luxúria” (2015) foi eleito pela crítica um dos mais possantes experimentos literários do Brasil nesta década.   

“Fruto de uma política de encarceramento em massa, os presídios brasileiros acabaram por se tornar depósitos de pobres, e lugar para onde se transferem as mais variadas demandas sociais”, explica Bonassi, autor de peças como “Apocalipse 1,11”: “Atrás e diante das grades de ‘Carcereiros’ estão todas as mazelas brasileiras: a falência do Estado, o poder do crime organizado e de seus representantes.  É um retrato instantâneo do que somos e fizemos de nós mesmos, nestes tempos”. 

Há ainda, na composição do projeto, um lado pop, assegurado pela presença de um expert brasileiro em terror: Dennison Ramalho, diretor de cults como “Ninjas” (2010) e “Amor, só de mãe” (2003).  (R.F.) Assistente de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, em “Encanação do Demônio” (2008), o cineasta prepara o lançamento de seu primeiro longa como diretor: “Morto não fala”, com Daniel de Oliveira às voltas com fantasmas. Em sua trajetória profissional pelo imaginário das trevas, Dennison vê nos dilemas do agente penitenciário Adriano (Rodrigo Lombardi), em “Carcereiros”, um outro tipo de assombração. 

“Entre 2000 e 2002, trabalhei como assistente de direção no documentário ‘O prisioneiro da grade de ferro’, de Paulo Sacramento. Nós, da equipe, entrávamos e saíamos diariamente da Casa de Detenção São Paulo, o Carandiru, assim como os carcereiros da série com Lombardi fazem”, conta o cineasta. “Ali, pude testemunhar o funcionamento de um presídio, sentir os cheiros, ouvir as pessoas, presenciar mazelas e abusos e, principalmente, entender os acordos que possibilitavam aquilo tudo não explodir. Foi um período transformador, de onde resgato histórias, sugestões e soluções para ‘Carcereiros’.” 

No início de abril, durante o fórum de audiovisual R2C, na Barra, o produtor Caio Gullane e o diretor José Eduardo Belmonte anunciaram que “Carcereiros” terá uma versão para os cinemas, em forma de longa-metragem. (R.F.)



Tags: crítica, entrevista, jb, literatura, policial, romance

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